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                                 O menino-homem 


     "Dezembro. O mundo está em convulsão. De todas as partes surgem imponentes revolucionários de causas perdidas. Por aqui, na República Federativa da Terra de Ninguém, o encrudelecimento do regime, imposto pelos militares – bobos-da-corte guindados à categoria de heróis – com um Golpe de Estado, anos antes. 
     Os personagens desta saga são militantes do AR-15 (Aliança Revolucionária da Praça 15), idealistas descamisados, descalços, desempregados, depauperados. 
     O plano de ação seria o seqüestro do Embaixador do Taiti. 
     As razões? Bem, isso nenhum historiador até hoje conseguiu entender. Deixo que façam os leitores suas inferências." 
     (...) 
     - Abaixa! Abaixa! 
     Os tiros de metralhadoras calavam o celestial silêncio daquela noite sem porquês. Quatro jovens decidem trocar suas vidinhas merencórias pela emoção da guerrilha contra a tirania do opressor paradoxalmente servil, num consentimento contumaz sob a direção de seus mais novos donos. 
     Nesse particular, permito-me um aparte: não seria a primeira vez que a nação se renderia à escravidão, à subserviência e a seu indefectível complexo de colônia. Usurpado de seu trono magnânimo, espoliado de seus pertences, ultrajado em sua decência desde o nascedouro, devia ser a quarta ou quinta potência da moda a usufruir as benesses de descarado servilismo. 
     - Companheiro Percival? – quietude. Companheiro Roberval? – mais uma vez podia-se ouvir o tenebroso silêncio. Companheiro Juvenal – insistiu – você sabe onde estão os outros? 
     - Acho que foram presos, Companheiro Genival... – respondeu, lacônico, o Companheiro Juvenal, para em seguida concluir: "Para o bem deles espero que não!" 
     Não havia incoerência ou descompromisso com a vida humana ao preferir a morte. O que todos sentiam, em meio àquele caos, era que a morte revelaria o paraíso, diferentemente do inferno dos porões da ditadura. 
     - Companheiro Percival! – surpreendeu-se Juvenal. 
     - Eu... Eu consegui fugir das balas e me escondi no porão da Igreja Matriz da Piedade Divina... 
     - Graças a Deus! Você viu o companheiro Roberval? – perguntou Genival, aflito. 
     - Vi – respondeu, tomando fôlego. 
     - Ele foi preso? – adiantou-se o companheiro Juvenal. 
     - Não, companheiro, eu o vi correr e mergulhar no Canal do Mangue... 
     Genival não se conteve e riu-se em pensamento: “a tortura ao menos não produz tétano, tifo ou difteria.” 
     - Companheiros, vamos nos esconder aqui até os soldados irem embora, depois a gente sai e procura o Companheiro Roberval. 
     E assim fizeram os jovens cavaleiros da dignidade e da justiça ultrajadas! 
     Naquela manhã cinzenta de verão, após o confronto com os agentes da repressão, os três rapazes reuniram-se em sua célula – a quarta em duas semanas – para avaliar os rumos que o movimento deveria tomar. Paulo André, o “Companheiro Roberval”, estava desaparecido desde o tiroteio da noite anterior e sem o seu líder os outros precisariam reorganizar as ações. Alguém sugeriu esperarem mais dois ou três dias até que se conhecesse o paradeiro do companheiro; um segundo, partirem para o Plano B, ou seja, aliar-se a outro grupo mais forte, por exemplo, o ALCA (Associação Libertadora de Cascadura). O mais sensato, pensava Domiciano, o “Companheiro Juvenal”, seria realizar novo assalto a uma agência bancária, já que seus recursos estavam escasseando e precisavam de dinheiro para adquirir novas armas e munição e aí sim praticarem o seqüestro do Embaixador. Após alguma discussão, venceu este. Estaria surgindo um novo líder para o grupo? 
     (...) 
     17 de dezembro. Zona Portuária da cidade, 14h30min, chovia a cântaros. Os rapazes chegam à agência do Banco Municipal. Dois entrariam pra efetuar o roubo, enquanto o não menos valente Companheiro Percival, daria retaguarda do lado de fora. 
     - É um assalto – anunciou Domiciano – todos no chão. 
     - Somos membros da Aliança Revolucionária da Praça 15, a AR-15, e não queremos suas vidas, lutamos contra a tirania que nos oprime e desgoverna, portanto, colaborem e ninguém será ferido – satisfez-se com o discurso o heróico Genival. 
     Enquanto isso, do lado de fora, Percival percebe uma forte movimentação de tropas, estacionando seus caminhões duas quadras antes. Ante o iminente embate, adentra o banco correndo para alertar seus companheiros de empreitada. Julgando tratar-se de um agente da repressão, Genival dispara dois tiros. Um acerta o alvo e atravessa-lhe o abdome. Percival tomba, sangrando em jorros imorredouros. 
