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SERÁ UM LADRÃO AMANTE OU AMANTE LADRÃO !...

SERÁ UM LADRÃO AMANTE OU AMANTE LADRÃO !...

Havia uma casa de veraneio, cujo acesso por ser muito fácil, um ladrão indagou para si mesmo, por que e por qual excesso de prudência tinha esperado tanto. Desde a varanda percebera uma umidade que durante os verões chuvosos impregna toda a residência que dá lado para o mar. A porta da sala de estar e da sala de jantar totalmente abertas e a entrada da adega também escancarada, eram testemunhas da pressa com que fugira, a empregada loirinha, cuja partida ele espreitara. Uma só empregada, alta como um poste: porventura seria necessário mais que uma para a senhora Maria Rita e para sua pequena casa de praia, edificada naquele terreno arenoso?
O ladrão fechou cuidadosamente a sala aberta, não queria as portas batendo. Contava visitar aquela casa desembaraçadamente, ela que era um passatempo para a senhora Maria Rita. Uma rápida olhada na sala de estar – laca vermelha e uma cópia da tela de Claude Monet, não era ali certamente que a senhora podia ter a idéia de esconder suas economias.
Aquele homem movia-se à vontade na escuridão, iluminado pela noite clara e enluarada, que filtrava pelas persianas. Acendeu uma só vez a sua lanterninha portátil, iluminou uma fotografia de uma senhora muito bonita, com um vestido longo, os cabelos longos e ondulados. Vestida como se fosse para um baile de formatura.

- É a senhora Maria Rita nos seus belos tempos. – falou consigo mesmo.

Já estava naquele local, havia um mês, naquela praia de pescadores, dotada de um casino clandestino, de cimento armado. Chegou ali, vindo de São Paulo e levava uma vida austera de entomologista, estudando os costumes e os hábitos dos banhistas e sobretudo das banhistas, registrando as suas horas de saída e os seus estacionamentos quotidianos na roleta e na sala de danças. Nenhum outro resultado, depois da sua chegada, além de uma bolsinha de ouro e de um anel ordinário esquecido na lavanderia. Corretamente vestido, freqüentava o cassino, procurando ser notado o menos possível, não fazia amizades porque zeloso do próprio aspecto de belo quarentão, de cabelos grisalhos, conhecia a fraqueza da sua sintaxe e a colorida concisão do seu vocabulário.
"Apenas o necessário pensava, para golpear a moça da bar – e a senhora Maria Rita."
Fazia duas semana que a observava, aquela que ele também chamava de "velha maluca": a alta septuagenária que conservava uma silhueta de jovem senhora fora de moda, com o dorso chato no decote rígido e ombros de oficial militar. Os seus cabelos loiros, os seus vestidos de renda inglesa e os seu longos véus cor de rosa ou de orquídeas debatiam-se e apressavam o passo para ver seu rosto, semelhante a uma cabeça de defunto modelada, semeada de bolinhas de parafina incrustadas na pela da face.
Ele a vira no bar do cassino, toda cintilante de adereços, rósea como um fruto de cera envernizada; aguardava que ela saísse levando gulosamente um pacote de salgadinhos. Quando ela, escandalosa e serena saiu, ele então comprou doces de nozes.

- Para mandar ao "hotel Laurentine"? Em que nome?

- Afonso Martan.
Deu um sorriso negligente para a moça loira.

- Como lhe agradar senhorita. Não nenhuma importância a isso.

Seduzida por aquela indiferença aristocrática, a empregadinha loira se permitiu algumas frases engraçadas visando a senhora Maria Rita e deplorou assim.

- Não prestei atenção, - interrompeu friamente Afonso Martan, por acaso não sou entendido.

Agora no quarto de Maria Rita, ele procurava, não os diamantes que ela jamais abandonava, mas a compensação devida à sua perseverança de trabalhador solitário.

- Se eu encontrasse pelo ao menos um colar de ouro ou aqueles grandes braceletes que enfia nos braços... – murmurava tateando suavemente pela quarto, que a senhora Rita arrumara com gosto pessoal, atando por toda parte tufos de fita e flores de miolo de pão colorido.

