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A BAIANA - Cap. XXII

                                     
                                     A BAIANA

                                        XXII



Eis que chega o dia em que Francisco e Elaine se encontram em casa desta, para a dita conversa de preparação da estada, em Salvador. Esta sexta-feira à noite, traz Elaine um pouco tensa mas ao mesmo tempo ansiosa pelo momento. A mãe desta, ainda que pareça fingir que não é nada com ela, por dentro mostra-se ainda mais excitada. A boa impressão deixada por Francisco aquando da ida a Salvador, tem-na acompanhado desde essa altura, que vê nele um jovem com qualidades a vários níveis, pouco usuais na sua idade. Os altos padrões de sensibilidade, inteligência e ponderação, a par da boa figura, fazem desta mãe uma mulher com preocupações na área do sentimental, sempre que pensa na filha. Esta, por sua vez, também já percebeu que a mãe é franca admiradora de Francisco.
Há hora programada para a visita, Francisco apareceu. Elaine já o aguardava e recebeu-o numa pequena e aconchegadora sala de visitas, muito bem decorada, mas sóbria de móveis, ainda que estes sejam de fino gosto e qualidade.
Após as saudações habituais, conversaram dos tempos em que ambos frequentaram a escola básica, aliás o único período em que foram condiscípulos. Estiveram com este tema acerca de meia hora e a sós, até que a D. Francelina resolveu aparecer para cumprimentar Francisco. O Dr. Jesualdo não estava em casa, tinha ido a uma consulta ao domicílio. Francisco revelou-se sempre muito seguro e tranquilo. A D. Francelina perguntou à filha se não servia qualquer coisa e que nessa medida, o melhor seria irem até ao bar. Elaine aproveitou a sugestão da mãe e deslocaram-se para o bar que fica no rés-do-chão da casa. Resta lembrar que este está muito bem organizado, com uma boa garrafeira de vinhos de mesa de diversas proveniências, vinhos do porto envelhecidos, whiskies escoceses e irlandeses, conhaques franceses, aguardentes velhas, vodkas, caipirinhas. Enfim, um bar com um stock valioso e um mobiliário sugestivo à degustação de bebidas, com vistas para o jardim exterior, donde vinha som de música ambiente e que a esta hora já se encontrava iluminado com uma iluminação muito bem conseguida sob o ponto de vista do bom gosto, onde se destacam uma pequena fonte luminosa com projecção de jactos de água que na queda dão uma sensação agradável. Até os peixes nele residentes, adquirem um brilho mais acentuado. A piscina e o court de ténis enquadram-se no horizonte exterior. A um canto do jardim e sob a frescura das árvores, um viveiro de aves exóticas complementam o bonito enquadramento da casa, entre muros altos que lhe garante elevados níveis de privacidade. Um imponente cão da raça Dog Alemão, em cor cinza, repousava no relvado. O seu tamanho de touro, era intimidatório.
A conversa tida e havida pouco teve a ver com o que Elaine tinha sugerido previamente. Acabou por se falar de tudo menos universidade. Este encontro serviu principalmente para encurtar amizades.
Depois de terem tomado uma bebida informal e após algum tempo no bar, Elaine quis mostrar o resto da casa a Francisco.
      A casa está muito bem arquitectada. Toda a área de lazer fica no rés-do-chão e anexos de apoio. A parte de cima é a área destinada aos próprios, o espaço de privacidade por excelência. Assim, o roteiro de visita passou-se para o ginásio, equipado com aparelhos de musculação, que o Dr. Jesualdo todos os dias de manhã e durante quinze a trinta minutos usa, antes de se iniciar no seu dia de trabalho, e que inclui também dois tapetes rolantes que mãe e filha usam a espaços. Visto isto, passou-se ao salão de lazer, cujo equipamento se compõe de dois bilhares (um livre e um snooker), matraquilhos, uma mesa de ténis, uma mesa com tampo para jogo de xadrez e outros. A seguir deslocaram-se para a biblioteca, que além dos livros técnicos de medicina, arrumados em estante à parte, se compõe de mais de dois mil volumes. Destes destacam-se obras de autores premiados com o Nobel de Literatura, diversas colecções de histórias universais, enciclopédias temáticas e uma generalista Luso-Brasileira, todos os grandes autores nacionais e as traduções dos melhores escritores estrangeiros e a um canto uma estante só de poesia. Este espaço é muito acolhedor e de muita paz de espírito.
Passaram à videoteca e discoteca onde se sentaram e ouviram umas musiquinhas. Daí, passaram ao salão de festas que é exclusivamente usado quando há eventos em casa, que reúnam mais de vinte pessoas. Vistos estes compartimentos da casa, Francisco não deu sinais de espanto, esses ficaram consigo mesmo, que mais tarde o irão fazer reflectir nas palavras do Sr. Cristóvão barbeiro.
Depois de tudo visto, Elaine e Francisco subiram ao andar superior e mostrou-lhe o seu quarto. Elaine chegou a dizer-lhe que se aquelas paredes falassem…muito teriam a contar, desde choros a risos, sonhos a pesadelos, momentos de felicidade e de angústia, de tudo um pouco. Muito aquelas paredes teriam a contar, muito mesmo, dizia Elaine.
- Lembras-te de alguns desses momentos mais recentes, Elaine?
- Claro que lembro. Dos bons ou dos maus?
- Tu é que sabes do que gostarias de falar…
- Vou falar dos bons. Os maus são para esquecer.
- Ok.
- Também não vou falar agora, não é oportuno.
- Ok. Tu é que sabes. Respeito.
- Ah, vês aquele boneco grande em cima da minha cama? È o meu único companheiro. Não tenho outro. Aguarda substituto, e riu-se.
- Quem sabe, não estará para breve…e esboçou sorriso malandro.

