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O defunto era outro

O defunto era outro
Era dezembro - mês de formatura, festas de fim de ano, amigo oculto, peru, chester, lojas abarrotadas, árvore de Natal, lista de presentes, estacionamentos lotados, engarrafamentos quilométricos - enfim, ingredientes mais do que suficientes para deixar qualquer um estressado e ansioso pra que o mês acabe rápido na paulicéia desvairada.
Faltavam apenas três dias para a festa de confraternização na repartição onde Divanilda trabalhava e o presente que seu chefe e amigo oculto (ou inimigo) pedira, uma luva de sinuca (isso mesmo, uma única luvinha), ainda não havia sido comprado.
Sábado à noite, ao chegar em casa cansada, com os pés cheios de bolhas de tanto andar a procura do bendito presente sem encontrar, Divanilda frustrada jogou-se de qualquer jeito no sofá, tirando os sapatos apertados e os arremessando ao longe. Pensava se não poderia comprar um cd, mas logo desistiu da idéia porque desconhecia o gosto musical do chefe. Talvez uma gravata! Hum... O chefe só usava gravatas italianas caríssimas. Quem sabe um perfume francês? Mas lembrou-se que ele sofria de rinite. As opções foram se escasseando e só lhe restou a bendita luvinha de sinuca. Divanilda sentiu as pálpebras pesarem, e o que seria um breve descanso transformou-se em sono pesado até ser interrompido com o toque insistente do telefone. Divanilda acordou assustada e, trôpega, dirigiu-se até a mesinha no canto da sala.
- Alô. Atendeu com voz baixa e rouca.
- Divanilda, aqui é o Aderaldo. Te acordei? Perguntou seu tio que mora em Mendes, no interior do Rio. Divanilda, com os olhos semi-abertos, consultou o relógio de pulso e assustou-se com o avançado da hora. Era quase meia noite.
- Tio, o que aconteceu ? Perguntou ela nervosamente.
- Tenho uma notícia muito triste pra te dar, Nildinha. Disse ele num tom choroso. - Lembras do Nezinho, O Genésio, filho da tia Torquata? Perguntou.
- Claro que me lembro ! Nós estivemos juntos no carnaval de 85 no sítio do tio Genilton, em Vassouras. Respondeu ela.
- Pois é, Nildinha, ele morreu. O teimoso foi passear no Rio de Janeiro e resolveu saltar de asa delta em São Conrado. Durante o vôo houve um tiroteio na Rocinha e uma bala perdida atingiu o equipamento que ele usava. Adivinhe o que aconteceu? O pobre caiu estatelado na Avenida Niemayer causando a maior confusão no trânsito. Um horror! Tinha gente correndo pra todo lado achando que era arrastão. Estou indo pro velório agora, e o enterro vai ser amanhã às 11 horas. Divanilda emudeceu e de tristeza chorou baixinho. Ninguém sabia, mas Nezinho tinha sido seu namorado quando eram adolescentes. A família jamais admitiria o namoro por conta do grau de consangüinidade entre ambos. Diante de tal impossibilidade, a jovem decidiu mudar-se pra São Paulo e começar uma outra história de vida, deixando pra trás uma infância feliz de lembranças indeléveis.
- Tio, vou me aprontar e pegar o último vôo da ponte aérea para o Rio. Não posso deixar de me despedir do Nezinho, coitado... Disse ela retornando ao diálogo.
- Então vamos fazer o seguinte: lá pelas 3 da manhã eu estarei no setor de desembarque te esperando para irmos juntos ao cemitério. Tá bom assim? Propôs de bom grado.
- Não precisa se dar a esse trabalho, titio. Eu pego um táxi. Disse ela.
- Nem pensar ! O cemitério fica no bairro da Pavuna, muito longe do centro. Sabe como é né... Pode ser que o motorista resolva ir pelo Recreio dos Bandeirantes... E o enterro tá marcado pras 11 horas. Por analogia, é como ir de Porto Alegre a Cuiabá passando por Maceió.
- O sr. tem razão. Então a gente se vê logo mais. Assentiu.
- Até lá e boa viagem.
- Obrigada e pro senhor também. Dirija devagar, hein.
- Pode deixar. Desligaram o telefone.
Divanilda tomou uma rápida chuveirada e com os pés em frangalhos, calçou as sandálias mais confortáveis que encontrou no armário. Em seguida chamou um táxi e rumou para o Aeroporto Congonhas. O último vôo saía a uma e meia e Divanilda teve de correr para não se atrasar. Já no saguão de embarque, após quase duas horas de espera, os passageiros foram informados por um funcionário da infraero de que a aeronave apresentara uma falha mecânica e a decolagem não seria possível. Como não havia nenhuma outra aeronave disponível para substituí-la, a única alternativa seria num vôo de conexão com embarque no aeroporto de Guarulhos e chegada ao Rio de Janeiro no aeroporto Tom Jobim. Com todo o cansaço e desconforto nos pés, Divanilda dirigiu-se ao ônibus que a levaria e os demais passageiros, até Guarulhos. A viagem se deu lentamente porque a Avenida Marginal Tietê apresentava alguns trechos de alagamento em razão do forte temporal ocorrido no início da madrugada. Com tantos imprevistos, ao descer do ônibus mais uma vez Divanilda teve de correr para não perder o vôo.
