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COLECIONANDO

      E me encanta a idéia de que há museus construídos a partir de uma necessidade de exibir coleções, mas por mais frondosa a árvore, raízes tão profundas existem  sem ao menos sabermos onde elas estão a crescer, certamente um dia era semente.

      O sol era morno, acolhedor, feito colo dourado. Era por volta das sete e meia, a mãe logo cedo  já deixava o menino na escola.Agora ele estava a perceber a luz na banca de revistas, fazendo brilhar, explendorosamente, o mundo lível e as balas. E entre tudo havia uma pequena caixa, estavam ali os pacotinhos. Organizados, postos em fileiras. Tudo para ele era encantado.Inicialmente era aleatório o puxar, seu pacote.Recebia ele com um sorriso no rosto, face sacerdotal. E achava gostoso o barulho do rasgar envelope.Com êxtase buscava as figuras... Passava uma a uma. Tenho, tenho, tenho, não tenho, tenho, não tenho.Tinha uma grande quantidade de álbuns, vários heróis, jogadores de futebol. Desse último amor derivou-se o apego aos times de botão. Estava lá entre os preferidos o seu glorioso Vasco da Gama, São Paulo, um Palmeiras especial de bordas diferenciadas dos demais e o seu preferido: um time do Botafogo feito de material de osso, segundo ele.Guardava mais que jogava. Tinha bilas, pequenos universos , galáxias que eram observavadas se aproximássemos bem dos olhos, e  dentre as bilas havia a preferida:  bila feita a pedra, que ele perdera em uma disputa de “buraco”.Quando a leitura lhe chegou foi por ocasião da coleção de revistinhas: Turma da Mônica e X-man. Mais pra frente colecionaria livros.

      Suas coleções as vezes beiravam o estranho, exótico. Quando voltava da praia , e por ser muito branco, sua pele largava. Recolhia todas as suas “escamas” e colocava-as em um potinnho antigo de balas.Não conseguiu levar a coleção por muito tempo devido a delação de sua prima que por lá passava as férias.

      Um tempo foi corrido. Ele logo deixou o bolo de carteiras de cigarros vazias, que usava como dinheiro no mercado informal da garotada. Isso evidentemente guardando sempre as suas mais preciosas em casa.  Percebemos que esse bom colecionador não abandonou o ofício. Diversão é coisa séria. Rapazinho já. Agora guardava diferentes embalagens de camisinhas, inúmeras marcas, e lembranças das meninas de quem fora mais íntimo. Tinha cartas apaixonadas em papeis coloridos de carta. Umas cheirosas de perfume, outras a tinta brilhante que quase as tornavam ilegíveis, estas em vez de um ponto final teriam as supostas  patas de gatinha.

      Por esses tempos  percebeu o valor do dinheiro e a necessidade de ter algum ofício rendoso para lhe garantir todos os seus objetos de desejo. Estudou.Passou. Universidade, OAB, TRE. Era agora um analista técnico, trabalhava em torno das eleições. Mas trabalhava para colecionar.

      Aprendeu com suas coleções a comercializar, todo colecionador é um comerciante em potencial. Sabia tirar proveito de pechinchas no mercado de coleções, dinheiro que seria conseguido e remanejado ,prontamente, em mais acervos. O espaço já era um problema por essa época. Resolveu  possuir duas casas. Uma vizinha a outra, morava e guardava, e entre elas uma passagem.

      Chegou um tempo a pensar em colecionar famílias. Casaria, divorciaria, teria muitos filhos, ex-mulheres e pensões. Foi esse último item que o fez esquecer essa absurda idéia. Subtrações.

      E construía o tempo com seu passar o homem que se modificava. Já um senhor, cabelos brancos, roupa impecável e cachimbo na mão, todos juntos garantiam respeito.  Respeitadíssimo e etiquetado pela sociedade.Classe média alta, carro, marido, pai, avô.Colecionador conhecido em todo o território nacional. Sua autoridade só se abalara em casa. Mulher, filhos e netos. Havia  de ter sempre uma revista quase policial todas as noites ao voltar do seu trabalho. Desde o dia em que a família perdera uma mesa de cerejeira antiqüíssima há uns sete anos. Um telefone antigo, parcialmente de madeira trazia cupins, que ele sem saber colocou insistentemente, resoluto, em cima da tal mesa.
Márcio Araújo
Enviado por Márcio Araújo em 06/10/2007
Reeditado em 12/10/2007
Código do texto: T682988

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Sobre o autor
Márcio Araújo
Fortaleza - Ceará - Brasil, 39 anos
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Márcio Araújo