Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

NOITE ESCURA RIO ADENTRO


   Desde que a esposa falecera, a filha Catarina tornou-se o único motivo de alegria na vida solitária do Barão Soares Brito.
   Pode-se então imaginar o desespero do pai ao ver a filha acamada, a definhar por conta de uma doença misteriosa, para a qual médico algum encontrava cura. O Barão apelou até para os mais afamados curandeiros, cujos feitiços e simpatias também nada acrescentaram à melhora da filha.
   Restava, portanto, apenas uma saída: a única esperança era um milagre.
                                              *
   No casarão onde moravam, havia um pequeno oratório em tributo à Virgem Maria. Quando era viva, a baronesa costumava ajoelhar-se ali e rezar, horas a fio, diante da imagem sagrada. Devoção que o Barão não compartilhava, haja vista que não era um homem apegado à religião.  Tanto que, com o falecimento da companheira, chegou a cogitar em desfazer-se daquele oratório. Se assim não o fez, foi somente por respeito à memória de sua amada mulher.
   Agora, depois de haver tentado de tudo para salvar a filha das garras da implacável doença, o pai mundano estava disposto a converter-se em fervoroso devoto, caso uma intervenção divina viesse socorrê-lo em seu desespero. De joelhos diante da Virgem Maria, prometeu-lhe, em troca da cura da filha, uma majestosa capela, em cujo altar assentaria aquela imagem perante a qual a sua finada esposa tanto havia rezado.
   A enferma teve, então, uma súbita recuperação. As febres espaçaram-se; o apetite voltara; aos poucos, sua pele perdia o tom pálido e recobrava o viço de antes.
   Em resposta a este sinal promissor, o Barão deu ordens imediatas para começar a construção da prometida capela.
   Depois de tanto tempo, a felicidade outra vez aninhara-se em seu coração sofrido.
                                               *
   Contudo, numa noite chuvosa e relampejante, um grito terrível veio arrancar o Barão do seu sono apaziguador.
   O grito partira do quarto ao lado, onde a filha convalescente repousava.
   Entrando ali, correu direto para a cama da menina.
   Os olhos delas estavam abertos, arregalados... Imóveis!
   Dessa forma, o cruel destino aplicava mais um golpe fatal na vida do Barão.  Depois de sua mulher, agora a morte levava-lhe a filha querida.
   Ensandecido pela dor, o pai revoltado apanhou no oratório a imagem da santa, pois, em sua cabeça perturbada, acreditava que a Virgem o traíra, não cumprindo com a parte dela no contrato selado e autenticado sob o manto da fé.
   A galope no seu cavalo mais veloz, saiu desembestado em direção ao Rio Paraíba.
   Ao longe, entreviu, em meio à chuva e à escuridão, a correnteza agitada e caudalosa. Sem medir conseqüências, esporou o animal ao encontro daquelas águas turvas...
                                                 *
   Desse mergulho desvairado, é bom dizer, apenas o cavalo se salvou.
   Anos mais tarde, graças à rede de três pescadores, chegou a vez de a imagem emergir das profundezas do Paraíba – esse rio que até hoje conserva os ossos do Barão.
                                               * * *

(Conto vencedor do XVIII Concurso de Contos "Aconteceu em Aparecida", 2007.)
Wilson Gorj
Enviado por Wilson Gorj em 28/09/2007
Código do texto: T672388

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Wilson Gorj
Aparecida - São Paulo - Brasil
319 textos (22903 leituras)
2 áudios (344 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/10/17 21:41)
Wilson Gorj