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GABRIELA

¨Tudo posso naquele que me fortalece.¨ Filipenses - 4:13

O relógio marcava 17:00 horas. Eu ainda precisava encerrar minha página pra fechar o jornal do dia. Porém, sentia-me tão cansada, desanimada. Achava que não conseguiria dar conta mais de meu trabalho. Por outro lado, eu não poderia deixar que toda a equipe da redação ficasse empenhada por culpa minha.
Pensando assim, tratei de inventar logo um assunto para fechar essa página. Minha cabeça doía e, pesava muito. Meu corpo todo doía. Eu nunca fui uma mulher dengosa, não havia de ser agora, só por estar grávida que eu começaria a ser. Precisava ser forte. Mas, embora tivesse vergonha de admitir, eu realmente me sentia muito mal. De repente, me vejo observada por dona Albertina. Estranhei o jeito dela. Olhava-me com tanta ternura. E, ela vendo que eu a tinha descoberto falou-me: _ Mirtes, está tudo bem contigo? Estou achando-a tão abatida. E, estás muito inchada, também. Já falou desse inchaço pra tua médica? Respondi que sim. E, que a médica tinha dito que isso era normal, que estava tudo bem comigo. Dona Albertina, então, falou-me com ar de preocupação que aquilo não poderia ser normal. E, que a médica deveria ter me cortado o sal, refrigerantes e, todo o tipo de tempero. Ela realmente havia falado sobre os refrigerantes, mas não me dissera nada sobre o sal. De toda a forma, eu já tinha excluído o sal de minha alimentação, desde que minha irmã me falara também, sobre isso. Agora, dona Albertina era a segunda pessoa a tocar nesse assunto. Será que minha médica não era tão boa como eu pensara? Será que eu estava com algum problema sério? Ora, gravidez nunca foi doença. Eu sempre soube disso, mas eu realmente me sentia mal. De repente, eu poderia estar mesmo com alguma coisa estranha e, tinha tanto medo que pensassem que era dengue meu. Já bastava a minha mãe de hipocondríaca na família. Eu não queria que me vissem como ela.
Dona Albertina era esposa do senhor Washington Lamas, o proprietário do jornal A Voz do Povo, da cidade de Pinheiro Machado. Eu trabalhava ali há quatro anos. Relacionava-me muito bem com toda a equipe do jornal e, com a família de dona Albertina também. Embora, ela sempre fosse simpática e, de certa forma, educadamente distante. Eu não me preocupava com isso, sempre respeitei o jeito das pessoas. Cada um é como é e, ponto final. Mesmo assim, ela sempre me passou uma segurança muito grande e, eu nem sei como explicar isso. O fato é que eu confiava nela. E, naquele momento eu estava tão fragilizada... Deixei cair minha máscara de valente em sua frente e, chorei todas as lágrimas que meu coração pedia há muito tempo. Ela, silenciosamente, contornou minha escrivaninha e, abraçando-me carinhosamente, encostou minha cabeça em seu colo, enquanto deslizava sua mão amiga em minhas costas, dando leves tapinhas, como se querendo confortar-me. E, sempre com um sorriso no rosto disse que eu deveria tirar uma licença no jornal e, cuidar um pouquinho de mim, que ela sabia que eu não estava bem. E, pediu pra eu prometer que iria novamente a minha médica.
Prometi-lhe que iria e, ela dando um beijo em minha testa e, fazendo mais um carinho em meus cabelos, saiu da sala, deixando-me sozinha novamente. Encerrei a matéria, passei para o pessoal da diagramação e, pegando minha bolsa saí do jornal. Fui caminhando lentamente até o ponto de ônibus que ficava a meia quadra da gráfica do jornal. Chegando ao ponto, fiquei olhando para as casas da rua, todas com uma arquitetura em estilo século XVIII, uma mistura do barroco, aliada ao estilo gótico e, românico. Enfim, o verdadeiro barroco brasileiro, com todas as influências que sofreu de outras civilizações que aqui chegaram, como da alemã, por exemplo, que se faz mais presente na arquitetura dessa rua, de casas espetacularmente lindas. E, fiquei imaginando de quantas histórias aquelas casas já haviam sido cenário. Também fiquei me questionando por que aquela rua se chama Rua das Flores se é toda calçada e, as únicas flores que se podem ver, são as da casa do senhor Osval Resing, que aparecem do lado de dentro do alto muro que existe