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A BAIANA - XXIII

 
                                         A BAIANA

                                           XXIII


No dia seguinte de tarde, Romeu recebe das mãos da D. Margaridinha uma carta sem remetente, que lhe levantou suspeita, a qual foi entregue na hora do lanche, altura em que o jovem marca sempre presença. Romeu, sentiu um ligeiro arrepio por a carta ser anónima mas logo a seguir, encarou com normalidade. O primeiro pensamento que lhe ocorreu é que seria de Francisco e que por falta de coragem a terá escrito e remetido sem identificação. Esta dedução baseava-a em ciúme que Francisco estaria sentir em resultado das poesias que coloca na caixa de correio da namorada e de que lhe terá dado conhecimento. A outra suspeita inclinava-se para Josy, mas aqui formulada em silogismos bem diferentes. Acreditava que ela já o terá identificado como o moço das poesias e que lhe estaria a escrever não se identificando exteriormente, fazendo-o no seu interior. Seja como for, ele não abriu ali a carta, meteu-a no bolso de trás das calças para a ler mais tarde.
Algumas velhinhas do Centro de Dia, aperceberam-se da entrega da D. Guidinha e confirmaram-no pela visualização da carta no bolso das calças. Em tempo oportuno irão falar-lhe. Romeu estará impaciente até à sua leitura mas ainda assim achou que o trabalho está primeiro e que a carta deverá ser lida mais tarde e longe dali, porque segundo ele, não se sabe o que dirá e a cara o testemunharia. Assim procedeu no timing de leitura. Depois da ocupação normal da sua actividade no Centro de Dia, fez o regresso a casa com passagem pela padaria com o duplo objectivo de comprar umas guloseimas para os irmãozitos mais novos e de conversar um pouco com Rosa Maria, e uma vez mais ele mesmo fazer uma avaliação do seu estado geral de aspecto, mais de que de saúde.
Antes, sentou-se numa pedra debaixo de uma frondosa árvore que o abrigava do escaldão do sol e abriu a carta. O seu espanto foi grande com o teor da mesma. Duas poesias românticas! Em face disto, ganha força a ideia de que seja obra de Josy, a dar-lhe resposta às diversas poesias por ele remetidas. Pensou que a luta que tem travado, está a surtir efeito. Certo é que o vai pôr pensativo.
No fim da leitura, dirigiu-se à padaria, encontrou Rosa Maria e conversaram acerca dos temas habituais. Esta apercebeu-se, que uma inusitada satisfação trespassava Romeu.
- Vejo-te muito feliz, Romeu. Passa-se algo contigo?
- Não e sim.
- Não e sim?
- Quer-se dizer: Não, porque não aconteceu nada de muito especial, sim porque recebi uma carta muito interessante.
- Carta interessante? Posso saber algo dela? Ou é de âmbito privado?
- É particular, mas podes saber…recebi uma carta anónima com uns poemas muito bonitos. Quase sei quem mos enviou…
- Ai sim. Ficaste feliz, não?
- Fiquei e da pessoa que suponho mos ter enviado, ainda mais…
- Deve ser pessoa que tu amas, não?
- Sim, se for a que eu penso…
- Então, quer-se dizer que tens já suspeitas…
- Sim, tenho.
- Hum…Não digas mais nada. Fica com o melhor para ti.
Ficou no ar a ideia de que Romeu saberia pela certa, quem era a autora da carta e a certeza de Rosa Maria, que sabia estar errado. Esta contradição de juízos irá permanecer por muito tempo.