No interior do avião acomodou-se na poltrona e tirou as sandálias, para alívio dos pés cujas bolhas já haviam estourado. Durante a viagem pensava nos primos e tios que há anos não os via. Como estariam todos? Soubera do derrame do tio Alpheu e da cirurgia plástica da prima Deusicleide. Mais uma vez Divanilda sente o peso das pálpebras, e quando o sono se tornava inevitável o Comandante avisa do momento de chegada. Eram quase cinco e meia. Aos poucos os passageiros vão deixando a aeronave, enquanto Divanilda tentava fazer com que as sandálias entrassem novamente nos seus pés inchados e doloridos. Com dificuldade pra caminhar, Divanilda chegou até o ônibus que levaria os passageiros daquele vôo insólito até o aeroporto Santos Dumont. O percurso pela Avenida Brasil foi tranqüilo e mais uma vez Divanilda sentiu as pálpebras pesarem. Entretanto, no início da Linha Vermelha, devido a uma troca de tiros entre polícia e traficantes das favelas vizinhas, a pista de acesso ao aeroporto fora fechada e os passageiros assustados atiravam-se ao chão do ônibus para escapar das balas. Divanilda gemeu de dor quando sentiu que uma mala caíra do bagageiro sobre seus pés já tão prejudicados. Pânico, gritaria e desespero total no interior do veículo. Depois de quase noventa minutos de sufoco, finalmente a pista fora liberada e os motoristas puderam prosseguir viagem.
Ao adentrar no setor de desembarque Divanilda avistou seu tio que a aguardava com ansiedade. Cumprimentaram-se afetivamente. Quase sem poder falar de tanta dor nos pés, Divanilda recorreu à cadeira de rodas disponível no saguão para levá-la até o estacionamento. De lá seguiram para o cemitério. Durante o percurso trocaram poucas palavras porque Divanilda sentiu as pálpebras pesarem. Quando o cochilo começava a ganhar força foi sacudida de leve e avisada da chegada. Divanilda desceu bem em frente ao portão de entrada do cemitério e, dirigindo-se ao tio, avisou que o aguardaria na capela enquanto ele procurava vaga para estacionar. Cansada e com os pés doendo muito, ela mal raciocinava. Com dificuldade caminhou em direção a um grupo de pessoas que conversavam baixinho. Sem reconhecer nenhum parente ou amigo de infância, Divanilda entrou discretamente na capela mais próxima e sentou-se ao lado de uma moça que julgara ser a namorada do primo falecido. Recostou a cabeça na parede e sentiu as pálpebras pesarem. Inevitavelmente dormiu pesadamente até ser acordada pelo administrador do cemitério que precisava limpar o local para o próximo funeral. Assustada, Divanilda perguntou pelo primo Nezinho. Sem resposta satisfatória percorreu os olhos pela sala à procura do tio Aderaldo mas não avistou mais ninguém além do sr. administrador. Foi então que percebera o terrível engano; o defunto velado era outro. Desolada, levantou-se com dificuldade e caminhou em direção ao portão de saída do cemitério. Só tinha um pensamento: queria a sua cama. Entrou num táxi e rumou para o aeroporto Santos Dumont, onde pagaria um vôo de volta para São Paulo.
Os infortúnios foram tantos que o único consolo era a certeza de retorno ao aconchego do seu lar. Chegando em casa, depois de um monumental engarrafamento na Avenida Bandeirantes, Divanilda jogou-se no sofá de qualquer jeito, tirando as sandálias e as arremessando ao longe. Sentiu as pálpebras pesarem e ali mesmo adormeceu até que o telefone tocou. Divanilda, escorando-se na parede de tanto sono e dor nos pés, foi até a mesinha no canto da sala.
- Alô. Disse ela tirando o fone do gancho.
- Nildinha, aqui é o tio Aderaldo. Estou ligando pra pedir desculpas porque quando desceste do carro, na porta do cemitério, eu esqueci de avisar que a capela onde o corpo do Nezinho estava sendo velado era P-24. Eu não sabia, mas o enterro também foi antecipado. Quando eu cheguei lá a tia Torquata já estava jogando a última pá de cal sobre o caixão. Um horror!  Depois de muito procurar e não te encontrar, fiquei preocupado. E os teus pés ?
- Inchados e doendo muito.
- Coitadinha... Lamentou ele.
- Tá tudo bem, eu só preciso mesmo é descansar um pouco.
- Não vou mais atrapalhar o teu sono. Numa outra hora voltaremos a nos falar. Durmas com Deus.
- Amém. Desligou o telefone o voltou pro sofá.
Quando já estava quase pegando no sono lembrou-se de um detalhe que lhe tiraria de vez o sossego: ainda não havia comprado a bendita luvinha de sinuca.
Ninguém merece !


Cátia Paiva

Cátia Paiva
Enviado por Cátia Paiva em 07/11/2005
Reeditado em 28/06/2006
Código do texto: T68577
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Sobre a autora
Cátia Paiva
São Paulo - São Paulo - Brasil
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