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VOAR

JANJÃO

Elza caminhava pelos escombros deixados pelas bombas, sinal de destruição de décadas, oriundo do conflito entre Israel e Palestina. Naquele local, antes da guerra, funcionava uma escola, freqüentada por crianças e jovens palestinos. O cheiro de morte pairava no ar. Elza em seus 15 aninhos de idade, já viu muita tragédia em sua vida.

Mas naquela tarde, seus pensamentos caminhavam em outra direção, que nada ou quase nada tinha a ver com os problemas causados pelo adultos. Desde pequenina, acompanhava nos jardins da loja de ferragens do pai, o movimentar das borboletas, vivas a sacolejar as asinhas, bicando as flores e plantas, da vegetação.

A menina cresceu admirando, aquele bater de asas, de borboletas, pássaros. Sua ansiedade e alegria, saltavam aos olhos de qualquer adulto que a via naquele estado de magia pura, ao imitar os gestos de bater asas dos pássaros.

Com o passar do tempo, Elza foi compreendendo muita coisa que ocorria ao seu redor, mas seu eterno sonho de voar tal qual as aves, não diminuiu, cresceu, criou motivações. Naquele dia, nossa menina, estava naquele lugar, pois soube por uma coleguinha de que mais alguém tinha o mesmo sonho que ela. Elza aguçada pela curiosidade, lá estava, ela não conhecia a pessoa. Após meia hora no local foi perceber a presença, de uma garota que usava um véu cobrindo rosto e cabeça.

Pensou, deve ser esta, a pessoa. Caminhou até o local onde encontrava-se a garota. Chorava copiosamente. Elza assustou-se com a cena. Mas mesmo sem saber a reação abordou-a: - Porque choras?. A garota não se moveu. Permaneceu em lagrimas. Elza voltou a carga: Que tristeza ocupa seu coração?.

A garota, mulçumana, (esta foi a conclusão de Elza), movimentou o rosto, em direção a menina Judia, mas o choro permanecia. Elza estava incomodada com aquela situação. Passou-lhe pela mente varias situações que levariam a menina mulçumana, aquele choro convulsivo.

Talvez a mãe tivesse lhe aplicado um castigo por não fazer as tarefas de casa ou da escola com perfeição, ou mesmo as notas do colégio fossem baixas. Ou mesmo o Amor tivesse sido despertado e não correspondido por um garoto? Talvez o líder espiritual lhe impusse-se punições por não ler o Alcorão? Vai ver, refletia Elza, ela não agüentava mais usar o Véu?

Tantas indagações e ao mesmo tempo um sentimento de impotência por não fazer nada para conter as lagrimas. A situação a fez lembrar de uma discussão entre seu Pai e o Pai de um garoto palestino, por causa da religião.

Certo dia os dois adultos se pegaram em uma discussão que só não foi as vias de fato com uso da violência física, por um fio e a intervenção de Elza. A briga étnico religiosa, foi por conta de quem ficaria por direito com a cidade sagrada de Jerusalém. Ocorre que os argumentos, não eram para convencer um ao outro e sim para ofender, xingar e destilar ódio. A pequena Elza acompanhou aquele triste episódio que levou seu Pai a apontar uma faca ao Palestino.

Outro exemplo de impotência a jovem Elza, sentiu quando a família de seus primos, foi morta por uma bomba detonada em um restaurante. Igualmente ficou com a situação de crianças, jovens e velhos na faixa de gaza, após ataques constantes do exército de Israel, vários deles mortos e feridos.

A garota continua seu martírio. Elza ainda sem saber o que fazer, continua a pensar. Será que ela descobriu que é Mulher? - Comigo, fala com os botões do casaco, aconteceu a mesma coisa. Lembra Elza, que descobriu sua primeira menstruação aos 10 anos. Brincava na rua, de esconde-esconde com os amigos do bairro, quando olhou para o vestidinho e o viu todo manchado de vermelho. Pensou: - Estou machucada. Será que vou morrer?. Entrou em casa aos prantos e dizendo que ia morrer. A mãe disse que não era nada de mal. Sorrindo, beijou a filha e lhe disse:- Bem vinda, tu és mulher.

Elza já não estava suportando mais aquela inusitada situação. Foi até aquele local proibido para os Judeus, perigoso para todos, pois o conflito proporciona derramamento de sangue a toda hora, para conhecer uma criatura que partilhava do mesmo sonho: O de ter Asas para voar.
Como Icaro, na mitologia fez, o desejava Elza, voar rumo as estrelas.

Pensava que voar é ir em busca do paraíso, de lugares repletos de doces, balas, chocolates e claro: garotos bonitos. Voar para libertar os que escravos estão. Voar para sentir a brisa do vento no rosto e com seu frescor admirar as belezas da natureza.

Voar para atingir o infinito, cruzar fronteiras sem passaportes ou autorizações.

Voar para conhecer os anjos, que apenas em sonhos os viu. Exceto uma vez quando pequena viu uma mão branca como a neve lhe ser estendida, salvando-a de um caminhão que em alta velocidade rompia as ruas de seu bairro.

Voar para satisfazer os desejos mais alucinantes que sua imaginação possa criar. Voar para buscar conhecimentos, estender as mãos e os braços para quem clama por amizade e ternura.

Elza decidiu, abordar a estranha mais uma vez: Garota, heim ta me ouvindo? A menina continua a chorar. O que te incomoda? Porque choras?
Tantas perguntas e nenhuma resposta. Desanimada Elza se prepara para ir embora, quando a garota, levantando a cabeça e o véu:- Garota Judia espere. Elza para e indaga: Porque devo esperar, já que estou a tanto tempo aqui e você só faz chorar?

O que queres de mim? Pergunta a garota a Elza. Queres voar? Responde Elza. A garota não responde com palavras. Levanta-se e mostra-lhe marca de um sonho desfeito pela guerra: as mãos decepadas por rajadas de metralhadoras.
Após o gesto, a garota recoloca o véu e sai.

dialetico
Enviado por dialetico em 28/09/2007
Código do texto: T671951
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Sobre o autor
dialetico
Limeira - São Paulo - Brasil, 55 anos
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