Rosa Maria não lhe declara amor porque percebe que Romeu só a aceitará para amiga e como tal não vai arriscar declaradamente, o amor que lhe tem, para que no mínimo a amizade se não perca e o prazer de lhe falar e com ele rir e sorrir, se não esgote. Rosa Maria sabe muito bem, que, se se lhe declarasse e levasse com uma nega, as relações ficariam marcadas negativamente. Nada mais chocante que um “Não” às pretensões amorosas, é em si doloroso de digerir. Com estas certezas e incertezas estes jovens vão mantendo uma relação muito amistosa e duradoira. Rosa Maria irá sofrer consigo mesma, a dor de amor não correspondido. A obsessão de Romeu não deixará margem para lhe corresponder, contudo ela se irá satisfazer com os encontros amistosos, que ocorrem com maior frequência que nunca. Rosa Maria vive interiormente uma paixão desmesurada e está a aprender a viver com ela, de modo a não a deixar passar para o exterior. Rosa Maria nunca foi uma moça extrovertida, nem nunca se integrou em grupos de jovens da sua idade. Na escola já se manifestava uma garota envergonhada e por via disso era marginalizada. Filha única, recebeu da mãe um acompanhamento muito apertado e uma educação clássica que certamente lhe condicionou a sua personalidade. Educação feita de muitos “nãos” e de “proibidos”, tê-la-ão marcado para sempre. O seu futuro de vida irá reflectir esta mesma educação.
No lado oposto desta personalidade está Micaela, sequiosa de realizações pessoais e lutadora por causas de cariz afectivo que não a deixarão descansar tempo algum. Hoje é dia de peixeiro e Micaela já está preocupada com a roupa que há-de vestir para que se apresente com bom aspecto. Ela já há muito faz contas à vontade de vencer esta causa ou de a perder. É muito determinada e só acredita na sua derrota quando vir Alfredo casado. Até lá não vai descansar da ideia de o vir a ter para si. Aquela coisa do cunhado, foi um devaneio que não tem pés para andar, ainda assim, vai-lhe dar mais uma e só uma oportunidade, que servirá para saldar as prendas.
A hora do peixeiro está atrasada. Costuma chegar, mais minuto menos minuto pelas dez horas e já são quase onze e nem sinal. Micaela já está preocupada com o que poderá ter acontecido. Vários cenários lhe tomam o espírito. Até o mais macabro se instalou na sua cabeça. Por fim e ao longe, parece perscrutar a buzina do carro do peixe, que à medida que se aproxima, cada vez mais se identifica com ela e que traz alívio ao seu peito, que estava debaixo de tensão nervosa, de modo que até a respiração se fazia com dificuldade. Já com a certeza do carro do peixe em fundo, que a sua vista vislumbrava nas ruas mais baixas, Micaela atavia-se definitivamente e vem para a porta aguardar a chegada. Dizia para si: Ai Alfredo Alfredo, matas-me…
Eis que chega o peixeiro. Para espanto de Micaela, desta vez Alfredo não era quem conduzia a carrinha. Ficou novamente preocupada e quis saber porque ele não veio.
- Desculpe a minha demora. Como não conheço muito bem o roteiro de distribuição, trago algum tempo de atraso.
- Tudo bem. O que me preocupa não é isso. Aconteceu algo ao Sr. Alfredo?
- Não. Ouvi dizer que foi tratar de assuntos para o casamento.
- Para o casamento? Ele não é casado?
- Não. Namora uma mulata de Euclides, por sinal muito linda.
- Pensei que fosse casado. Ele também é um homem bonito e por isso julgava-o casado. Moças não lhe faltariam…se ele quisesse.
- É um homem como os outros.
- Não é bem assim. Não desfazendo, ele é um gatão…
Não se fez mais conversa. O peixeiro não estava para aí virado e tinha ainda a volta por acabar e com cerca de uma hora de atraso, tinha de se mexer bem para que não lhe sobrasse peixe no final da ronda.
Quem não gostou da informação recebida, foi Micaela, que não pensava que estivessem tão adiantadas as coisas. Nunca se tinha apercebido nem Alfredo dito, que o seu casamento estivesse para breve. Foi um valente sopapo que Micaela recebeu e que mesmo assim, não vai abdicar de lutar e agora com mais pertinácia. Acredita que parar de lutar é derrota certa. Seu lema “lutar e resistir até ao fim” vai ganhar mais força. Vai definir para si quais as formas de luta a implementar. Contudo, também se quer ver livre do cunhado e o mais rápido possível, para que possa pensar só em Alfredo. Vai tentar que este final de semana o encontro com o cunhado, aconteça. O último. Quando tiver uma oportunidade de se falarem, acertá-lo-ão.