Investigando aquele imóvel com a extremidade do seu facho de luz elétrica, desdenhou uma cruz de água marinha, mas apanhou um porta-retrato de ouro que valia bem um dois mil reais. Naquele mesmo instante, percebe o ranger da porta do recinto e depois o rumor duma chave na fechadura. Um passo pesado deixava enfim a escada, quando ele se decide a procurar um refúgio, atras da cortinas na galeria.
Ali se achou subitamente mal acomodado e contrariado. A velha doida nunca regressava do casino antes de meia noite, como de costume. Pelas frestas do esconderijo via Maria Rita passar e tornar a passar e a sentia resmungar indistintamente. Ela não se dava mais ao trabalho de empurrar para trás as suas militarescas espáduas, caminhava encurvada, mastigando o ar, senilmente. Tirou o chapeuzinho de moça, retirou alguns grampos, e o prisioneiro vê uma pequena tonsura pálida circundada por uma cabeleira abundante, tingida de vermelho vivo. O vestido desabotoado cai no chão e um penteador cheio de borlas esconde a pela granulosa, pintada de vermelho do ar marinho e as rugas sinistras do pescoço. A visão do rosto colérico, atirado, como num drama, sob os cabelos soltos, aumentou o mal estar de Afonso Martan.
"E o que fazer? se interroga mentalmente. Evidentemente algo é necessário fazer, porém... aquilo nem tinha sentido."
Não lhe agradava o rumor nem o colorido e cada segundo aumentava muito o seu embaraço. A senhora Maria Rita o dispensou daquela angústia longa. Como se tivesse repentinamente farejado, ela voltou-se bruscamente o rosto para a cortina, abriu-a, soltou um grito apenas, mais forte que um suspiro e se afastou três passos, escondendo o rosto entre as mãos. Ele estava pronto a aproveitar semelhante gesto inesperado para avançar e fugir, quando a velha sem descobrir o rosto, disse-lhe, com voz comovida e suplicante:

- Por que fizeste isto? Oh! Por que?...

Ele estava de pé, entre as cortinas abertas, a cabeça nua – pode-se sempre perder um chapéu – enluvado, com os cabelos em desordem. Ela prosseguiu com a voz cristalina e aguda que possuem certas velhas:
- Jamais deveria fazer isto!

Afastou as mãos do rosto e ele viu, bestificado, que ela o contemplava sem temor, de maneira amorosa e vencida:
"Cá estamos nós. É o estado crítico", pensou.

- Havia necessidade, - suspirou a senhora Maria Rita – desta violência? A mais banal apresentação, no cassino ou no passeio, não bastaria? Porventura podia crer que não tivesse notado nada, adivinhado nada? Foi-me tão fácil... mas não assim, oh! Não assim!
Ela se levanta, arruma os cabelos no alto do crânio e se envolve no penteador com a dignidade de um velho palhaço.
O homem, confuso, calado, após certo silêncio falou maquinalmente:

- Se me tivesse...

Ela interrompe, palpitante:

- Não, não fale nada! Não sabe jamais a que ponto estou caída... eu sou... uma reputação sem mácula... nunca me casei... chamam-me senhora, mas... a sua presença aqui... Ah! Não vê em que estado... não vai conseguir nada de mim por estes meios, eu juro!

Cada um dos seus gestos e dos seus suspiros acordava os esplendores agressivos do seus diamantes, porém o ladrão não se demorou ali, todo vencido por uma irritação de homem sadio e muito pudico. Absteve-se de estourar, de narrar – e em que termos! O seu caso àquela avó ardente. Dá um passo e tem diante de si, no espelho, a sua imagem, a elegante imagem de um belo jovem, vestido de negro e na minha opinião distinto...

- Diga-me que o verei novamente, mas a princípio fora da minha casa – dizia a louca – dê-me sua palavra, cavalheiro!

... distinto sim, quando silenciava. Uma espécie de snobismo que respeitava a extravagante ilusão da velha e juntamente com aquele instante da sua vida que imitava a existência de um nobre e romântico herói... Inclinou-se o melhor que pode, dizendo com a voz refeita de dignidade!

- Tem a minha palavra de honra, minha gentil senhora!

E foi embora com as mãos vazias.

 
tancredo
Enviado por tancredo em 04/11/2005
Código do texto: T67189
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Sobre o autor
tancredo
Valença - Rio de Janeiro - Brasil, 76 anos
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