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O Possesso


Durante a minha infância, muito me deliciei nas águas mornas do Tanque Velho.

Eram águas de verão que temporariamente caíam e se represavam numa imensa cratera artificial. Nelas, eu e a garotada tínhamos o grande prazer de brincar, nadar e piruetar em todas as tardes ensolaradas.

O Tanque Velho foi por muito tempo o único depósito de água potável daquelas cercanias. Ele foi o nosso sagrado mata-sede. Até que um dia tudo acabou: o povo rejeitou suas água, e a razão foi o afogamento de um jovem, que, nadando, mostrava-se habilidoso enquanto as águas, em redemoinhos se represavam, em meio a um grandioso temporal.

Daquele dia em diante ninguém mais bebeu de suas águas e nem ousou atravessá-lo a nado. Muitos afirmavam que nele o espírito do náufrago habitava e alguém alarmou ter sido puxado por uma força misteriosa que o arrastava para o fundo, querendo afogá-lo.

A partir dali o Tanque Velho nunca mais foi o mesmo. Suas águas se contaminaram e não mais mataram nossa sêde mas, mesmo assim, ele nos servia como praia: uma imensa banheira a céu aberto. Única piscina natural de águas mornas e lamacenta ao dispor da garotada.

Ali, os animais também se banhavam tranqüilos. Era comum se ver cavalos, mulas e vacas nadando pacificamente ao lado da criançada que disputava o espaço com sanguessugas e dejetos. Mas nada disso nos fazia temeroso. Ignorávamos o perigo.

Durante as tardes nos reuníamos e seguíamos para o Tanque Velho: nosso imperdível reduto de lazer. Até que em um determinado dia brincávamos n'água e, ao percebermos a aproximação da boca-da-noite, saíamos em dispersão. Vestimos nossas roupas e observamos que uma delas sobrava no chão, e que o seu dono não estava entre nós.

Ficamos espantados e nos contamos: éramos oito, agora somos sete. Olhamos em todas as direções e avistamos uma cabeça boiando no espelho d'água. Estava inerte com os olhos abertos: parecia morto; parecia vivo; bem no meio do tanque.

A escuridão da noite aproximava-se velozmente e o pânico apoderava-se de nós.

- Olha gente, tem alguém se afogando! - Alguém alarmou.

- É o Zé, o Zé Coió! - Disse um outro, demonstrando-se agoniado.

Nos mobilizamos agitados, nervosos e apreensivos.

- Corram! Corram!

- Ligeiro! Nadem rápido!

- Socorro! Socorro!

- Sai dai, Zé Coió!

- Sai Coió!

Todos nós, já vestidos, pulamos dentro d'água gritando em pânico. Queríamos agarrá-lo, mas nada podíamos fazer. Éramos jovens demais: quase crianças. Era muito arriscado.

Nossos gritos eram ouvidos à distância. Lá onde a cabeça boiava era muito fundo e temíamos morrer.

O medo rodeava entre nós que, desesperados, temíamos ver aquele indivíduo perecendo perante nossas vistas.

A noite se fazia presente e a Lua já irradiava um tênue brilho de luz no espelho d'água, enquanto a brisa movimentava pequenas ondas em volta da cabeça daquele infeliz que não podíamos precisar se estava vivo ou morto.
O medo da morte se estampava em nossos olhos e gritávamos desesperados:

- Sai daí, Zé!

- Zé Coió, sai da água!

Os gritos, cada vez mais fortes, alarmaram os moradores da vizinhança, e o povo achega-se, enquanto os clamores se sucedem ininterruptos e solidários. O choro e o lamento já se fazem ouvir das pessoas, que pasmas, a tudo assistem em torno d'água, enquanto as pessoas afluíam-se desesperados àquele local: já eram dezenas delas.

Homens munidos de cordas entram n´água a fim de laçá-lo, pois era impossível a aproximação. Eles rodavam laços de corda no ar, como a laçar uma rês, e tão logo os açoitavam em direção à cabeça do náufrago, que abruptamente defendia-se submergindo.

- Ele está vivo! Ele está vivo!

Alegria geral.

Todos davam vivas, graças e louvores.

Ele estava vivo e recusava a salvação.

Era uma luta desigual.

Como salvar alguém que quer morrer?

Ai começa a peleja daqueles inexperientes salva-vidas, que após incansáveis tentativas, hei-lo amarrado, içado e posto fora d'água. Ele debatia-se querendo voltar para a água.

O sujeito era realmente o Zé Coió, mas não o parecia. Ele mantinha os olhos esbugalhados e espantava a quem o visse. Sua voz era inumana e dava medo ouví-lo.

Todos se entreolhavam espantados com aquele Zé.

- Esse não é o Zé Coió que conheço! - Disse um dos homens, segurando-o à força.

- É...! Ele está muito estranho. - Não parece o Zé! - Isso não é gente - Se não é o Zé Coió, quem é? - Ele parece um bicho! (atônitos, todos os seus salva-vidas duvidosamente comentavam). Aquele sujeito era o Zé Coió, e ao mesmo tempo, não.

- Ele tá é com um exu! O bicho pegou ele no meio da água.- Disse um entendido.

- E agora? - Todos se questionam concomitante.

- Alguém vai ter que tirar essa coisa dele!

- Vamos levá-lo pra casa?

- Vamos!

E assim o fizeram:
Amarraram-no em uma rede e seguidos por uma multidão, os homens o levaram até sua casa, e lá o jogaram numa esteira sobre o chão batido. Já era tarde da noite.

O Zé Coió grunhia, rosnava, relinchava e urrava como um verdadeiro animal, enquanto furiosamente se debatia na louca tentativa de se soltar das cordas e correr para as águas do tanque Velho.

Seus pavorosos gritos alternavam-se no timbre e no tom.

O terror se estampava em cada olhar, enquanto uma multidão se espreme silenciosa para assistir tudo até o final.

Quando o energúmeno já parecia descontrolado, chega uma autoridade espírita: uma mãe-de-santo. Ela entra no recinto e toma suas providências cabíveis: os trabalhos de descarrego. Esses, se alongam noite a dentro, enquanto um povoléu se acotovela para assistir a tudo.

Pouco a pouco, o maligno que habitava no Zé Coió foi cedendo, obedecendo aos ditames de sua interlocutora e bruscamente afugentou-se do corpo daquele garoto, que apenas divertia-se nas águas lamacentas do tanque Velho.

Nunca mais alguém ousou nadar naquelas águas.


José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 05/11/2005
Código do texto: T67755
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz