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Algo Sublime

                      Algo Sublime

Sentado em sua cadeira de balanço, como fazia todas as tardes após um período estafante de trabalho, lia seu livro favorito. Parou como se estivesse visualizando a passagem que tinha terminado de ler. Podia-se ver em sua expressão facial, algo encantador. Um sorriso levemente contornado em seus lábios acabava de se formar. Seus olhos brilhavam como duas pérolas incandescentes. Talvez pela derradeira luz do sol ou, simplesmente, por algo que ele visualizava e, que eu não podia ver. Trazia em suas faces, até a pouco tensas, a expressão de felicidade e de êxtase de algo sublime. Fiquei por alguns minutos encantada com tal transformação. Era como se ele estivesse em outra dimensão e algo muito bom acabara de acontecer-lhe.
De repente, como que tomado de uma estranha sensação, lançou sua cabeça para trás numa estridente gargalhada. Nesse exato momento, senti-me pequenina, medíocre, perante tão grandiosa percepção. Sem perceber, ele depreciava-me e eu tinha inveja de sua capacidade de transformar as pequeninas coisas em algo sobrenatural. Ele conseguia fazer de uma simples leitura um ato de bravura ou uma viagem extraordinária! Quando ele colocava “os pés na terra” novamente, eu sentia que ele tinha crescido e guardava algum segredo que jamais iria revelar-me. Mesmo assim, eu escondia dentro de mim o sentimento de admiração e inveja ao mesmo tempo. Mas nunca, eu iria revelar minha fraqueza. Nesse momento, eu dizia chamando sua atenção, "você é um tremendo panaca, não passa de um bobão!” Ele olhava para mim e percebia-se que em seu consciente ele me respondia: “pobre coitada, não consegue tirar os pés do chão!”
Tudo o que ele fazia era diferente dos demais. Algumas vezes, dormíamos em três no mesmo quarto, quando éramos crianças. Nossas camas tinham as mesmas dimensões. Mas eu percebia que, quando ele tirava a colcha que cobria o colchão de sua cama, esta se transformava em algo gigantesco! Ele lançava-se sobre ela e, de uma maneira muito especial, eu podia sentir o prazer emanando de seus poros. Sua expressão facial me encantava! Ele abraçava-se ao travesseiro. Com os olhos transbordando de felicidades, com um leve sorriso nos lábios, dizia-me: “Durma bem, porque eu já estou no sétimo céu”. Nesse momento eu, uma medíocre que não conseguia ver numa simples leitura o seu significado, como poderia alcançar o “sétimo céu?” Com certeza, nem o primeiro eu havia tocado!
Como as coisas nem sempre saem como queremos, cada um seguiu seu destino. Mas sentia-me especial, porque passei a maior parte de minha vida ao lado de uma pessoa que sempre me causou inveja e admiração. Talvez por isso, nunca respondi suas cartas ou seus E-mails. Mas de uma coisa eu tenho certeza, não vou esquecê-lo. Jamais! Nunca ele ficou sabendo quantas vezes o invejei, admirei e até o amei. Quantas vezes me senti pequena perante sua grandiosidade ou, perante o brilho de sua inteligência. Mas sempre percebia que ele mantinha uma atenção especial para mim. Por exemplo: quando estávamos num grupo de jovens, eu o pegava olhando para mim em êxtase. Talvez ele não estivesse me vendo, mas, olhando através de mim, alcançando meu âmago, minha alma. Eu podia perceber que ele gostava do que via, porque sua expressão o traía. E depois dessa fuga, ele desviava o olhar e procurava disfarçar dizendo frases sem nexo para mim. Outras vezes ele aproximava-se, tomava-me em seus braços e lançava-me sobre a cama, como se eu fosse apenas um travesseiro. Saltava sobre a cama e de repente, levantava-se e saia do quarto. Quando eu o procurava ele já havia saído para a rua, para algum lugar...! Quem sabe?
