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A BAIANA - Cap. XXIV

             
                                      A BAIANA

                                        XXIV

Alfredo justificou a sua ausência na volta do peixe de ontem, com assuntos de especial relevância para a sua vida futura. Está neste caso uma ida ao registo civil de Euclides, acompanhado da sua esbelta namora, a mulatinha Edite Celeste, para uma abordagem à documentação necessária à formalização do seu casamento. Estavam particularmente felizes os futuros nubentes e impecavelmente vestidos. A namorada estava um sonho de mulher, que não deixava ninguém distraído à sua passagem. Trajava um lindíssimo vestido, decorado com ramagens de flores e folhas secas, ligeiramente acima do joelho, que lhe evidenciava uma beleza de pernas, cujas linhas bem simétricas e de pura elegância fazem dela um prazer para quem a olha. Nos pés calçava sapatos de tacão alto a condizer com o vestido e que lhe acentuava graciosidade. Ao peito uma gargantilha singela com um pendente a terminar numa pérola. O seu caminhar deslumbrava pelo ritmo certo, da abordagem ao chão que pisava. Um encanto. O seu 1,75 m de altura e 65 kg de peso, diz tudo.
Alfredo também não é homem para lhe ficar atrás. O seu 1,80 m e 75 kg de peso fazem dele um elegante homem. Esta “parelha” parece ter sido talhada por encomenda. Resta recordar que Alfredo também se apresentou muito bem vestido, dentro de um estilo desportivo. Vestia calças de ganga e camisa de xadrez, ambas da marca Gant. Nos pés, calçava bonito par de sapatos a condizer com a indumentária.
O sonho começa a tornar-se realidade, a cada dia que passa. À fase de namoro, intensifica-se agora a fase pré-nupcial, que os traz ainda mais felizes. Dentro de dois meses estarão casados e a vida que sonham realizar, vai ter seu fim.
Nunca, em tempo algum, a Alfredo ocorreu o nome de Micaela. Ele sabe, porque já se apercebeu, que ela o tenta seduzir. Acha que ela não é desinteressante, mas a Edite Celeste tem um encanto sui generis, que o coração não explica por palavras, mas por atitudes e sentimentos.
Finda esta ida ao Registo Civil, deram uma passeata até que chegasse a hora para almoçar. Escolheram um restaurante típico e com ambiente requintado. Ao almoço, comeram um churrasco argentino. De entrada, umas saladas, tortilha e orelha de porco de escabeche. Beberam vinho português da região de Reguengos. Para sobremesa escolheram baba de camelo e leite-creme queimado. Em cima da mesa ardia uma vela aromatizada, que conferia um ar romântico ao momento. Foi um dia muito gratificante para ambos. Aqui ou ali trocavam um discreto beijo. No fim do almoço saíram para mais uma passeata e Alfredo tinha em mente uma surpresa que a iria deixar de espanto. Tal, foi uma ida à ourivesaria mais conceituada de Euclides da Cunha e que deixou Edite Celeste boquiaberta pela oferta de um anel de noivado, que Alfredo ofereceu como testemunho do seu muito amor. Depois de metido no dedo, Edite não tirava os olhos dele e deixou cair uma lágrima de felicidade.
Depois de recebida tão merecida prenda, deslocaram-se até uma pastelaria com vistas panorâmicas e aí lancharam. Escusado será dizer que os olhos de Edite Celeste, quase minuto a minuto se deslocavam para a sua mão esquerda, que estendia para gozo pessoal e que os seus olhos transmitiam através de brilho diamantino. A felicidade habitava definitivamente aqueles dois corações apaixonados. Edite não cabia em si de contente e manifestava-o diferentemente, ora com pequenos e significativos gestos de afecto ora através da oralidade, com uso de palavras, que em si diziam tudo o que lhe ia na pureza da sua alma.
Alfredo agradecia-lhe os gestos e as palavras com sorrisos que testemunhavam todo prazer que o momento lhe transmitia.