Olegário tem a percepção de que Micaela está receptiva a novo encontro e em função disso, continua com as caminhadas de reconhecimento. Por ironia do destino, não tem visto os gatos, não se sabe se por Maria do Tanque os ter prendido depois da conversa havida entre os dois, ou se eles andam vigilantes noutras áreas. Certo certo é que não os tem visto e este facto trá-lo satisfeito. Acredita que sem a presença deles, tudo correrá da melhor maneira. Doravante, o optimismo vai tomar conta dele. Vai ser um homem mais feliz consigo mesmo e nas relações com terceiros. Até Gertrudes lhe irá falar do milagre que aquela missa mandada rezar em sua honra, ao Sr. Dos Aflitos, deu um resultadão.
- Ai homem, como é bom ver-te feliz. Ainda estavas contra mim, quando te mandei rezar aquela missinha pelo Sr. Padre Lira, ao grande milagreiro, Sr. Dos Aflitos.
- Ó mulher, não que não acreditasse na bondade desse “tal” santo, mas o meu medo, era se tivesse ido muita gente, à “tal” missa. Olha que vergonha, eu que sempre tive saúde de aço.
- Sempre tiveste saúde e muita, mas naquele momento andavas muito em baixo e com um pedidozinho a tão bom santo, ficaste com o teu problema de saúde e de humor resolvido.
- Se foi obra dele…digo-te, percebe do assunto, mais que muitos médicos. Ele pagou-se bem do serviço, não?
- Não brinques com coisa séria. E olha que te mandarei rezar ainda mais missas, mas desta vez vou pedir ao Sr. dos Mal Guiados para que interceda junto de ti, para que te mantenha um homem sempre sério e fiel, como tens sido.
- Hum. A este santo acho bem. É meu maior gosto ser-te sempre fiel e leal até aos meus últimos momentos de vida. Concordo. Este, dá-me a ideia que deve ter muito trabalho pela frente. Pelo que ouço dizer, há por aí muito homem encoberto a pregar das suas. Eu não. Deus me livre dessas tentações, demais a minha idade agora nem ajuda, nem quando fui novo alguma vez tive dessas maluqueiras.
- Eu sei que não é bem para ti a intenção da missa, aliás nem fazia falta, mas as minhas amigas também o fazem e mal parece, eu não o fazer.
-Ah. Olha olá, não lhe pagues demais por um serviço que sabes nem fazer falta.
- Já estás prevenido que mais dia, menos dia, essa missinha vai acontecer.
- Concordo.
Olegário ficou a falar para si mesmo e dizia então: a minha, a nossa sorte é que esses tais santos não percebem nada e nem acertam uma. Também se acertassem pobres de nós, que não nos podíamos dar ao luxo das facadas no matrimónio. Eles não perdem tempo com coisas dessas. Pudessem eles e seria bonito. Olha os padres, em que as melhores, são todas deles. Estes, coitados, de certeza que há muito tinham deixado o ofício. Pudera, é tão bom.
Depois desta reflexão, Olegário sentia-se seguro para as diagonais de matrimónio, quer pela boa fé que a mulher deposita nele quer pela desatenção dos ditos santos. Dizia, pena é o dinheirinho deitado fora, que há-de servir para pagar boas ceias à padralhada e se calhar às amantes deles.
Certo certo, é que interesses comuns já rolam. Micaela quer-se ver livre dele e Olegário que está assanhado de desejo, quer abreviar o encontro. Nesta conformidade, os esforços vão-se conjugar para que no próximo fim-de-semana o reencontro aconteça. Para isso, vai deixar bilhete na caixa de correio a calendarizar para Sexta-feira próxima o “assalto”.
Diz o mesmo:
Minha querida e assaz desejada cunhada, Micaelinha.
Dado que me encontro totalmente restabelecido daquele fracasso e porque trago uma “assanhadice” que me não deixa e que nem nos meus vinte anos, muito desejo que o nosso reencontro ocorra na próxima sexta-feira, pelas 23 horas. Ah, os gatos da maluca da Maria do Tanque, não os tenho visto. Tudo se conjuga para que tudo corra conforme é nosso grande desejo. Vais ver o que é homem. Até lá.
                                                                 
