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"Morena, Linda, Sensual, de Olhos Verdes" = Romance = Capítulo

   Não foi fácil para Eliane deixar Romero em São Paulo e descer para Santos, mas ela precisava realmente resolver definitivamente alguns assuntos que deixara pendentes. Pequenas contas a pagar, roupas que mandara ajustar, colocar à venda alguns imóveis que não mais lhe interessava manter, enfim, deixar a vida em ordem para cuidar única e exclusivamente do grande amor de sua vida.
  Mal colocou os pés em seu apartamento no fim da tarde e o interfone tocou. Era o porteiro querendo saber sedevia permitir a entrada de um dos filhos do delegado. Eliane autorizou, sorrindo com ironia por saber qual seria o assunto que ele quereria tratar com ela.
- Bom dia, dona Eliane. Como vai a senhora?
- Muito bem, obrigada. E o senhor, como tem passado?
- Vai se indo...Olha, dona Eliane, acho que a senhora sabe bem qual é o assunto que me trouxe aqui e...
- Dinheiro.
- Não é isso. Ou melhor, não é apenas isso, mas a senhora deve compreender que sou um dos filhos do...
- Sei muito bem, meu caro senhor. Seu pai deixou-me encarregada de entregar-lhes uma coisa que ele achava que os filhos mereciam. Por favor, entre, sente-se, e espere que eu pegue a coisa lá dentro.
   O rapaz sentou-se timidamente na beirada do sofá, Eliane foi ao seu quarto e voltou com uma pequena caixa de madeira que entregou a ele.
- Muito obrigado, dona Eliane. Acho que meu pai deixou aqui os documentos da herança e...
- Acho melhor não se iludir. Se fosse eu, abriria a caixinha agora mesmo.
  O filho do delegado atendeu à sugestão e seus olhos se arregalaram enquanto Eliane caía na risada.
- Uma banana!! Que brincadeira estúpida é essa, dona Eliane?
- Meu caro, seu pai tinha a maior vontade de poder ver a sua cara nesta hora. Ele dizia sempre que lhes deixaria uma banana. Dizia que os filhos o haviam traído e que, junto com a mãe, fizeram tudo para depená-lo enquanto vivo.
- Isso não vai ficar assim, dona Eliane. Juro por Deus que não vai mesmo!
- Claro que não vai. A banana vai apodrecer e não sobrará nada da herança de seu pai.
- A senhora nos roubou e posso provar. Vou provar e conseguir de volta o dinheiro que estava no cofre. Pode ter certeza disso, minha senhora.
- Antes de mais nada, não grite. Não tenho o mínimo de paciência para receber grosserias. Em segundo lugar, cale a boca e escute: todo aquele dinheiro guardado no cofre era fruto de corrupção. Cor-rup-ção, entendeu? Se você tomar alguma atitude a única coisa que conseguirá será ferrar-se de uma vez por todas na vida. Claro que nunca contarei a ninguém que tirei todo o dinheiro, escondi bem escondido e será sempre sua palavra contra a minha. Com uma grande vantagem para o meu lado: você está sendo filmado e gravado aqui o tempo todo, desde o momento em que entrou. Basta que eu entregue o filme a uma certa pessoa e nunca mais ouvirão falar de você nem de seu irmão. Muito menos de sua mãe. Duvida? Crie caso comigo. Agora vá andando que tenho mais o que fazer.
- Vagabunda, ladra ordinária, safada dos infernos. Bem que eu sabia que meu pai havia se envolvido com uma pistoleira ordinária!!
Eliane o ouvia sorrindo, o que mais e mais o irritava.
- Acabou de xingar? Quando chegar lá embaixo vai apanhar feito boi ladrão.
- Ando armado, sua vagabunda. Ando armado, atiro bem, puta dos infernos e...
Antes de terminar a frase o rapaz ouviu o som de armas sendo engatilhadas e virou-se para ver de onde vinha o som. Foi o tempo suficiente de Eliane abrir uma gaveta, tirar uma pistola potente e apontar para ele.
- Útil demais essa gravação de som de armas sendo engatilhadas, não é mesmo, idiota? Jogue sua arma no chão e depois tire toda sua roupa. Vou contar até cinco, depois atiro na cabeça. Se duvidar, espere o fim da contagem. Um...dois...
  O sujeito jogou a arma no chão e logo se despia apressadamente. O olhar de Eliane era de quem estava mesmo doida para dar uns tiros nele.
- Que lindinho que você é assim peladinho, menino! O mesmo pintinho ridículo do seu papai. Agora pegue suas roupas e se mande. Vista-se no corredor. Eu só queria ter certeza de que não tinha nenhuma outra arma.
 Pegando as roupas o jovem correu para o corredor do edifício e deu graças a Deus por não haver ninguém ali naquele momento. Com o que ele não contava era com o que Eliane fez a seguir:
- Socooooorrroooo!! Polícia!! Tem um homem pelado na porta da minha casa!! Socorroooo!!
  Os vizinhos abriram as portas, o porteiro subiu as escadas correndo, alguém ligou para a polícia, e logo o escândalo estava formado. Eliane saiu discretamente, enquanto as pessoas aglomeravam-se no corredor e sumiu rua afora. Não precisaria mais voltar àquele apartamento, que já vendera com tudo que havia dentro, e aquele era seu último dia de prazo para desocupá-lo.
   Saiu rindo rua afora. Os documentos do rapaz haviam caído embaixo do sofá e ele fora para o corredor apenas com as roupas nos braços. Teria um bocado de aborrecimentos até explicar tudo que lhe acontecera.
- Agora, rumo à imobiliária. Vamos ver se os incompetentes encontraram compradores para os meus imóveis, os que comprei com tanto sacrifício...