Posto que esta visita se consumou, Elaine não mostrou vontade que se visse o resto da casa, não era importante para o fim em vista. Este passaria pela amostragem do seu quarto, para que ficassem no ar insinuações, conjecturas ou sonhos de olhos bem abertos. Ela sabia que Francisco não ficaria insensível à recepção oferecida e que de algum modo, qualquer coisa lhe ficaria em memória. Findo o encontro, Elaine prometeu que esta recepção haveria de ser a primeira de muitas e quis mesmo calendarizar a próxima, só que Francisco respondeu que lá mais para diante, dado que não sabe ao certo as suas disponibilidades.
Despediram-se com um beijo. A D. Francelina que estava alerta ao desenrolar dos últimos momentos, também apareceu para a despedida, tendo cumprimentado e dito que aparecesse sempre que quisesse, que a porta estaria sempre aberta para pessoas inteligentes.
Regressado a casa, a Francisco nunca ocorreu tanto o nome de Cristóvão barbeiro, como neste momento. As palavras que dias antes este lhe tinha dito aquando da última vez que foi cortar o cabelo, esbarravam no compromisso de honra assumido com Josy, em que lhe tinha jurado fidelidade até à espinha. Um conflito interior vai-se instalar na cabeça e coração de Francisco. Procura resolve-lo, relegando esses pensamentos, de modo a não o perturbarem. Sabe que vai ter de reflectir maduramente entre continuar a namorar para Josy ou passar-se para o outro lado, donde já recebeu discreto sinal. A próxima noite e o travesseiro encarregar-se-ão de o aconselhar sobre o rumo a seguir. Irá ficar nesta reflexão até às tantas, quebrada pelo sono, que terá ocorrido já os passarinhos na rua chilreavam. Ao outro dia, sábado, dia de encontro com Josy, o mais difícil para Francisco, desde que o namoro começou, já uma conclusão havia sido retirada dessa reflexão profunda. O namoro com Josy era para continuar. O casamento não deve assentar em interesses económicos, dizia, demais tenho de ter coerência, personalidade, que é nisso que se estribam os valores. Em consciência não há nem nunca houve razões para uma ruptura. Josy é pobre mas eu também e além disso é uma moça que aprecio. Não é perfeita mas a perfeição não existe em pessoas, logo o namoro é para continuar.
Foi assim que Francisco acordou determinado.
À tarde, o encontro com Josy seguido de missa, manteve as rotinas habituais.
Perante a presença de Josy vai procurar não evidenciar quaisquer sinais ou palavras comprometedoras, porque o sexto sentido de Josy é muito apurado e o questionaria.
No fim do almoço e após breve descanso deitado no sofá da sala, ouvindo Chico Buarque, por volta das dezasseis horas rumou até à casa de Josy para o encontro por ela aguardado com boas expectativas de mais um dia de felicidade. Após o descanso e antes de ir, tomou banho, fez a barba, vestiu-se com roupa informal que constou de Jeans e sweat às riscas largas, azuis e brancas, aliás uma roupa que Josy gosta de o ver vestido. Quinze minutos depois, já estava em casa de Josy, que o aguardava a cada momento, espreitando à porta da cozinha. À distância identificou-o, foi dentro fazer uma maquilhagem ligeira, que constou de rímel e uma sombra esbatida que lhe dão aos olhos uma energia indescritível. Não pôs baton, para não prejudicar as beijocas que estão no horizonte.
Depois desceu e veio aguarda-lo ao portão. Vinha feliz, há dois dias que não se encontravam. Beijaram-se.
