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SEQUESTRO

Quando ele agarrou aquela criança e correu, previu no mesmo instante os benefícios que teria. Uma mãe cuidadosa que se atrasou para buscar a filha na porta daquele colégio garantiria os benefícios que ele queria.

Foi um seqüestro bem sucedido, como tantos outros que ele já praticara. Porém, ele sentia que estava em decadência. Desde que fugiu da cadeia, por alguma razão desistiu de praticar aquilo que ele chamou durante tanto tempo de “atos grandes” e que engrandeciam sua “ficha”. A cada novo crime – assalto, homicídio, estupro, seqüestro – ele acompanhava as notícias nos jornais e, sabendo que o autor daqueles “atos grandes” era ele próprio, quase chorava de orgulho. Mas o tempo foi passando e ele encontrava cada vez mais dificuldade em fugir da polícia, até que foi preso. Condenado a vinte e nove anos, cumpriu sete e foi posto em regime semi-aberto. Resolveu então fugir de uma vez. “Para que dormir na cadeia se posso dormir onde quiser?” E assim fez. Claro que, antes de fugir, deu boas risadas destinadas à polícia e à sociedade, as quais em silêncio perguntavam no tom mais irônico e debochador possível: “de que adianta a polícia se esforçar tanto pra me pegar, arriscando sua pele, se depois a justiça me solta quase logo em seguida?”. Isso o estimulava a continuar com sua vida.

Mas agora, na condição de foragido, sentia-se cansado e decadente, sem condições de continuar com os “grandes atos”. Resolveu somente roubar e seqüestrar, mas seqüestrar pessoas não muito ricas, pra não chamar muito a atenção. Porém, quis fazer tudo muito bem feito, coisa profissional. Escolheu a vítima: uma garotinha com jeito de anjo, não só pelo aspecto físico constantemente atribuído aos anjos (cabelos clarinhos, olhos que pareciam feitos de vidro), mas sobretudo pelo seu jeito meigo e puro, sempre sorrindo e carregando um ursinho debaixo do braço. Passava os dias no colégio – um colégio freqüentado por crianças não muito ricas, mas cujos pais tinham um dinheirinho razoável pra pagar um resgate. Era lá que sua mais recente vítima passava as manhãs e as tardes, na certa enquanto seus pais ganhavam a vida e lutavam para garantir-lhe um bom futuro. O futuro que, para ele, sempre foi perda de tempo. Costumava dizer que o importante é o agora.

Acompanhou os passos da garotinha durante muito tempo, com uma paciência difícil de entender, em se tratando de um sujeito que não pensava no futuro. Mas foi assim que fez. Sabia todos os horários da menina. Viu-a usando várias roupas, até repetir os vestidinhos prediletos. Conhecia também seu ursinho. Era capaz de descrevê-lo de olhos fechados.

E sabia também que, às vezes, a mãe atrasava para ir buscá-la às terças-feiras no colégio. Então, ele resolveu agir numa terça-feira.

Durante a saída das crianças do colégio, no meio de todas as crianças que corriam ao encontro de seus pais, ele cometeu um ato ousado para um criminoso em decadência: entrou na multidão e, agarrando a menina, saiu correndo. Correu como nunca correra antes. Ainda escutou várias pessoas gritando, chamando a polícia, mas sequer olhou para trás. Quando já se achava em segurança, diminuiu os passos, mas ainda andando rápido, até que chegou ao local onde escondera o carro roubado. Colocou a menina no porta-malas e foi embora. O cativeiro era longe.

Chegando ao cativeiro, tirou a menina do porta-malas e a levou para dentro da casa, perdida em algum lugar na zona rural. A menina abraçava furiosamente seu ursinho, parecendo temer mais por ele do que por si. O homem, no mesmo instante, disse-lhe para não se preocupar, pois ele não machucaria seu ursinho. Disse também que não podia garantir que não a machucaria, pois isso dependia de seus pais. Ouvindo isso, ela começou a chorar. Chorava muito. Gritava até. Ele não se incomodou. Até mesmo estranhou o fato de ela não ter chorado durante o trajeto até a casa (sabia que ela não chorou, pois seu lindo rostinho de anjo estava enxuto).

Apanhando a menina com força, levou-a para dentro. Trancou a porta e acendeu a luz.

A menina continuou chorando durante muito tempo, até que seu desespero se viu resumido a alguns soluços. Ele então sentiu vontade de conversar com a menina. Essa vontade era algo novo para ele. Nunca quisera conversar com seus seqüestrados. Isso era um sinal da decadência, ele pensou.  Segurou sua vontade, mas não durante muito tempo.

