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INJEÇÃO DE BENJETACIL


Os meios de transporte entre algumas cidades do interior ainda são muito precários, dada a qualidade dos transportes e das próprias estradas. Hoje não prestam, imagine há trinta, quarenta anos. Nem estrada havia, quanto mais transporte. As estradas, em sua maioria, eram de barro batido, quando chovia ficavam intrafegáveis, além dos atoleiros, não tinha acostamento, sinalização, enfim nada.  Asfalto? Só nas BRs e em algumas estradas estaduais e das mais importantes.

Ir e voltar do Pacoti a  Baturité, a trinta e poucos quilômetros de distância, levava-se quase um dia inteiro. O pior não era o tempo gasto, mas arranjar  transporte. Na maioria das vezes feito  em cima do lombo de animais. Um ou outro carro de praça, geralmente, Jeeps e caminhões mistos,  os famosos e velhos pau-de-arara com boléias maiores onde se  acomodavam os passageiros mais abastados. A pobreza ia mesmo era em cima da carroceria, sentada em tábuas duras sem o menor conforto e sem qualquer segurança. Proteção? Eram próprios  peitos e as próprias cabeças mesmo.

Estes  meio de transporte ainda é muito comum nos dias de hoje, principalmente nas cidades onde há romaria e serve também no transporte de aluno para localidade cujo acesso é quase impossível.

As cidades, bastante atrasadas, ofereciam condições de vida muito precárias a seus habitantes.  A maioria dos negócios geralmente era realizada nas cidades maiores. Certas mercadorias somente se encontravam na capital. Bancos, apenas em meia dúzia de cidades do interior do Estado. Nossa cidade não dispunha de  agência bancária, coisa que só muito recentemente foi inaugurada.

Funcionários públicos federais, que recebiam pagamentos pelo Banco do Brasil, tinham que se deslocar de Pacoti até Baturité, ou até Maranguape. Um dia inteiro de trabalho era perdido só recebimento dos  ordenados.

Numa dessas viagens de Pacoti a Baturité, os guardas da malária, como eram conhecidos os funcionários do antigo DNERUR – Departamento Nacional de Endemias Rurais -, hoje FUNASA, tiverem de pernoitaram em Baturité e  aproveitaram para fazer uma farra.

Fora para o Putiú, ou melhor, para o 2, conhecido cabaré da cidade. Por lá começaram a beber e a farra se estendeu até altas horas da noite  e eles resolveram dormir ali mesmo com as meninas do cabaré. Todos de porre.

Raia o dia, acordam apavorados sem saber onde estavam, e vendo que tinham dormido no cabaré ficam desesperados para irem embora. Como todos eram casados, a maior preocupação era explicar para a noite  fora de casa.

O carro ter dado o prego, coisa comum naqueles tempos, poderia servir perfeitamente de álibi.  Perderam o transporte seria outra. Alguém se perdeu dos demais e não queriam voltar sem ele, seria outra.  As justificativas podiam ser e eram muitas, bastava combinarem. Isso era o de menos. A maior preocupação poderia ser as conseqüências de uma trepada no cabaré, o que invariavelmente na época acontecia sem preservativos, eram as  doenças venéreas, que iam desde um simples “chato”, certo tipo de piolho que só habitam as regiões sexuais masculinas e femininas, a uma sífilis, passando por uma gonorréia, ou por um cavalo de crista ou até mesmo de buraco, dentre outras menos cotadas. Hoje seria o caos. A  AIDES está por aí mesmo.

E foi só o que aconteceu com um deles! Dois dias depois da farra, o cacete do sujeito amanheceu  pingando. Esquentamento – gonorréia – dos brabos.

Desesperado o sujeito procurou o farmacêutico da cidade, como de hábito, devido ao grande conhecimento daquele profissional e até mesmo porque não existiam médicos para atendimentos normais e, principalmente, a casos como aquele. A receita, a velha e boa  Benzetacil de um milhão e duzentas mil unidades, que para o caso era tiro e queda. Não se fazia nem exame para saber o tipo de doença, que era detectada somente pelos sintomas já dava o diagnóstico. Hoje não. É tudo moderno. Qualquer doença tem que ser feito o exame para se saber o tipo de antibiótico. Mas, no passado existiam poucos medicamentos e serviam para tudo.

Resolvido o problema de saúde do guarda. Surge outro maior e bem pior. O tal guarda, no dia seguinte à viagem, antes de detectar a gonorréia, tinha transado com a mulher  que estava grávida de três meses.

Voltou à farmácia e contou para o farmacêutico, que de imediato receitou, também, Benzetacil para a mulher.

Aí, veio o desespero. Como dar o remédio à mulher sem contar o problema. Ficou imaginando a maneira e não via qualquer saída. Voltou a falar com o farmacêutico que foi taxativo: ou ela toma ou vai ter gonorréia também e com possíveis conseqüências para o feto. O guarda, que também entendia um pouco também de alguns tipos de doença, pois uma de suas funções era atender casos graves naquelas localidades mais remotas do estado, onde às vezes era obrigado a aplicar injeções e fazer outros pequenos trabalhos de enfermagem, ponderou que a Benzetacil também poderia afetar o feto. É um risco disse o farmacêutico.

No caminho de casa o guarda foi pensando, e encontrou uma solução que talvez desse certo.

Acostumado a aplicar injeções, ao chegar em casa foi logo esterelizando o aparelho, ou seja, como não havia seringas descartáveis, os aparelhos de injeção tinham de ser fervidas para se desinfetar, foi fervendo o aparelho e dizendo para a mulher, na tentativa de justificar o que estava por fazer:

- Minha filha,passei na farmácia agora e conversando com o farmacêutico, ele recomendou umas vitaminas para você.  Coisa nova, muito boa. Especialmente para mulheres que já tiveram mais de um filho. Recomendável para evitar problemas de desnutrição tanto para a criança, como para a mãe.

- Que negócio de vitamina é esse? Eu não vou tomar nada de remédio, porque estou me sentindo muito bem, respondeu  a mulher!

O guarda, no entanto, sem dar a mínima para o que ela dizia, continuou a esterelizar o aparelho. Terminado o serviço, sem permissão dela  e sem que ela notasse, já que estava na cozinha preparado o almoço, de surpresa ele aplicou-lhe a injeção.

Depois foi só aguarda o nascimento da criança para ver o resultado.

Meses depois nasceu o terceiro filho do casal. Uma menina. Segundo ele a mais bonita e mais forte da família. Sem nenhum problema de saúde, sem qualquer seqüela da Benzetacil.

HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO
Henrique César
Enviado por Henrique César em 01/10/2007
Código do texto: T676511

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Sobre o autor
Henrique César
Fortaleza - Ceará - Brasil, 61 anos
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