Acordaram jantar e no fim ir ao cinema. O jantar decorreu num restaurante exclusivo de peixes grelhados, que é o mais indicado para uma refeição mais aligeirada. Comeram uma parrilhada espanhola e beberam vinho verde branco da região de Monção, bem ao norte de Portugal, numa zona fronteiriça com Espanha. Toda a iluminação do restaurante estava decorada com velas, que lhe conferia um encanto adequado, e que levava até lá inúmeros pares de namorados, de amantes ou mesmo de casais, em busca de momentos gratificantes. O jantar decorreu especialmente bem sob todas as formas, tanto no atendimento cuidado que os empregados do restaurante disponibilizavam, como na qualidade do diverso peixe confeccionado. A degustação foi-se prolongando quase até à hora do início da sessão de cinema. O ambiente desfrutado era de tal modo acolhedor, que a passagem das horas nem se dava por ela. Esta razão, explica que tenham ido ao cinema já em passo acelerado mais que o previsto.
Acordaram entre eles que o filme a verem, deveria ser uma comédia. Assim foi. Os momentos de boa disposição que todo o dia foram vivendo, teve na comédia o seu ponto alto. Riram fartamente e beijaram-se inúmeras vezes. Para final de um dia especial, este não poderia ter melhor fim. Acabado o filme, fizeram o regresso a casa. Alfredo e Edite Celeste dirigiram-se ao parque de estacionamento, onde tinham deixado o carro, sempre de mão dada e já dentro do carro e antes de iniciarem a marcha, envolveram-se em gestos de muita envolvência afectiva. As mãos, braços, lábios e língua activaram-se intensamente e deixaram os corpos esquentados e quase à beira de se conhecerem sexualmente. Alfredo pelo amor e respeito pela namorada, segurou os ímpetos carnais que estiveram à beira de o “traírem” no seu princípio, de que o amor por Edite e a posse carnal desta, só deve ocorrer com o casamento. Alfredo é um romântico que vive e põe platonismo na relação com a namorada. Digamos que está desfasado no tempo, mas é assim que se sente bem consigo mesmo. Edite Celeste respeita o namorado na sua filosofia de castidade pré-nupcial. Conhecedora desse seu princípio, nunca ”forçou” o desejo de o possuir. O amor entre eles é diferente daquele a que a sociedade de hoje nos habituou. O lirismo na conduta destes namorados é notado pelos demais, e Micaela por muitas insinuações que fazia a Alfredo, esbarrava numa sólida fidelidade, que dele recebia indiferença. Face a estes comportamentos, Micaela quase chegava a desanimar da luta que impôs a si mesma, pela posse deste homem, mas porque se trata de uma mulher particularmente lutadora, a sua luta irá adquirir formas mais “agressivas” de conquista.

Quem também vai ter formas agressivas de ataque, é Olegário, que no final desta semana terá a sua segunda oportunidade para materializar o seu grande desejo por Micaela. Os passeios de reconhecimento vão ser ainda mais bem cuidados e pensados. Desde que foram iniciados nesta segunda fase, os gatos pretos não mais voltaram a ser vistos. Este acontecimento traz Olegário desmesuradamente optimista e convicto no sucesso do encontro de sexta-feira. Faltam três dias e estes vão adequar o reconhecimento do “terreno” á hora real do encontro, para que tenha os melhores indicadores acerca dos “perigos”.
De Micaela ainda falta a confirmação da sexta-feira, como dia do encontro. Talvez amanhã, na saída às compras ao mercado com passagem por D. Gertrudes, Olegário receba o sinal tão desejado. Este, irá ficar de atalaia à visita da cunhada, pela certeza rotineira do programa que sempre tem na Gertrudes a companhia de compras. Por sua vez, Micaela também se quer ver livre do cunhado definitivamente e por isso anseia encontrar Olegário para confirmar em gesto bem discreto, o encontro agendado.
Elaine e os pais iniciaram o transporte para o apartamento de Salvador, de mercadorias indispensáveis ao seu conforto, durante a estada universitária. Ainda ligaram a Francisco a perguntar-lhe se queria também aproveitar a ida e levar algumas coisas. Este declinou o convite e agradeceu-o. Disse que iria com os pais e a namorada, mas que lhes agradecia enormemente o convite e que o registava com simpatia.
O Sr. Calixto anda intrigado com a ausência prolongada do amigo Olegário, no Abstratus Bar e disso tem dado conta ao Sr. João da Esquina e mulher, D. Teresa Violante, que lhe respondem nada saberem. Pensa ir a casa dele, e perguntar se tem estado doente. Do pensar à materialização foi um ápice. Assim, meteu pés ao caminho e de tarde dirigiu-se a casa do amigo. Foi recebido por D. Gertrudes, que simpaticamente o recebeu, dando-lhe conhecimento de que o marido vai muito bem de saúde e que sobre isso muito tem a agradecer ao Sr. Dos Aflitos, que levou em conta a missa mandada rezar e o donativo recebido para cuidar dos males de saúde e de boa disposição que apoquentavam o marido. Deu também conhecimento de que àquela hora o marido estava a dormir uma soneca e que se quisesse aguardar um pouco, iria ver se já estava acordado.
- Desculpe a pergunta, o Sr. Olegário esteve doente?
- Ai não soube. Esteve doente e muito.
- Para mim é novidade. Não soube nada nem ouvi falar nada a ninguém. Dei pela falta dele no Abstratus Bar, mas nunca imaginei que pudesse ser por estar doente, como me fala. O que me traz até aqui é para conversar, mas faz todo o sentido a ausência dele com o que me está a dizer.
- Ainda agora lhe falei que se não tivesse havido intercedência do bom Santo Sr. Dos Aflitos, não sei o que poderia ter acontecido.
- Em face do que me diz, estou curioso por falar com o meu amigo e sinto um desejo imenso em o ver e dar-lhe de viva voz os meus votos de completo restabelecimento.
- Será feita a sua vontade. Irei chamar por ele.
- Mas atenção, se estiver com sono profundo não o acorde por favor. Passarei mais logo para o visitar.
- Sr. Calixto, está acabadinho de acordar. Aguarde um pouco por favor. Já lhe falei que você estava para o visitar.
- Ok. Muito obrigado. Aguardo com o maior prazer.
D. Gertrudes e o Sr. Calixto fizeram conversa de entretenimento até à chegada do Olegário. Falaram da filha e do Francisco, de Romeu que havia sido o primeiro namorado e dos caminhos difíceis que este atravessou e de que agora se viu livre. Calixto fala de Romeu com enorme satisfação, por saber que teve parte na recuperação social do jovem.
Enquanto Calixto esperou, Olegário levantou-se, tomou duche e barbeou-se. Vestiu-se com a ideia de darem um passeio e lembrou-se que vai sugerir a Calixto uma ida até ao Abstratus Bar, mas com itinerário feito pelo lado oposto, com passagem obrigatória à casa de Micaela. Deste modo acaba por fazer o que lhe estava em mente, mas de modo mais disfarçado, para a opinião pública, particularmente para Maria do Tanque.
- Ora boa tarde, meu bom amigo Calixto.
- Ora viva. Com tão bom aspecto, quem diria que esteve tão doente!
- Tão doente? Eu nunca estive doente.
- Nunca esteve doente? Mas…
- Falamos mais adiante. Vamos dar uma passeata?
- Vamos. É para isso que vim até aqui…
- Ó mulher, não contes comigo para o jantar. A conversa com Calixto é para pôr em dia. Já faz tempo que …não nos falamos.
- Está bem. Vais em boa companhia. Até à próxima Sr. Calixto. Tive muito gosto em vê-lo.
- Igualmente. Foi um prazer tê-la visto também.

