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Os dias mais felizes de nossas vidas

Cessar a existência. Desistir. Não por medo, nem por preguiça. Não um suicídio. Uma opção. Uma tentativa. Não de ser feliz. Não de ser alguém. Não de ser diferente. Exatamente isso. Não ser.
Ter um emprego + ter uma namorada + ter muitos livros, muito discos, muitos vídeos + ter uma família no domingo + o efeito do tempo = nada.
Projetando a vida do momento do nascimento, passando pela infância, adolescência, o momento atual, a vida adulta, a “idade da razão” e todo o resto que vem depois, é fácil perceber o acúmulo obsessivo e contínuo de expectativas e ansiedades, frustrações e ilusões, com raros momentos de lucidez e alguma senilidade para anestesiar nos últimos dias, até acabar em: morte. Ou seja, nada.
Era sobre isso que conversavam entre um e outro copo de vinho. Começaram reclamando do curso universitário, que ninguém leva a sério porque não dá muito dinheiro. O assunto evoluiu até esse ponto, quando pediram a conta e entraram no carro do sujeito de óculos. Ligaram o rádio e tocava “Jeremy”. A única garota do grupo cantava com uma voz que teria sido atraente para outros ouvidos, apesar de tão rouca. Todos os outros permaneciam em silêncio. Foram para a casa do sujeito com uma argola no nariz. Ninguém ali sabia, mas aquela argola já estivera em uma orelha, de uma menina que jurou amá-lo para sempre. Agora ela estava em um país distante e falava uma língua que ele não entendia enquanto se declarava para seu outro eterno amor. O sujeito com uma argola no nariz passou a viagem toda com vontade de desligar o rádio, mas se conteve. Dormiram lá, na casa dele.
No dia seguinte, o dono do carro e a moça fizeram compras. Comida para um mês. Talvez até mais. Talvez um exagero. A moça achava estranha a forma como o rapaz de óculos olhava pra ela, como quem não vê nada, quase como se estivesse olhando através dela, sem perceber ela ali. Talvez fossem as lentes. Enquanto isso, os outros faziam a faxina. Quase uma família.
A segunda noite foi melhor. Houve música e bebida. A garota transou com o sujeito de barba e com o mais novo do grupo. Não foi como as pessoas pensariam que foi. Não foi pornográfico, nem tampouco romântico. Não havia tanto desejo assim. Foi quase banal, como quase todo o resto de suas vidas. O sujeito da argola vomitava e jurava nunca mais beber, como sempre fazia. O de óculos assistia a tudo estirado numa poltrona, fumando um cigarro.
No terceiro dia o barbudo apareceu com duas sacolas de ginástica cheias de armas e a certeza de que nunca mais voltaria para casa. Ninguém chorou, mas todos pareciam tristes, e houve silêncio à noite.
No quarto dia, o mais novo acordou suado. Tivera um pesadelo. O sujeito de óculos já estava bêbado a essa hora. Todos foram à faculdade. Riram, assistiram algumas aulas, tiveram aborrecimentos. Era sexta-feira e apenas o sujeito com uma argola no nariz dormiu em casa. Não quis saber de sair nem beber. Os outros não chegaram juntos, mas todos mais ou menos à mesma hora. O mais novo foi o último a chegar. A garota não deixou que ninguém dormisse antes de verem o sol nascer. Não demorou muito. Viram nascer o sol do quinto dia e se cumprimentaram com “Bom dia” antes de dormir.
Nesse dia apenas beberam, fumaram, comeram pizza e assistiram filmes na TV que já haviam visto meia dúzia de vezes. A garota escreveu uma carta de amor que sabia que nunca seria entregue. Dormiram cedo.
No sexto dia esperaram. Ninguém dormiu à noite. O sujeito de óculos fumou duas carteiras de cigarros. O mais novo escreveu um poema. A garota queimou a carta. O sujeito com uma argola no nariz assistiu TV, mas sua mente não estava concentrada na programação. Estava muito distante dali. O sujeito de barba jogou paciência. Não ganhou nenhum jogo.
No sétimo dia entraram armados e encapuzados no carro. Quando o carro-forte parou no estacionamento do shopping, esperaram o melhor momento e anunciaram o assalto. Dois guardas mortos. Três baleados. O carro-forte roubado.
Conseguiram escapar do estacionamento antes das saídas serem bloqueadas. Pela porta de trás, a moça, o sujeito de barba e o mais novo atiravam cédulas para que fossem apanhadas pelos transeuntes. Conseguiram fugir por pouco mais de quarenta e cinco minutos, mas na saída da cidade havia um bloqueio policial e eles acabaram sendo cercados pelas viaturas. O sujeito com argola no nariz já havia perdido muito sangue. O carro-forte estava crivado de balas. Os pneus furados. O sujeito de óculos abriu a mochila, expondo o botão vermelho. Apertou.
Gerson Boaventura
Enviado por Gerson Boaventura em 02/10/2007
Reeditado em 06/10/2007
Código do texto: T677067

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Sobre o autor
Gerson Boaventura
Fortaleza - Ceará - Brasil, 35 anos
57 textos (3993 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/10/17 21:46)
Gerson Boaventura