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A Casa Simétrica

Quando chegou à casa média e cheia de musgo verde nos cantos do teto – mas não era úmida, não muito – sentiu em algum lugar entre o coração e o estômago que algo ali lhe soava diferente. A casa chamou-lhe a atenção enquanto vagava de carro pelo vazio de uma estrada, era noite. A casa: simétrica como nunca vira igual. Os móveis estavam todos arrumados como se houvesse ser vivo pisando por aquele soalho poeirento, uma poeira pegajosa. Baratas, porém, eram os únicos espécimes; talvez alguns ratos. Havia um divã de veludo verde e dourado, os pés de madeira, verniz. Uma estante cheia de porta-retratos vazios, um espelho enorme e todo estilhaçado. Isso num lado da sala, pois no outro, exatamente igual, os móveis também estavam – até pareciam reflexo. Ele olhou tudo com óbvio estranhamento, enquanto o sentimento ruim aumentava e já escalava a garganta. Largou um resto de cigarro num canto, sem cuidado, e entrou por uma porta ao lado da escada que ficava bem no meio da casa e levava há um segundo andar, também simétrico. Era uma casa simétrica, exceto pela porta ao lado da escada. E tendo atravessado-a para entender porque quebraram toda aquela coerência, viu-se num quarto de cama, guarda roupa e criado mudo, mudo. Era horrendo, todo desproporcionado, torto, quase em movimento. Era tudo velho, sujo, carcomido. Sobre uma das peças disformes, outro espelho, intacto. Olhou seu reflexo, já tonto, e corpo e quarto pareceram um só. Sentiu-se preso, pesado, sujo e torto como aquele cômodo sombrio. A sensação chegou à boca e vomitou e parecia que outro ser arrancava a mordidas o que havia por dentro de seu corpo e cuspia através de sua boca de hálito quente e ácido. Virou-se para fugir do quarto e já não tinha porta. Caído no chão, debateu-se para se livrar do que pareciam cordas peganhentas a amarrarem seus braços e pernas e alma. Mas o cômodo já se retraia enquanto de dentro do corpo vazio algo puxava esticando a pele e fazendo que ele se retraísse junto com o quarto, adstringindo-se como um só. Sumiram numa agonia de voltar lentamente a ser pequeno, disforme e, por fim, nada. E a casa tornou a ser simétrica.
Álvaro Andrade
Enviado por Álvaro Andrade em 03/10/2007
Reeditado em 03/10/2007
Código do texto: T679214

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Sobre o autor
Álvaro Andrade
Salvador - Bahia - Brasil, 30 anos
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