Já fora de portas, viraram à direita e já com esta indicação de percurso, Olegário sugeriu ao amigo o passeio alternativo. Calixto concordou, tendo aprovado com prazer a ideia, uma vez que também já não passava por aquelas paragens há muito tempo. Fizeram o passeio em passo cadenciado, aqui e ali paravam como que a acertar o passo à conversa.
- Como é essa história da sua doença?
- Sabe Calixto, em boa verdade nunca estive doente.
- Não? Mas a sua mulher até me falou em milagre do Sr. Dos Aflitos.
- Eu sei. Ela só porque me viu um bocado em baixo, pensou que estaria doente. Sabe, ela está mal habituada. Nunca lhe faltei com…com nada.
- Percebi as suas palavras. Na nossa idade essas coisas acontecem e a mim infelizmente já há bastante tempo que não sei o que isso é.
- Olhe que pensei em si, aliás não sei se se lembra de um dia termos falado disso.
- Lembro sim. Eu na altura até lhe falei que essas coisas até aos novos acontecem.
- Falou sim, e até fiquei mais tranquilo. Você é um homem vivido, que conhece muitas histórias de vida.
- Desculpe a minha curiosidade. Você ainda “assina o ponto”?
- Que quer dizer com isso?
- Se tem a sua sexualidade em dia…
- Se tenho amigo Calixto, se tenho… Apareça uma nova…Nem quero pensar nisso que até…
- Ah, ainda bem. Não sabe o quanto é triste um homem querer e não poder.
- Foder, queria dizer você.
- Ou isso. Uma pessoa até se sente deprimido.
- Mas a si o que o tramou foi a “prolasta”.
- Próstata, queria dizer você.
- Sim, essa merda que até custa a dizer o nome. Saiba que já tenho sonhado com essa dita porcaria que Deus ao mundo deitou.
- Amigo Olegário, a próstata se existe é porque faz falta, senão não estava aí. Convença-se que sem ela, você não era nada… E você não tem razão de queixa, pelo contrário. Eu tive a infelicidade da minha ter ficado doente, só isso.
- E você ainda diz “só isso”? E acha pouco? Ò homem, o que há de pior além dessa coisa? Nada. Era melhor enterrar um homem vivo.
- Olegário, vou-lhe falar como grande amigo. Mais tarde ou mais cedo, você vai ter de se confrontar com essa “dura” realidade. Prepare-se. E também lhe digo uma coisa que a minha própria experiência me deu. Nós temos a capacidade de ultrapassar essa ausência, e não é por isso que o mundo nos vai fugir debaixo dos pés. Há alternativas que podemos explorar e que de outro modo relativizávamos. Acredite nas minhas palavras e repare que sou um homem feliz mesmo não tendo actividade sexual. E você não vai ser diferente.
- As suas palavras foram escutadas com atenção, mas ao mesmo tempo com tristeza. Logo agora que tenho um biscate para tratar este fim-de-semana…
- Ai sim!  Boa sorte então.
- Espero que seja uma noite a “la française”.
- Pelas suas palavras, você ainda…
- Oh Oh, Como nos meus vinte…
Ao passar à casa de Micaela, esta estava debruçada no peitoril da janela, como que a observar quem passava ou em alternativa, contemplando a natureza. O dueto parou por uns momentos, cumprimentaram-se e Micaela questionou-os acerca de tão estranha passagem por aquelas bandas. Os amigos responderam-lhe que andavam simplesmente a passear, a esticar as pernas para que não enferrujem. Olegário aproveitou o breve momento para dar e receber de olhos, sinal de confirmação do encontro agendado. Posto que este funcionou, Olegário não mais teve interesse em prolongar a conversa, porque no seu subconsciente Maria do Tanque já o poderia estar a espreitar ou escutar, e ele não quer por nada desta vida criar-lhe qualquer momento de desconfiança. Por isso, tratou de abreviar a conversa, tendo convidado Calixto a prosseguir o passeio, antes que se fizesse noite, ao que este anuiu.
- Na sequência do que vínhamos falando Olegário, você tem uma cunhada de se lhe tirar o chapéu.
