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Fica Comigo...


Sala cheia, burburinho, música, risadas. Nossos olhares se cruzam. Nada de mais.
Mas há algo novo e diferente em seu olhar. Um pedido aflito que não consigo decifrar.
O sorriso é o mesmo de sempre, calmo, sedutor, mas os olhos, tão aflitos, me atingem em cheio.
Fica comigo, gritam.
A surpresa me tira o fôlego.
Na sala cheia de vozes, seus olhos inquietos procuram os meus e colocam neles uma força, uma voracidade que me inibe.
Fica comigo, gritam; e gritam mais e mais alto e esse grito ecoa pela sala.
Constrangida olho para os lados. Tenho a nítida impressão de que todos ouviram.
 - ‘É minha imaginação’, penso.  – ‘Coisa de mulher’,  - ‘Fantasias da solidão!’
Concentro-me na conversa animada do grupo. Todos riem de algum fato inusitado, eu sorrio também, sem saber bem o porquê.
Você monopoliza o círculo que o rodeia. Desenvolto, marcante!
Procuro observar sem ser observada.
 - ‘Meu Deus! É um equívoco’, penso. (e perco-me em divagações).
 - ‘Certamente um equívoco!’ (e vislumbro um mundo de possibilidades).
 - ‘Só pode ser um equívoco’ (e resgato inúmeras sensações...e estremeço.).
Assustada, me obrigo a esquecer o pedido que lateja por toda a sala; a quase súplica que escapa dos seus olhos quando, por acaso, resvalam nos meus.
A noite avança, inexorável, definitiva.
As pessoas começam a se despedir. Entre sorrisos e abraços, vão se afastando. Diluem-se na noite.
Confusa, procuro me desvencilhar.
E fugir.
E me esgueiro pelos cantos.
E caminho sorrateira até a porta, medrosa, sem coragem de fitá-lo novamente.
Mas, num golpe cruel, quase fatal, seus olhos procuram pelos meus. Transbordam de azul...infinito e ficam ali, sôfregos, desamparados.
Subjugada, quase sem forças para reagir, fecho os olhos para fugir do azul.
Atordoada, busco a porta de saída:âncora salvadora!
Alcanço o trinco e, num movimento rápido, abro a porta. O ar quente da noite de verão me envolve e me acalenta.
Reconforta-me.
Respiro aliviada. Tudo fantasias da solidão, penso.
Mas então ouço sua voz, profunda, muito próxima.
 - Fica!
           
         
           
vera abi saber

vera abi saber
Enviado por vera abi saber em 17/10/2007
Reeditado em 29/06/2013
Código do texto: T697408
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
vera abi saber
São Paulo - São Paulo - Brasil, 66 anos
118 textos (18340 leituras)
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