Anos depois, como jornalista, fazendo uma matéria sobre os astronautas e suas frustrações, encontrei-me com ele. Ele estava maravilhoso em seu uniforme de militar. Eu soube que trabalhava na Nasa, tinha viajado algumas vezes ao espaço. Havia ficado quatro meses na estação orbital e tinha voltado há alguns dias. Pude perceber que ele continuava o mesmo garotão de sempre! Alegre, mas, algo havia mudado em seu comportamento. Ele estava feliz em me ver, porém, já não era tão espontâneo como antigamente. Contudo, o habito de me olhar e depois abaixar a cabeça ainda persistia em seu comportamento.
Naquela tarde fomos almoçar juntos. Ele como sempre, foi supereducado puxando-me a cadeira para eu me sentar, passando-me o menu. Mas eu pude perceber que ele não se sentia à vontade. Fizemos o pedido e aguardávamos, enquanto eu falava. Percebi que me olhava, mas, não estava ouvindo-me e, repentinamente, interrompeu-me, disse-me: -Por quê você nunca gostou de mim? –Fui pega de surpresa. Olhei para ele e senti minhas faces ruborizando-se. Eu disse: Como assim? –Como...! Você sempre me chamou de babaca, de bobão. Nunca entendi o porquê. –Engano seu. Sempre o admirei. Você para mim foi algo divino, intocável, só que você me assustava com sua inteligência. Sempre te senti em uma dimensão acima da minha. – Sempre te amei, desde que éramos crianças. Mas toda vez que eu me aproximava de você, sentia que havia uma barreira entre nós. Quanto mais crescíamos, mais intransponível essa barreira tornava-se. Até o dia que eu te apanhei em meus braços e a lancei na cama e deitei-me ao seu lado. Eu queria, desesperadamente, te beijar, mas, você olhou-me nos olhos e disse: "Você é nojento!" Saí correndo do quarto e chorando, jurei que não queria mais te ver. Depois me arrependi e comecei a escrever para você, mas nunca obtive respostas. Foi aí que tive certeza de que você nunca gostou de mim!
Ele nunca soube como eu sempre me senti em relação a ele. Talvez um dia se eu me sentir segura, penso que devo contar-lhe. Mas não agora, porque ele ainda me assusta. Já aprendi a conviver com suas escapadas para outras dimensões. Agora, só o que me incomoda é, quando ele tem que deixar a terra, literalmente. Mas sempre o aguardo com ansiedade e muito amor. Sei que nunca vou estar à sua altura. Nunca vou aprender a descobrir a beleza que ele encontra nas pequeninas coisas. Só sei que me apaixonei por ele e aprendi a amá-lo da maneira que ele é.
  Porém, me pego pensando em quanto sou privilegiada em tê-lo ao meu lado. Mas, até quando ele está dormindo, ainda sinto-me pequena em relação a sua grandiosidade. Às vezes, à noite, eu acordo e fico olhando-o dormir. Ele é como uma estátua de algum deus grego em pleno repouso de sua existência. Aguarda pacientemente para ser colocada num pedestal, para ser admirada por todos. Eu posso ver que mesmo dormindo seu cérebro está trabalhando. Ele usa esse tempo de inatividade para penetrar em alguma coordenada, onde acordado não conseguiria fazê-lo. Mas, mesmo assim, eu posso perceber seus olhos num vai e vem, dando sinais de que ele está matando algum dragão, ou salvando alguma donzela de seus algozes. Agora eu tenho certeza que essa donzela é a mulher que ele sempre amou.
Nessas horas que eu, uma simples mortal, percebo como ele é especial. Aconchego-me ao seu lado certa de que algum dia eu consiga ler sua mente ou pelo menos participar de seu brilho. Ou ainda, envelhecer ao seu lado e quando eu não puder enxergar mais, tenho certeza que, vou continuar vendo através de suas escapadas e divagações.



Ester Machado  Endo



mendo
Enviado por mendo em 16/03/2005
Código do texto: T6817
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