Sentou-se perto da menina, após umas duas ou três horas. Ofereceu-lhe um copo de refrigerante. Ela, timidamente, aceitou. Ele ficou observando aquela pessoinha beber com vontade o refrigerante que ele ofereceu. Assim que ela engoliu o último gole, ele lhe perguntou se seus pais nunca haviam ensinado a não aceitar nada das mãos de estranhos. Ela disse que sim, mas disse também que ele já não era estranho, pois a levou para dentro de sua casa. Ele então riu (de desdém, mas também de surpresa pela inocência da criança) e disse que, sendo assim, ela aceitaria também um biscoito. Ela mexeu a cabeça afirmativamente e pediu para ele dar um biscoito também para seu ursinho, que não tinha comido nada até então.

Diante disso, antes de pegar o pacote de biscoito, olhou a criança por alguns segundos. Quis sentir raiva daquela inocência, mas não conseguiu. Quis esbofetear aquele rostinho lindo e meigo por ter dito uma bobagem daquelas, mas não conseguiu. Ao invés disso, fez força para segurar um sorriso. “Era só o que faltava”, pensou ele, “decadência tem limites!”. Apanhou o pacote de biscoitos e entregou para a menina. Antes de comer, ela ofereceu um para seu ursinho enquanto conversava com ele, como se aquele brinquedo de fato a estivesse ouvindo. Depois, ela própria comeu.

O homem, então, perguntou se ela não estava com medo. Ela disse, quase resmungando, que estava. Ele se sentiu aliviado. Pelo menos ainda conseguia meter medo na garotinha, apesar de ela parecer bem à vontade. Para confirmar, ele disse que ela não parecia mais assustada tanto quanto estava quando eles chegaram à casa. Ela disse que estava sim assustada, mas não tanto quanto antes, pois ele estava mostrando que não era tão mau.

Ela disse aquilo e abraçou seu ursinho de uma maneira que chegou a comover o homem. O olhar que ela lhe lançou foi algo que o incomodou: um olhar extremamente terno. E isso o deixou bem preocupado, já que após algumas horas em seu poder, a menina parecia bem menos assustada, menos angustiada e, o que era mais grave, capaz de lançar-lhe olhares ternos e meigos ao invés de fazer expressões de súplica e de chorar.

Mas o mais grave de tudo, ele pensou, era que ele estava gostando daquela menina. Estava comovido. Sentiu algo que ele nunca sentiu. Ao mesmo tempo em que desejava matar a menina, após bater-lhe e talvez estuprá-la como já tinha feito com tantas outras crianças, sentia uma grande vontade de conversar mais com ela, talvez até abraçá-la com carinho e levá-la para passear.

Seu desespero cresceu. Não queria sentir aquilo. Sentia prazer em fazer o mal. Não era possível sentir, ao mesmo tempo, essas duas coisas tão díspares. Em silêncio, se apertou por dentro na ânsia de sufocar esse sentimento novo. À sua frente, a menina parecia indiferente à sua angústia; olhava-o com o mesmo ar de ternura, agarrada em seu ursinho.

Diante dessa situação que para ele era terrível, resolveu que seria melhor desistir do seqüestro e devolver a garota. Falou para ela esperar um pouco, que ele retornaria em breve. Disse-lhe para pegar refrigerante na geladeira se ela quisesse. Ela perguntou onde ele iria e pediu-lhe para não deixá-la e ao seu ursinho sozinhos. Ele não se conteve e sorriu, morrendo de desgosto por dentro. Pior ainda: deu um beijo na cabecinha da menina e disse que só iria até o banheiro e já voltava para levá-la de volta aos seus pais. Ela sorriu e perguntou se era verdade mesmo, se ela poderia ver seus pais de novo. Ele disse que sim. Ela levantou-se da cadeira e agarrou a cintura do homem, agradecendo enquanto o abraçava. Ele olhou para cima (foi um gesto involuntário, provavelmente uma resposta de seu corpo ao desejo incontrolável de não querer que a lágrima caísse) e afagou os cabelos da menina. Repetiu para ela esperar, pois ele voltaria logo.

Encostou a porta do banheiro e colocou o revólver sobre a privada. Olhou-se no espelho, ainda não acreditando que ele havia chegado a esse ponto. Mas, ao contrário do que ele sentiu até o momento em que a menina o abraçou, ele agora não estava mais desesperado. Pelo contrário, chegava a estar até se sentindo leve. Pensou que talvez fosse mesmo bom começar uma nova vida. A menina provocou isso nele.