em frente a sua casa. Continuei ali aguardando o ônibus e, viajando mentalmente. De repente, senti que minha visão estava cada vez mais difícil e, pensei que ia desmaiar. Assim, procurei encostar-me no abrigo. Eu estava só e, temi cair, machucando minha barriga. Isso poderia ser prejudicial ao meu bebê. Por sorte, o ônibus chegou em seguida. Subi e, sentei-me num banco próximo ao cobrador para o caso de eu desmaiar poder ser socorrida. Então, olhei para a rua e, precisei fazer muita força pra visualizar as imagens, minha visão piorava a cada minuto. Procurei acalmar-me. Fechei os olhos e, mentalizei uma canção que minha irmã e eu aprendemos nas aulas da escolinha dominical de nossa igreja e, costumávamos cantar sempre em casa, quando pequenas. Era mais ou menos assim: ¨Minha pequena luz, eu vou fazer brilhar. Minha pequena luz eu vou fazer brilhar onde quer, onde quer que eu passar...¨ E, a música continuava porém, naquele momento eu inexplicavelmente havia esquecido do restante da letra. O cobrador do ônibus era conhecido e, fui alertada por ele que pensando que eu dormia, tocou de leve em meu braço e, avisou: ¨_Mirtes, acorda, tua parada é a próxima.¨ Agradeci e, me encaminhei para a porta a fim de descer. Eu não enxergava praticamente nada e, por isso, me apoiava nos bancos temendo cair. Desci do ônibus, esperei que ele seguisse, atravessei a rua, abri o portão de minha casa e, entrei. Meu marido, Francisco, ainda não havia retornado de seu trabalho. Eu queria fazer uma janta para esperá-lo, me preocupava com ele que durante o dia se alimentava mal na cantina que havia em frente ao seu escritório de contabilidade. Mas, eu realmente não me sentia em condições para nada naquele momento. Por isso, fui me deitar. Chorei muito ali sozinha, até que adormeci. Nem o vi chegar. Quando acordei já de madrugada, vi que ele estava ao meu lado dormindo. E, sobre a mesinha de cabeceira havia uma bandeja com suco, frutas, queijo e torradas com geléia, coberta com um guardanapo. Ele havia preparado para mim. Mas, porque não me acordara? Não entendi, talvez, tenha pensado que fosse melhor eu dormir. De toda a forma, senti um carinho enorme por sua atitude. Eu sei o quanto ele chega cansado em casa e, ainda foi se preocupar comigo. Beijei levemente sua testa, fiz um carinho em seus cabelos e, deitei-me novamente. Eu não conseguiria comer nada àquela hora. Fiquei feliz, contudo, pois percebi que minha visão voltara ao normal. Assim, cheguei o mais próximo possível de meu marido e, o suficiente longe para não importuná-lo e, tratei de dormir. Não antes de agradecer a Deus pelo marido maravilhoso que eu tinha.
Na manhã seguinte, levantei e, fui consultar novamente. A médica naquele dia, sequer verificou minha pressão. Olhou-me com má vontade e, disse que eu não precisava ter ido que minha próxima consulta estava marcada para dali a 15 dias. Que estava tudo bem comigo. E, que meus sintomas eram psicológicos. Sai dali mais preocupada ainda. Será que eu estava enlouquecendo? Como ela poderia dizer que era psicológico se eu estava cada dia mais cega? E, minha perna direita estava com um inchaço fora do normal, pois estava maior do que eram antes, minhas duas pernas juntas. Mas, a médica disse que estava tudo bem comigo. Então, devia estar. Eu é que estava assustada a toa. Assim, fui trabalhar.
Dona Albertina não estava na redação nesse dia. Bom, porque ela ficaria brava comigo se me visse lá. Trabalhei toda a tarde com muita dificuldade. No dia seguinte, quando já ia sair para o trabalho, meu marido perguntou se eu não ia trabalhar e, lhe respondi que não, pois não passava bem. Ele disse que isso era psicológico e, sem me dar um beijo saiu, deixando a porta encostada. Fiquei muito chateada com ele. Está certo que eu havia lhe contado o que a médica dissera, mas ela não me conhecia. Agora, ele dizer que eu estava com problemas psicológicos?! Para mim, isso soou como se ele tivesse dito que eu era manhosa. E, chorei muito. É bem verdade que eu nem tinha lhe falado que eu agora, já não enxergava mais nada, estava totalmente cega. Mas, eu queria que ele tivesse se preocupado mais comigo. Eu teria me preocupado com ele.