- Oi amorzão, que saudades…
- A quem o dizes Josy…
- Que cara é essa? Não dormiste bem?
- Que tem a cara?
- Estás com olheiras. Não é habitual estares assim.
- Não dormi muito bem, não
- E porquê, posso saber?
- Podes. O aproximar das aulas em Salvador, traz-me triste. O nosso afastamento muito mais que o habitual, na fase inicial vai ser difícil de ultrapassar. Com o tempo espero que passe.
- Será só isso? Ou tens alguma coisa a angustiar-te?
- Não, é só isso. Nunca pensei que pudesse ser tão difícil a ida para Salvador.
- Ora ora, não te vai custar nada. Tens a Elaine para te ajudar…
- Lá vens tu com a mesma conversa de sempre.
- Pois. Nunca te conheci essa pieguice. Tu deves, é estar confuso…
- Confuso? Com quê?
- Com quê? Deves saber melhor que eu. Cá por mim, tu dormiste mal mas foi por estares a pensar noutra coisa.
- Mudemos de conversa. Não chegamos a lado nenhum. Não te esqueças que te jurei amor eterno.
- Juraste sim senhor. Não basta jurar, é preciso cultivar a jura…
Francisco percebeu e confirmou que Josy tem um sexto sentido apuradíssimo que a faz adivinhar o “presente” e o futuro. Não poderia sair das rotinas que Josy apanha logo e faz questão de o confrontar, até para saber ainda mais e ou tirar ou desfazer duvidas.
Posto que esta conversa se travou, tudo regressou à normalidade. Conversaram de banalidades. Não era o momento mais adequado para falarem dos próximos dias que em Salvador e longe um do outro, os irão fazer sentir emoções diferentes das habituais. O momento para falar mais a sério, ficará para o fim da missa, que daqui a meia hora se iniciará. A D. Gertrudes já está em preparativos para a saída para a igreja, que se fará sem a companhia de Olegário, que escolheu iniciar os passeios de reconhecimento à zona da casa de Micaela. Esta por sua vez, vai ao encontro da cunhada para irem juntas à missa. À saída de casa Olegário ainda chegou a ver Micaela, mas preferiu não voltar para trás. Para ele a volta de reconhecimento é mais importante que a missa. Acha que se tudo funcionar bem, o encontro será de sucesso.
O período da missa, de cerca de uma hora, foi aproveitado para Olegário se tornar melhor conhecedor do terreno. No caminho de prospecção, lá estavam os sete gatos pretos, que sobranceiros e à passagem de Olegário, talvez por o estranharem, soltaram um uníssono miau. À cabeça da trupe, Moranga mostrava-se a mais ruidosa. Não admira que esta zelosa mãe e avó se comporte dessa maneira. Muita experiência de vida e bem conhecedora do comportamento dos “animais humanos”, fá-lo para marcar o seu território e dos seus familiares.
Olegário é que não achou graça nenhuma e muito menos a tanta sobranceria dos felinos. Acha-os insignificantes e entende que aquele sentido policial e behaviorista, tem de ser disciplinado. Dizia, onde se viu gatos condicionarem a vida dos humanos? Que é que eles tem a ver com a minha vida? Eu alguma vez me meti na vida deles? Sei lá se até aquela velha mãe, anda amigada com algum gato da vizinhança? Nem sei nem me interessa. É com ela. Pergunto, que é que eles têm a ver se eu ando ou não metido com a minha cunhada? Já não bastaria Maria do Tanque, agora mais catorze olhos a observarem-me nos meus movimentos? Se eles não fossem curiosos tudo bem, podiam até viver cem anos ou mais, agora…Isto não pode ficar assim. Vou ter de falar com a Maria do Tanque e sugerir-lhe que os prenda numa jaula, sobretudo à noite. Ninguém tem que estar sujeito a ser mordido ou mesmo perturbado. Se fossem cães tudo bem…Eu desses nem medo tinha, agora gatos, e por cima pretos? Vou sugerir à Maria do Tanque que senão os quiser prender, que os substitua por cães. Estes ao menos, não são curiosos.