     - O que você fez, companheiro? – indaga perplexo o companheiro Juvenal – Vamos embora, rápido – completou. 
     - E o Percival? Não podemos deixar ele... 
     - Agora você se preocupa com ele? A gente não pode carregar... 
     - Foi sem querer, Companheiro... Eu... 
     E, antes que os militares invadissem o local, os dois sobreviventes do caos conseguiram evadir-se pela porta dos fundos, que dava para um beco ermo. 
     O beco, como tantos outros da Zona Portuária, abrigava, em seus casarios coloniais de sacadas de madeira, dezenas de casas de tolerância, reduto da prostituição a que eram submetidas as mulheres sem presente ou futuro aparente. 
     - Entra aí, companheiro – orientou o novo líder. 
     O lugar, a “Sauna de Calígula”, desmerecia seu nome clássico e sugestivo: sujo, mal pintado, desbotado pelo tempo, esgotado em seu passado, cheirava a amônia. As mulheres, madonas de Dante, muito gordas, ou muito magras, fétidas, mortas-vivas, entretanto generosas, no reconhecimento da paridade de seus propósitos. Acolheram-nos em seus colos reboliços qual fazem cadelas ferozes ao lamberem placidamente suas crias de pais desconhecidos. No covil da perdição estariam protegidos. 
     Juvenal, passadas duas horas, resolveu sair e verificar o que acontecera ao companheiro ferido. Pára numa banca de jornal e lê a manchete: “Terrorista morto no Mangue”. Absorto, chocado com a certeza da morte de Roberval, não percebe a aproximação de um grupo de policiais. Morre com vinte e três tiros “Após reagir à voz de prisão” – estampariam as manchetes do dia seguinte. Não portava arma alguma. 
     Genival, banho tomado, cabelos cortados, barba bem feita a navalhadas, não conseguia esquecer o tiro que acertara em seu companheiro. Julgava-se preparado para enfrentar as agruras produzidas pela cruenta luta, imaginava-se pronto para libertar seu amado país e trabalhar por sua reconstrução. Pois agora, aquele jovem alto e forte, na plenitude de seus 19 anos, sente-se envelhecido à feição de 40 e pranteia o colega de infortúnio, igualmente jovem e velho, que ainda vive no arquivo pueril de suas lembranças. Matara o melhor e talvez único amigo. 
     Sem esforço de memória, lembrou-se do dia em que conheceu Carlos Octavio – era esse o nome verdadeiro do Companheiro Percival – durante uma aula de Educação Moral e Cívica, no primeiro dia letivo do 4º ano primário do Jardim-Escola Pintinho Feliz. Recordou-se que a Tia Zezé, professora à moda antiga, perguntou ao futuro amigo se ele sabia cantar o Hino Nacional de Terra de Ninguém. Carlinhos respondeu que sim, sorriu e, com desfaçatez jamais igualada, cantarolou um verso, segurando as partes baixas: “Gigante pela própria natureza!”. Ajoelhado sobre grãos de milho, recebeu dez boas reguadas como prêmio à criatividade revolucionária. Embora orgulhoso do novo ídolo, demorou uma semana até que pudesse apertar-lhe a mão e cumprimentá-lo formalmente pela ousadia. 
     Doutra feita, já no 2° ano ginasial, Carlinhos, ao ciceronear Joana Angélica, loirinha fogosa, cabelos cacheados, olhos verde-esmeralda, perninhas grossas, cintura fina – seria finalista em vários concursos de beleza – recém matriculada e que não conhecia o colégio, levou-a ao 12° andar do prédio anexo que estava sendo construído no terreno do colégio e que serviria de expansão ao curso científico. O fiel escudeiro Genival, nessa época, Luisvaldo de Souza e Silva, foi também. Lá de cima, a moça, desinibida e por isso cortejada, atirou um pedaço de madeira, restolho não recolhido pelos operários, que acertou a cabeça da professora de francês, transeunte a caminho de uma classe. Percebida a tragédia que seguiria, provavelmente uma suspensão, ou mesmo a expulsão da escola, Carlinhos e Joana descem em desabalada carreira, e não são apanhados em flagrante pelo inspetor Januário, bravo defensor dos bons modos. Desde sempre distraído, o rapazinho não saiu do prédio a tempo. A demorada reação custou-lhe sete dias de suspensão, ainda assim não entregou seus amigos. Apesar de bastante dolorido pelos tapas e pontapés ministrados por seu pai, sentiu-se feliz, ciente do dever de lealdade cumprido. 
     Luisinho não atiraria em Carlos Octavio de Guimarães, Genival o fez. Entendeu a antítese e sentiu-se, por um frágil lapso de tempo, outra vez criança, deitada eternamente em berço esplêndido. 
     Adormeceu o sono dos inocentes condenados no colo da mãe gentil.
Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 05/11/2005
Reeditado em 05/11/2005
Código do texto: T67572

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Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Nel de Moraes