- O chapéu? Tudo…pena ser minha cunhada. Olhe que com mulheres assim, diga lá se a merda da ”prolasta”, faz alguma falta.
- Tem razão. Nestas horas também me lembro do quanto gostaria de…
- Diga lá que não tenho razão no que falo…
- Sim, nestas horas e com mulheres assim…
- É como lhe digo, se não fosse o muito respeito que tenho pela memória do meu irmão…Quer dizer, se o falecido fosse irmão da minha mulher e não meu, não estava com preconceitos.
- Verdade. A “sua” Micaela é das mulheres mais bonitas de Tucano. Reparou nas maminhas, quando estava debruçada na janela. Que lindas…
- Por acaso não reparei. Você estava guloso e atento. Ah, você disse “sua” Micaela. A que propósito vem isso?
- Desculpe. Quis dizer sua cunhada. Não tome a mal. Agora cá para nós que ninguém nos ouve. Pena não ser sua, não?
- Sim sim. E também lhe digo meu bom e grande amigo, este que você aqui vê não o deixaria ficar mal. Agora nas condições actuais não dá. A memória de meu irmão é para ser respeitada independentemente dos desejos que ela possa desencadear.

A conversa entretanto muda de rumo e Calixto quis saber se ele tinha algum programa para o próximo fim-de-semana. Perguntou-lhe se não queria aparecer para um convívio a realizar na sexta-feira que vem e que consta de um jantar colonial, em que serão lembrados os colonos portugueses pelo que de bom deixaram, particularmente a língua portuguesa que nos põe em comunicação connosco e com o mundo. Disse que essa hora não será para lembrar o que o colonialismo nos deixou de mal, mas antes deverá ser para perpetuar escritores brasileiros que através da nossa língua levaram longe o nome Brasil. Estariam neste caso homens e mulheres como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Jorge Amado, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, João Cabral Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles e muitos outros que fazem a delícia de quem os lê e que também se representam e serão lembrados neste convívio. Haverá oradores que nos falarão exaustivamente destes e de outros personagens ímpares do nosso património literário. Ah, e a ementa vai ser de primeira. Um bacalhau com broa e batatas a murro, caldo verde com tora de salpicão. Nos vinhos, serão servidos brancos e tintos de variadas regiões de Portugal. Para fecho um porto velho.
- Amigo Olegário, vai ser um momento a não perder e que se calhar não será tão cedo que se repetirá. Que me tem a dizer à minha proposta?
- Realmente deverá ser um momento imperdível, mas de momento…
- Tem “coisa” para essa noite? Ah, lembro-me que há pouco me falou de um biscate…
- Ah Ah….Essa dita “coisa” ou “biscate”…
- É uma maneira de falar…
- Quer dizer, tanto posso ter como não ter…Não tenho nada, mas não me quero comprometer já consigo.
- Fique de pensar e depois até me pode telefonar a dizer alguma coisa.
- Isso mesmo. Fico de ver se é possível ir e comunicar-lhe-ei.

Continuaram a caminhada e as conversas ocorriam sobre os mais variados temas. Falaram do novo ordenamento urbanístico de Tucano, que a volta lhes mostrava com um erro ou outro, mas de pequena monta. Em regra a qualidade urbanística e áreas de lazer estavam agradáveis. A área comercial estava muito bem arranjada e com lojas que primavam pela boa exposição das suas vitrinas, sobretudo nas lojas de roupas. O restante parque comercial também está interessante. Ao passarem à ourivesaria Oliveira, Olegário convidou o amigo a parar diante da montra e observarem a beleza das peças expostas. Olegário chegou até a falar da compra que tinha feito em tempos, para oferecer à mulher. Calixto olhou-o com espanto e perguntou-lhe se foi para comemorar alguma data especial, ao que Olegário respondeu ter sido um acto de reconhecimento pela excelente companhia que a mulher tem sido ao longo de mais de trinta anos de casado. E disse mais: amanhã talvez passe por aqui para comprar mais uma prendinha.
