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Sehnsucht

Sehnsucht

Parte um - Vinho selvagem

Cambaleante, ele atravessa os portões enferrujados. A chuva rala cai sobre seus cabelos desgrenhados, seu rosto contorcido, seu terno de corte fino, elegante, agora fedendo a suor, bebida e vômito. Aqui e acolá, o garrafão de vinho, agora quase vazio, bate em alguma lápide e quase quebra. Como uma alma atormentada, ele busca um nome que julga ser sua salvação. Na noite densa e úmida, ele é um demônio afogando-se em seu próprio egoísmo. Cansa. Busca abrigo em um pequeno mausoléu. Arromba a portinhola a chutes e senta no chão empoeirado da cripta. Bebe mais um gole do vinho quente e começa a chorar. Não sabe por que chora. Não faltam motivos, é verdade, mas não choraria por nenhum dos que lhe vêm à memória. Tira do bolso do paletó uma carta e relê as últimas linhas. Com letra de mulher, está escrito: “... proteges-te das dores do coração, mas não percebes que, a partir de então, é curto o tempo juntos...” Chora copiosamente. Arremessa a garrafa contra a parede e levanta-se. É preciso encontrar o nome dela. Onde está? Retorna à chuva, agora bem mais forte, e torna a procurar. Percebe uma tumba incomum, não muito longe dali. As flores e a grama nova indicam que deve ser recente. Olha o nome. É ela. Feito animal, cego pelo instinto, começa a cavar com tamanha fúria que algum passante ocasional julgaria ser uma besta ou um louco. Enfia os dedos na terra com avidez. Enfim, ela. Alcança o caixão. Retira forças não sabe de onde. Arranca a tampa de madeira.
Enfim, ela.
O tom azulado a torna ainda mais bonita, como se aquela fosse as cor verdadeira e apenas agora ela se mostrasse a ele em toda a sua exuberância. Só para ele. Por alguns segundos, só consegue contemplá-la, paralisado por sua beleza. De branco, ela lembra uma noiva. Beija com sofreguidão os lábios frios e duros de sua noiva para sempre adormecida. Frios e duros, mas para ele ainda mais doces que os lábios de qualquer musa. Simplesmente não importa mais. Nada importa. Finalmente estão juntos de novo. Beija seu rosto, pescoço, busto. Aperta o corpo dela contra o seu. Mais uma vez finalmente. Sofrera bastante temendo nunca mais poder tê-la assim, tão perto. Apesar da chuva forte, não sente frio. Suas mãos tremem, mas de excitação. Seu coração arde. A volúpia toma conta dele. Lambe seus lábios novamente. Beija-lhe os olhos, mas prefere não abri-los. Não sabe se ela aprovaria o que vai fazer. Começa a desabotoar-lhe o vestido, botão por botão, mas logo perde a paciência e rasga-o. Lambe o corpo nu como um cão sedento. E grunhe de prazer quando seus lábios tocam os bicos dos seios, rígidos, arroxeados, escuros. Baixa as calças até os joelhos e possui sua dama uma vez mais, deitada na lama de terra revolvida. Ele geme alto, quase grita. Durante todo seu relacionamento, ele nunca se sentira assim, com tamanha volúpia. Ela nunca estivera tão linda. Ele nunca a sentira tão sua. Por fim, o gozo. Beijou-lhe com tanto fogo que parecia pretender reanimá-la como nos contos de fadas.
Vestiu as calças. Percebeu que o vestido de sua amada era agora só um monte de trapos. Segurou-a nos braços e levou-a para o carro. Nada mais poderia separá-los agora. Dedicar-se-ia totalmente à sua amada. Cuidaria para mane-la bem até o dia em que pudessem compartilhar do mesmo estado físico. Até lá, amar-se-iam plenamente, como nunca puderam antes. Enquanto dirigia, falava-lhe de como seriam felizes, fazia promessas e planos. Pela primeira vez, em muitos anos, ele não se sentiu solitário. Ficou feliz. Agora tinha um motivo para viver.
Gerson Boaventura
Enviado por Gerson Boaventura em 02/10/2007
Reeditado em 05/05/2008
Código do texto: T677069

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Sobre o autor
Gerson Boaventura
Fortaleza - Ceará - Brasil, 35 anos
57 textos (3993 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/10/17 05:00)
Gerson Boaventura