Ainda estava se olhando no espelho quando a menina abriu a porta do banheiro. Ele virou-se para vê-la, já com um sorriso no rosto e não se sentindo mal por isso. Foi quando viu que menina estava com uma faca na mão. Ele perguntou onde ela havia encontrado aquilo, já sabendo que só podia ter sido na cozinha. Foi isso que ela respondeu, dizendo que viu a faca quando foi beber mais refrigerante e pegar um copo para seu ursinho. Ele então disse que aquilo era perigoso e pediu para ela lhe entregar. Ao invés disso, ela deu um salto em sua direção e cravou a faca em sua coxa, retirando-a logo em seguida.

Ele gritou de dor e caiu. Sentiu a dor da facada, mas sentiu também a dor de espanto pelo que acabara de acontecer. Sentiu mais uma coisa que nunca antes havia sentido: tristeza. Tristeza por aquela garotinha angelical que ele estava amando ter feito isso com ele. Chorou. Chorou de dor e de tristeza, de angústia. Talvez por isso não tenha conseguido reagir quando a menina desferiu-lhe um novo golpe, atingindo sua barriga.

A dor estava insuportável. Mas não era a dor física que mais o incomodava. Era a dor pelo que aconteceu. O sentimento de traição, de espanto, de decepção. Isso o deixou paralisado, tão paralisado que ele não conseguiu reagir ao novo golpe de faca, que o atingiu um pouco mais acima do local onde a segunda facada pegou.

Depois desse segundo golpe, a menina se afastou, ainda segurando a faca que pingava sangue. O sangue dele. O sangue de um homem que já matara tantas pessoas, torturara tantas outras..... e agora, estava sendo esfaqueado por uma menina de seis anos de idade, cujo rostinho angelical por si só já seria capaz de produzir ternura em um cubo de gelo.

As lágrimas desabavam do rosto do homem. Quando ele pensou em perguntar “por quê?”, a menina já estava se afastando. Andou lentamente, de costas e olhando para ele com aquele mesmo semblante de anjo que o cativara, enquanto deixava-o sangrando no chão. Ele pensou em pedir para que ela voltasse e terminasse de matá-lo, mas a voz não saía. E ele não tinha forças para se levantar e apanhar o revólver que estava sobre a privada, logo atrás dele. Não tinha forças porque estava com muita dor e perdendo muito sangue, mas também porque estava paralisado pelo que aconteceu.

Ele mal percebeu quando a menina chegou à sala, apanhou uma cadeira e subiu até a janela, para então abri-la e pular para fora da casa – mas não sem antes pegar de volta seu ursinho, que ficou na sala esperando. Na hora de pular a janela, ela deixou a faca cair. Afastou-se lentamente da casa. Se houvesse alguém por perto acompanhando seus passos, teria visto o sorriso que nasceu em seu rostinho de anjo e talvez tivesse conseguido ouvir seu pensamento, que dizia que aquilo foi mais divertido do que cortar aqueles bichinhos que ela tanto gostava d cortar. Fazer um homem adulto sangrar divertiu-a muito mais do que abrir a barriga daquelas lagartixas que se debatiam enquanto ela as mutilava usando uma faquinha de cozinha.

Ainda pensando nisso, ela seguiu caminhando. Só parou quando encontrou um riacho, onde lavou as mãos sujas de sangue e bebeu um pouco de água. Recomeçou a andar logo em seguida, sem perder muito tempo. Esperava encontrar logo alguém que pudesse levá-la de volta para casa. Estava cansada e com saudades de sua mãe e de seu pai. Queria vê-los logo.
Quando finalmente alguém a encontrou vagando pela estrada, ela estava banhada em lágrimas. Sentia muita falta de seus pais. O homem que a encontrou levou-a até um posto policial, onde ela foi reconhecida como a pobre criança que havia sido seqüestrada há poucas horas quando saía da escola. Assim que chegou em sua casa, chorou ao finalmente ter podido voltar e beijar sua mãe e seu pai.

Deitou-se em sua cama e dormiu tranquilamente, abraçada em seu ursinho, que tinha uma pequena manchinha de sangue em uma de suas patinhas.
Vitor Souza
Enviado por Vitor Souza em 13/10/2007
Código do texto: T692493

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Sobre o autor
Vitor Souza
Piracicaba - São Paulo - Brasil, 38 anos
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