   As notícias foram boas para Eliane. Havia um empresário interessadíssimo em seus imóveis comerciais. Queria comprá-los à vista, com pagamento no ato da escritura, mas chorava por um desconto mínimo de dez por cento. Eliane fingiu relutar um pouco e acabou dizendo que aceitaria a proposta se fosse para fechar a venda ainda naquela semana.
   Três dias depois ela assinava a venda em cartório e estava liberada totalmente com relação à cidade de Santos. Daí em diante sua missão seria apenas cuidar de Romero. Se preciso, ela o levaria para os melhores centros de recuperação do mundo. Não mais lhe importavam as despesas necessárias.

   Um dia a mãe de Romero demonstrou curiosidade quanto ao destino do homem que atirara em seu filho e o condenara a tantos sofrimentos morais e físicos. Eliane contou a ela o que sabia, o que fazia questão sempre de saber:
- Dona Laura, o que aconteceu a ele foi simplesmente terrível. Muito pior do que a morte...
- Pode haver coisa pior que a morte, minha filha?
- Pode, dona Laura. A morte em vida. Fiquei sabendo que ele está cego, surdo, mudo, paraplégico, mas vivo ainda. A família que “cuida” dele o aluga pra quem queira levá-lo para o centro da cidade, deixar a cadeira de rodas na rua, debaixo do sol ou da chuva, e passar várias vezes para recolher o que ele ganha de esmolas. Dão comida suficiente apenas para que não morra de fome e de vez em quando o lavam com uma mangueira, em um estacionamento. Acho que destino pior do que este não pode haver, dona Laura.
- Terrível mesmo. Mas ele merece. A frieza com que atirou em meu pobre filho foi coisa de animal sem o mínimo de sentimento.
- A polícia bateu muito nele. Muito mesmo. Alguém deve ter incentivado os policiais a fazerem isso com ele. Ou, vai ver, já havia matado algum parente de um deles.
- Quem sabe, não é? Pelo menos foi feita a justiça. Ele está, então, bem pior do que meu filho.
- Bota pior nisso, dona Laura. Seu filho tem família, tem quem o ame, tem a mim que sou doida por ele, tem os meus recursos para recuperar-se, tem o carinho da senhora, de seu marido, de seus filhos, que são a família mais linda e unida do mundo. Ele está com tudo e não está prosa.
- Não está prosa? Está mais do que prosa. Hoje conseguiu andar uns três metros sozinho, logo de manhã e...ai, meu Deus, não era pra te contar. Ele queria te fazer uma surpresa...Estraguei tudo.
- Fique sossegada, minha sogrinha querida. Fingirei que não estou sabendo e terei a melhor surpresa do mundo. Quer dizer que o danado conseguiu me esconder que já está começando a caminha sozinho? Bichinho ordinário esse seu menino, dona Laura...

= Continua.


Fernando Brandi
Enviado por Fernando Brandi em 02/10/2007
Reeditado em 02/10/2007
Código do texto: T677205

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Sobre o autor
Fernando Brandi
São Paulo - São Paulo - Brasil, 70 anos
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