Posto que Olegário se acha cheio de boas sugestões, foi falar com Maria do Tanque.
- Olá Maria.
- Olá Olegário. Por aqui? Então não foste à missa com a tua Gertrudes? A tua cunhada também foi, que eu bem a vi.
- Não. Vou noutro dia.
- Que te deu, para vires até aqui abaixo?
- Esticar as pernas. Caminhar faz bem e na nossa idade ainda mais.
- Pensei que viesses fazer ronda.
- Ronda?
- Sim, à casa da tua cunhada. Há tempos de noite, talvez ladrão, saltou o muro da tua cunhada.
- Ai sim! Nunca ouvi falar nisso. Quem lhe contou?
- Os meus gatos miaram muito e eu vim à rua ver o que se passava e vi um vulto a saltar o muro e fugiu. Pelo jeito não roubou nada, senão Micaela tinha falado.
- Se calhar está enganada.
- O vulto era mais ou menos como tu, de estatura. Não me pareceu ser diferente. Devia ser ladrão, não devia ser outra coisa. Tua cunhada é muito séria, não mete em casa homens, à noite.
- Então se é como diz só poderia ser ladrão. Minha cunhada foi sempre uma mulher dada ao respeito. A memória do falecido está-lhe sempre presente. Seria incapaz de meter homem dentro de casa.
- Isso sei eu.
- Já agora, aproveito para lhe dizer que deveria prender os gatos.
- Porquê?
- Na última vez que passei por aqui, quase me mordiam.
- Os gatos não mordem!
- Não percebo. Esses são piores que cães. E então essa gata que tem aí…
- Coitados, o que querem é uma festinha.
- Não se esqueça que os gatos são da família dos tigres e leões, logo podem-se tornar perigosos, além de que são muito curiosos…
- E tu passas por aqui muitas vezes, à noite?
- Quer-se dizer…é raro.
- Então se é raro, quando tencionares passar, avisa-me, que eu prendo-os.
- Não falo só por mim. As outras pessoas que passam por aqui à noite, também devem ter medo como eu.
- Tu és o primeiro a queixares-te. Onde se viu alguém ter medo de gatos?
- Então não percebo. Só se eles têm qualquer coisa contra mim!
- Tu ou qualquer outro que por aqui passa, é igual. Eles não perturbam nada nem ninguém. Já agora que é que tu fazes aqui por baixo a esta hora, posso saber?
- Fazer exercício físico. Queimar calorias. Manter a forma…
- Percebi. Fazer ginástica como os moços novos! Muito bem.
Perante esta argumentação de Maria do Tanque, Olegário ficou desarmado. Irá ponderar o tempo e o modo de “resolver” aquele complexo caso de behaviorismo dos gatos. Ficará para depois de uma mastigada reflexão, com a certeza de que tem de se fazer algo que não perturbe as saídas nocturnas.
Maria do Tanque disse que viu um vulto e que o alerta foi dado pelos gatos. Dizia, este é o meu verdadeiro medo. Sorte ela não me ter reconhecido. Mas os malditos gatos é que deram o alerta. Verdade se diga, estes gatos são melhores que cães para guardar, só que me não dá jeito tanta esperteza.
Maria do Tanque também ficou a reflectir na preocupação de Olegário perante os gatos e também pelo facto de o ver por aquela zona. Em tantos anos de residência ali, não tem memória de tal. Outra surpresa de Maria do Tanque é o facto dele não acompanhar a mulher à missa. Dizia para si, que irá estar atenta aos passos dele sempre que o vir por ali. Isto não deve só fazer caminhada para manter a forma, como ele diz. Está-me debaixo de olho.