- Eu nunca ofereci peças de ouro à minha mulher. Será porque eu não a amo, como você, a sua mulher?
- Olhe, tanto não lhe sei responder, mas que devia oferecer, lá isso devia…
- Porque diz isso? Acha conveniente “engana-las” com prendas valiosas?
- Pode dar jeito...Ajuda a ter em nós mais confiança, quando dela mais precisarmos…
- Sim? Você está a precisar de se sentir um marido de confiança?
Neste entretanto, Maria do Tanque que vinha dos lados da igreja, interpelou-os.
- Olá cavalheiros. Às prendas para as vossas mulheres?
- Não. Só se for o Olegário…
- Eu não, Sr.ª Maria.
- É que me pareceram muito atentos… Cá para mim, alguma surpresa vai acontecer… Vocês desculpem a brincadeira. Foi só para os ouvir.
- Você é sempre a mesma. Ainda na sua idade, que já não é pouca, e continua a gostar de picar homens…
- Que idade me dão? Digam, quero ver quem acerta.
- Qual é o prémio se eu acertar, Sr.ª Maria, perguntou Calixto, em tom de riso.
- Agora não tenho prémio de jeito para vos dar, mas em tempos…
- Falou bem. Você não era uma mulher, você era um vulcão. Mas quem mais e melhor podia falar de si …já não está cá…
- Ainda agora o sou, disse M do Tanque, rindo-se. Sr. Calixto, eu era mulher perto dos quarenta e você, um jovem esbelto, de corpo bem delineado. Arrisco a dizer que era seguramente dos moços mais bonitos de Tucano. Teria vinte e muito poucos anos. Lembro-me bem de si como se fosse hoje.
- Não é para me gabar, mas eu até era um jovem gatão. Nessa idade parti para S. Paulo e agora regressei já meio gasto. Os meus melhores dias ficaram lá longe.
- Meio gasto… não me faça rir Sr. Calixto, você ainda é homem para fazer muito fogo…
- Mais a vontade que outra coisa. Olhe o que diz aqui a Sr.ª Maria… Pensa que somos todos da genica dela…
- A Sr.ª Maria do Tanque recebeu muitas bênçãos de padres e por isso está ainda boa …para a idade. Você Calixto, já não estava por cá e não conhece nem metade do que foi esta mulher…Com uma mulher destas é que gostava de ter casado…Era já e agora…Mas só para mim…
- Cala-te. Tu também estás bem servido de mulher. Cá para nós, se achas que não estás bem…tens a cunhada. Manda-te a ela, antes que te fuja para o peixeiro. Não te ponhas fino e ainda a vais ver nos braços dele…
- Ó Sr.ª Maria, não diga isso nem a brincar. Deixe a minha cunhada em paz. Se ela precisar de homem, não serei eu nunca o candidato a coisa nenhuma, dela. A memória de meu irmão merece o maior respeito.
- Desculpa. Não tomes a mal. Foi uma graça… sem graça.
- É verdade. Já há muito que ando para lhe perguntar pelos seus lindos gatos pretos. Não os tenho visto. Que é que lhes aconteceu?
- Não aconteceu nada. Já uma vez me falaste neles…Nunca ninguém mostrou preocupação com os meus gatos, a não seres tu…Posso saber a razão?
- Preocupação? Não. São tão lindos. Ás vezes passava pela rua abaixo a dar um passeio e eles miavam sempre. Por vezes até se roçavam nas minhas pernas. Tão fofos…Até sinto pena de não os ver, quando passo lá.
- Não era isso que me dizias. Lembro-me que até dizias que eram mais perigosos que cães…e outras coisas mais.