                                                     Beijos húmidos.
                                                   Teu Olegáriozinho


Olegário ficará agora a aguardar sinal de Micaela, para confirmação. Para isso vai-se esforçar para que algum encontro informal aconteça, no género daqueles que ocorrem na sua própria casa, em visita que Micaela faça à cunhada, sua mulher. Até lá, contará os dias, as horas e os minutos com extrema ansiedade.

Ao outro dia, Romeu já com as reflexões e deduções feitas acerca da carta recebida, e que o tornou ainda mais feliz que em tempo algum, irá passar à biblioteca para transcrever mais poemas, agora com acrescida razões, segundo ele. O entusiasmo instalou-se em Romeu, que o tornará imparável nas transcrições.


                                        Simpatia

                          Olhas-me tu
                          Constantemente:
                          Daí concluo
                          Que essa alma sente;
                          Que ama, não zomba
                          Como é vulgar;
                          Que é uma pomba
                          Que busca o par!

                          Pois ouve: eu gemo
                          De te não ver!
                          E em vendo, tremo,
                          Mas de prazer!
                          Foge-me a vista…
                          Falta-me o ar…
                          Vê quando dista
                          Daqui a amar!



                                   Carta Anónima

                           Tal como desfeitas correm,
                           Como se esvaem e morrem
                           Nuvens de fumo no céu,
                           Passa a noite, a luz da Lua
                           E a glória de ouvir – Sou tua! –
                           Que deprime o canto teu.

                           Um mistério profanaste
                           No segredo, que violaste
                           Nessa orgulhosa canção;
                           Profanaste, anjo caído,
                           Momentos, que arrependido
                           Sente e cala o coração.

                           Nessas gotas de existência,
                           Bebendo da rosa a essência
                           E desfolhando-a, gozaste?
                           Foste um verme venenoso;
                           Matando-a foras piedoso,
                           Se a virtude lhe roubaste.



                                         Enlevo

                           Não brilha o Sol,
                           Nem pode a Lua
                           Brilhar na sua
                           Presença dela!
                           Nenhuma estrela
                           Brilha diante
                           Da minha amante,
                           Da minha Amada!

                           A madrugada
                           Quanto não perde!
                           O campo verde
                           Quanto esmorece!
                           Quanto parece
                           A voz da ave
                           Menos suave
                           Que a sua fala!

                           A flor exala
                           Menos perfume
                           Do que é costume
                           O seu cabelo…
                           Que basta vê-lo,
                           Prende-se a gente;
                           Prende-se e sente
                           Gosto inefável!

                           Que riso afável
                           Aquele riso!
                           Que paraíso
                           Aquela boca!
                           Penetra, toca,
                           Enche de inveja
                           Um ar que seja
                           Da sua graça!

                           Onde ela passa,
                           Aonde ela chega,
                           Quem lhe não prega
                           Olhos avaros?
                           Há dotes raros,
                           Rara doçura
                           Naquela pura,
                           Casta existência!

                           Oh! Que inocência
                           Que ela respira!
                           A Alma aspira
                           Não sei que aroma,
                           Mal nos assoma
                           Ao longe aquela
                           Pálida estrela…
                           Que rege o mundo!

                           Nunca do fundo
                           Do oceano
                           Foi braço humano
                           Colher ainda
                           Pérola linda,
                           Como a formosa,
                           Cândida rosa
                           Que eu amo tanto!

                           Não sei, de santo,
                           Que há no seu gesto…
                           No ar modesto
                           Daquele todo!
                           Naquele modo…
                           Que tudo esquece,
                           E nos parece
                           Estar no Céu!

Romeu está empolgante de entusiasmo. Josy, intrigada com a proveniência de tão românticas poesias, dirá para si, se não será algum louco que está gozando com ela, sabendo que ela namora com Francisco ou então, se não será algum rival do namorado, que lhe queira mal e que pretenda ver por terra o namoro. Dirá mesmo, que de nada adiantará nos seus propósitos, uma vez que o namoro está firme como uma rocha. Esta avalanche de poesias em vésperas da ausência de Francisco para Salvador, não deve estar a ser feita por acaso, antes qualquer coisa concertada, com o intuito de tentar fazer mossa nas boas relações entre eles. Esta é a conclusão a que Josy chega e que o tempo, se encarregará de desvendar.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 28/09/2007
Código do texto: T671729

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Sobre o autor
Povo Lusitano
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