Entretanto a missa é chegada ao fim. Faz-se o regresso a casa, de Gertrudes, a filha e o namorado e Micaela. Olegário também acertou o seu regresso para a mesma hora. Micaela impunha esse concerto de horário. Mais um momento de encher a vista ao sexagenário, que não se podia desperdiçar.
Ao longe, vêm dois grupos, um formado pelas cunhadas e outro pelos jovens namorados. Olegário já está a aperaltar-se para que se apresente com bom aspecto geral. Primeiramente, limpou os sapatos ao lenço, depois passou a mão a fazer de escova, em cada uma das mangas do casaco, deu duas bofetadas na cara para que o rosto ficasse ruborizado e apartou o cabelo ao lado com pente que trazia no bolso interior do casaco.
Chegadas as “suas mulheres”, já estava com o visual bem cuidado, o qual lhe dava uma segurança e uma vaidade que era de apreciar. Ao encontro, travou-se o seguinte diálogo:
- Porque não foi à missa cunhado?
- Porque quis dar uma volta a pé, que faz bem às pernas, especialmente aos joelhos.
- Aos joelhos?
- Sim. Os joelhos precisam de muito exercício, se param…
- Se param é mau.
- Muito mau, mesmo.
- Oh homem, está mas é calado. Oh cunhada não ligue ao que ele diz. Ele parece que anda tolo com alguma. As conversas são sempre a dar para a malícia.
 - Nem me apercebi de nada.
- Eu não disse nada que se não pudesse ouvir. Tu é que estás a inventar.
- Bem te conheço. Ultimamente andas com conversas pouco interessantes, só a puxar para a malícia.
- Oh cunhada deixe lá. Deve ser o canto do cisne. Deve estar para dar as últimas.
- Olhe que você não está melhor que ele. Também só lhe puxa conversa do mesmo teor. Mas em si não admira.
- Não admira porquê?
- Porque você é uma mulher carente. Precisa de compensar por palavras o que lhe falta na verdade. Compreendo.
- Você, agora na sua idade é que anda a desconfiar do seu homem? Se não desconfiou em nova, muito menos agora. Deixe-o falar, fica feliz.
- Mas que quer, a minha mulher sabe muito bem que sou escravo à fidelidade. Se em novo nunca perdi a cabeça, muito menos agora. Quem me comeu os ossos, que me coma a carne.
- Ao contrário homem. Nunca mais aprendes o ditado.
- O quê?
- Quem te comeu a carne que te coma os ossos. Mas olha que não estou muito na disposição de comer ossos. Os “dentes” não ajudam.
- E dizes que falo com malícia. Olha como tu também tens jeito. Essa dos “dentes”.
- Bravo cunhado. Você estava atento.
Posto que esta conversa finalizasse, seguindo cada um para suas casas, Olegário teve como único prazer, pouco mais que um olhar sensual que Gertrudes percebeu e de que irá dar parte em ocasião adequada. Olegário também percebeu que Gertrudes apanhou aquele olhar que direccionou para Micaela, de modo que está prevenido para eventuais afrontamentos da mulher.
Os namorados conforme combinado entre eles, irão falar da ausência que se avizinha a passos largos. Josy está muito interessada em saber qual o programa de visitas de Francisco. Este por sua vez já delineou uma visita semanal como provável, mas adiantando que nem sempre será assim, sobretudo em período de exames e testes. Ficou de a avisar destes períodos para que Josy não se surpreenda com as ausências. Esta por sua vez aceitou e compreendeu que melhor não poderia ser. Selou-lhe o compromisso com um beijão que Francisco não esquecerá tão cedo.