Como Olegário notasse que não levava a melhor, deu de cotovelo a Calixto para que se afastassem e tomou a iniciativa de se despedirem. Maria do Tanque não é a pessoa certa para conversar nesta altura. É tida como mulher experiente e com boa capacidade de leitura e adivinhação do futuro, que nada convém a Olegário. Este conhece-lhe o jeito para “tirar nabos da púcara”, por isso apressou a continuação da caminhada até ao Abstratus Bar, não sem que tecesse comentários a respeito da mulher mais “perigosa” para a sua integridade cívico-moral. Olegário sabe que o futuro da sua vida, poderá estar na mão dessa mulher, que por azar dele, tem vizinhança com Micaela e que representa o perigo máximo à observância dos seus movimentos, que, em conjunto com os “amestrados” gatos, segundo ele, o poderão descobrir na aventura amorosa.
Deste pensamento não deu conhecimento a Calixto, mas foi-lhe dizendo que ela é sabedora de quase todas as vidas de Tucano, mesmo daquelas mais impensáveis, à parte o que acrescenta ou inventa. Mulher “perigosa”, chama-lhe ele e dizia que não fora isso, ainda estaria uma “velha” para tirar o cotão dos “tomates” a um de nós, não acha Calixto?
- A um de nós? A si, quer dizer você.
- Você em novo nunca “molhou a pena”?
- Por acaso não. A mim quem me fez a “recruta” foi a Glória Babona. Lembra-se dela?
- Então não lembro…Também era um livro aberto ao pessoal jovem. Fazia fila como nos correios…Nessa nunca… Bons tempos…
- Nessa época, já lá vão uns quarenta anos, não era como agora…as moças de hoje…
- Verdade. Naquele tempo, deitar uma mulher não era coisa fácil…Agora são descartáveis. É usar e deitar fora.
- Boa definição Sr. Olegário. Tipo pastilha elástica, chiclets como se diz.
Com a animada e distraída conversa nem se deram conta de que estão na rua que dá de frente com o Abstratus Bar. Olegário está um pouco nervoso pela certeza das imensas perguntas a que vai ser sujeito, sobretudo pela Sr.ª Teresa Violante, mulher espevitada e dada a graciosidades. Mentalmente vai preparando respostas para questões que supostamente lhe vão ser colocadas.
De dentro e através das vidraças João da Esquina vislumbrou Olegário e foi avisar a mulher, que estava na cozinha a preparar petiscos para servir aos clientes, na hora do lanche.
Calixto à frente, de cabeça bem erguida, prepara-se para fazer a presentação de boas-vindas do amigo Olegário, que o segue atrás como que comprometido por tão prolongada ausência, mas ainda assim com coragem para enfrentar a avalanche de perguntas que o espera.
- Muito boa tarde meus senhores… Adivinhem quem vem aí.
- Boa tarde Sr. João.
- Ora viva o Sr. Olegário. Que é feito de si que não lhe pomos o olho em cima, há tanto tempo? Ò Teresa vem cá. Olha quem chegou.
- Ó Sr. Olegário, bons olhos o vejam. Ò João, não tomes a mal o que vou dizer, mas esta noite sonhei com o Sr. Olegário.
- Sim…? Pelos vistos você não foi a única…
- Ai sim? Andam a sonhar muito consigo? Acredito, você está um homem muito gato.
- Não me fale em gatos que até fico mal disposto.
- Você tem aversão a gatos?
- Não propriamente, mas há por aí uns gatos especiais…
- Bom, o que interessa é que você está bem e disso estamos felizes.
- Sr. João, vamos para a mesinha do costume e traga-nos duas cervejas. O que há para lanchar?
- Temos bolinhos e pataniscas de bacalhau, bacalhau frito, iscas de fígado de vitela, moelas estufadas, cochinhas de frango…
- Para mim um pratinho de moelas com mostarda e para si Olegário?
- Para mim duas cochinhas boas.
- De frango ou de franga, perguntou a Teresa Violante, com rasgado sorriso.
Os receios de perguntas para respostas difíceis, dissiparam-se à medida que o tempo passava. Olegário voltou a ganhar confiança. Chegado o lanche ao fim e após mais uns minutos de conversa, os amigos separaram-se com um até amanhã.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 30/09/2007
Código do texto: T674526

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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Povo Lusitano