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Âmago

...uma palavra tão amarga, tão amável, tão essencial. Lembra-me um sábado de novembro de 2003.

Seria a festa de quinze anos de minha amiga Caroena. Tratava-se de um jantar em um fino restaurante num bairro nobre da cidade.

Às 20h; todos os convidados começavam a chegar. O ambiente estava fabuloso. As mesas do restaurante cobertas por toalhas brancas e peroladas e em seus centros, arranjos de lírios. Quando Caroena entrou, naquele longo vestido decorado por pérolas, comecei a relembrar o passado, a rever aquele primeiro dia de aula, em que a conheci. Estava longe em meus pensamentos quando vi um rosto familiar que surgia por trás da bela figura da aniversariante. Era Miguel, alto, dos olhos e cabelos negros e das histórias engraçadas. Tudo em sua fisionomia o denunciavam irmão de Caroena. Ao lado dele, estava Lorena, minha melhor amiga, com seu vestido de crepe vermelho e seus eternos cachinhos negros. Corri para eles. . Na verdade, corri para Miguel, o meu tão querido amigo que eu não via há oito meses. Fui tão ágil em minha corrida que as leis da física quase esqueceram de alertar o chão de produzir os estalos do meu salto agulha. A partir daí, tudo aconteceu muito rápido, ao menos, rápido demais para que eu posso me lembrar com clareza. Lembro de ter-me rido ao ver Lorena pisando nos pés de Miguel enquanto tentavam acertar o passo do forró. Lembro-me de Caroena, com aquele sorriso iluminado ao meu lado, diante do fotógrafo e, também da gritaria que sucedeu o final do “parabéns” e o sopro das velas... da valsa que dancei com Miguel. Das palavras dele, saindo tranqüilas e vindo discretamente repousar em meus ouvidos enquanto dançávamos. Ah, Miguel!... As luzes daquela pista de dança, montada no centro do restaurante, eram tão diversas e inconstantes! A música já não era valsa, mas era romântica. Lembro-me da voz de Caroena oferecendo fatias de bolo, de Miguel falando-me coisas incertas sobre vida e morte, de Lorena segurar-se em mim após tropeçar na barra do próprio vestido e por fim... de Miguel dando-me um beijo inesperado. A quem perguntar, vai lembrar-se da festa de Caroena. Lembrar-se pelas músicas, pelo restaurante, pelo vinho e os requintes, pelos lírios talvez não. Eu, no entanto, lembrarei pelo meu primeiro beijo, pelo que me dissera àquela noite, Miguel, coisas que naquele momento eu não as compreendia, sobre vida e morte... e vou lembrar-me dos lírios. Porém, o que mais vou lembrar, será da forma melancólica com a qual o amigo que em beijara deixara a festa... e do telefonema que recebi de Lorena aos prantos na tarde do dia seguinte, enquanto eu ainda me encontrava na cama, contando-me que o velório de Miguel seria na segunda feira pela manhã. Ele fora morto ao voltar para a casa depois da festa, por dois tiros na nuca. O motivo: tentar abandonar o tráfico de drogas.
Caroline Natalie Stroparo
Enviado por Caroline Natalie Stroparo em 07/11/2005
Reeditado em 01/07/2010
Código do texto: T68459
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Sobre a autora
Caroline Natalie Stroparo
Curitiba - Paraná - Brasil, 28 anos
88 textos (5589 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 00:39)
Caroline Natalie Stroparo