Rosa Maria vai sentindo melhoras da sua depressão. As prescrições do Dr. Jesualdo estão a resultar em cheio. Vai com duas semanas de tratamento e para além dos chocolates que come por prescrição, e de que resultou numa pele com um brilho sedoso, também os efeitos da Feniletilamina presente no chocolate a melhoraram na transição de desejo para a fase de amor platónico, que a satisfaz sem presença física da pessoa amada. Já fez alguns esboços de figuras humanas, ainda que pouco perceptíveis da figura que se pretende reproduzir. Os quadros de flores vão em melhor ritmo e com mais qualidade. A leitura de poesia também se iniciou e Rosa Maria não resistiu a ler e reler vezes sem conta, duas, que acabaria por transcrever e enviar pelo correio sem remetente para o Centro de Dia e ao cuidado do jovem Romeu, e que se reproduzem.

                                   A Flor do Sonho

                   A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
                   Miraculosamente abriu em mim,
                   Como se uma magnólia de cetim
                   Fosse florir num muro todo em ruína.

                   Pende em meu seio a haste branda e fina
                   E não posso entender como é que, enfim,
                   Essa tão rara flor abriu assim!...
                   Milagre… fantasia…ou, talvez, sina…

                   Ó flor que em mim nasceste sem abrolhos,
                   Que tem que sejam tristes os meus olhos
                   Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

                   Desde que em mim nasceste em noite calma,
                   Voou ao longe a asa da minh`alma
                   E nunca, nunca mais eu me entendi…,


                                          AMIGA

                   Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
                   A tua amiga só, já que não queres
                   Que pelo teu amor seja a melhor,
                   A mais triste de todas as mulheres.

                   Que só, de ti, me venha mágoa e dor
                   O que me importa a mim? O que quiseres
                   É sempre um sonho bom! Seja o que for,
                   Bendito sejas tu por mo dizeres!

                   Beija-me as mãos, Amor, devagarinho…
                   Como se os dois nascêssemos irmãos,
                   Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

                   Beija-mas bem!... Que fantasia louca
                   Guardar assim, fechados, nestas mãos,
                   Os beijos que sonhei prà minha boca.

Rosa Maria extasiou de felicidade, no momento em que deixou a missiva no posto dos correios para que siga o trajecto normal, com a certeza de, na tarde do dia seguinte já possa estar nas mãos de Romeu.
Por ironia do destino, mais ou menos uma hora depois, Romeu passou à padaria, entrou, perguntou por Rosa Maria à mãe, que lhe respondeu ter ido fazer compras ao shopping e aproveitou para tomar o pequeno-almoço. Falaram do momento que está a viver a jovem e a D. Miquelina falava com satisfação, das acentuadas melhorias do aspecto geral da filha, particularmente no reavivar da alegria que lhe havia fugido. Disse saber que ele tinha alguma responsabilidade positiva nisso, pela boa indicação do Dr. Jesualdo, que segundo ela, nunca pensou ser o médico adequado a esse tipo de doenças. A verdade é que estava a resultar bem e que ele mesmo também é outro moço, desde que o consultou. Disse que lhe estava eternamente grata por tudo o que fez pela filha e que nunca o esquecerá, desejando-lhe tudo o que de bom, a vida tem. Acabado de tomar o pequeno-almoço e quando se preparava para sair, já com as saudações da despedida cumpridas, entra Rosa Maria que esfusiante o beijou em modos nada habituais, entre eles. O contentamento do encontro foi transbordante, deixando algo perplexo e atónito Romeu que não contava nada, com aqueles jeitos. Este, percebeu que a satisfação tão expressiva resultava do seu já bom estado geral de saúde. Ambos comungam da mesma enfermidade e ambos vivem momentos particularmente iguais de felicidade. Falaram muito pouco tempo, porque Romeu estava com pressa por se dirigir para o Centro de Dia, ainda assim, questionou-a sobre os trabalhos de pintura e outros, que o Dr. lhe prescrevera. Rosa Maria disse-lhe que a maior dificuldade está em fazer como ela gostaria, as figuras de homens, mas acreditando ser possível melhorar, até ao ponto de um dia desenhar uma pessoa com alguma qualidade. Disse-lhe também que os trabalhos mais bem elaborados são os quadros das flores e que até os iria buscar para ele ver, ao que ele respondeu não ser a melhor hora, por estar com pressa e que com tempo os gostaria de ver. Que ficaria para melhor oportunidade. Rosa Maria não lhe falou das poesias, para evitar dar pistas à identificação por Romeu, das que vai receber pelo correio. Finda esta breve conversa despediram-se com um até breve.
D. Miquelina e a filha ficaram a falar de Romeu e do seu bom aspecto geral, longe daquele rapazinho pálido e magro, que o Sr. Calixto um dia lhes apresentou e para o qual pediu comiseração, que foi satisfeita, tendo também em atenção a consideração que este merecia desde os tempos em que deu sangue para salvar a vida do Sr. Fortunato, avô de Rosa Maria. Esta por sua vez, não deixava disfarçada nos olhos e rosto, o apreço por Romeu, que a mãe percebeu.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 28/09/2007
Código do texto: T671728

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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