Continuei na cama, sempre chorando. Então, ouvi a voz de minha mãe que entrava dentro de minha casa. Quando entrou em meu quarto, assustou-se a me ver chorando e, quis saber o motivo. Rapidamente contei-lhe tudo. Ela então, disse que eu não poderia ficar assim. Mandou-me levantar e, ajudou-me a me arrumar para levar-me ao médico. Fomos num postinho médico que havia próximo a minha casa mesmo. Chegando lá, o médico examinou-me e, preocupado escreveu um bilhete. Depois, disse que eu deveria ir imediatamente para o hospital e, que entregasse aquele bilhete ao médico que me atendesse lá. Eu não podia enxergar nada mesmo, mas estava curiosa de saber o que ele havia escrito ali. É lógico que nem adiantaria pedir a mãe que visse para mim, pois ela certamente me esconderia. Saindo dali, pedi a mãe que ligasse para o meu marido para que viesse me levar para o hospital. Mas, ela achou melhor irmos direto, sem esperar por ele, para poupar tempo. E, assim fizemos. Chegando ao hospital, entreguei o bilhete para o médico que veio atender-me. Ele disse que eu teria de ficar, então, lhe pedi para dar um telefonema antes. Liguei para meu marido e, num breve diálogo disse: ¨Meu psicológico, me colocou no hospital. Estou aqui.¨ E, desliguei sem lhe dar chance de responder, eu ainda estava muito magoada com ele. Então, entrei com o médico para a sala. Sei que me colocaram numa mesa para me examinar. E, em seguida entrei em convulsão. O médico voltou à porta e disse a minha mãe que eu estava em coma. Minha mãe ligou novamente para o meu marido e, lhe contou tudo. Ele imediatamente foi ao hospital, mas não podia me ver.
O interessante é que não sou espírita, nunca fui adepta ao espiritismo, sou evangélica luterana, nem em santos acredito. Mas, vivi uma experiência ali, que até hoje, não sei explicar. Eu entrei no hospital, amparada por minha mãe, porque eu não enxergava nada, estava totalmente cega. Mas, de repente, me vi flutuando na altura do teto da sala de cirurgia. E, olhando para baixo, via meu corpo sobre a mesa. Os médicos já haviam retirado meu bebê e, eu nem pude vê-lo. Não sabia se estava vivo ou morto, se era menino ou menina. Minha barriga ainda estava aberta.
E, eu fazia uns movimentos esquisitos com meu corpo e, uns sons também, esquisitos saiam de minha boca. Tive vergonha, queria parar aquilo, mas não conseguia. Então, dei-me conta de que eu estava fora de meu corpo. Assim, conscientizei-me de que ou já estava morta, ou estava morrendo. Mas, onde eu estava me sentia muito bem. Não tinha dores, nem cansaço. Será que aquilo era a morte? Mas, então, porque meu corpo se mexia lá embaixo? Quem o fazia mexer? Logo, eu ainda não havia morrido. Talvez, estivesse morrendo naquela hora... Então, ao pensar nisso, preocupei-me. Se eu morresse ali, meu marido sofreria muito, sentir-se-ia culpado por não ter me dado atenção quando eu lhe disse que não estava bem. Ah, por que eu fora lhe dar aquele telefonema? Por que eu fora tão estúpida? Se eu o amo tanto, por que fui ser a causadora dele sofrer agora, por culpa minha? Muitas perguntas passavam rapidamente por meu cérebro. Cérebro? Eu nem sei se ainda o tinha, mas enfim, eu pensava. E, pensei também na dor de meus pais e, de minha irmã, caso eu morresse mesmo. Aí lembrei do bebê que eu nem sabia se tinha se salvo ou não. Mas, se tivesse e, eu morresse, por mais que minha mãe ou minha irmã o amasse e, fizesse o melhor por ele, não seria a mesma coisa que se eu o criasse, porque afinal, quem poderia amar mais meu filho que sua própria mãe? Por isso, comecei a orar. Pedi a Deus, não por mim, pois eu estava bem. Mas, por meu filho, por minha família. Pedi que me desse mais uma chance e, que me deixasse criar meu filho que eu havia de dar-lhe um nome bíblico se ele ainda estivesse vivo. Assim, se fosse menino, seria Lucas e, se fosse menina... Eu não gosto muito dos nomes femininos que tem na bíblia, o mais bonito é Sarah, mas esse não sei por que, nada tinha a ver com um filho meu. Então, disse a Deus, que se fosse menina, eu transformaria um nome masculino em feminino, havia de ser Gabriela. Enquanto eu conversava com Deus, a equipe médica pensando que eu já estava morta, fechou minha barriga de qualquer jeito, sem preocupação com estética pois se eu já estivesse morta, isso não importaria mais. Depois, vi uma luz enorme que envolvia todo o meu ser (acho que era minha alma. Pois, o corpo continuava lá embaixo e, na volta dele, não havia luz alguma. Mas, havia em minha volta.), e, essa luz me dava muita paz. Olhei novamente para o meu corpo e, vi que havia três médicos, me atendendo. Às vezes, meu corpo parava e, os médicos com olhares cansados diziam balançando a cabeça, que não havia mais o que fazer. Mais eu rezava e, pedia a Deus por meu filho e, por minha família. Nunca pensei em mim naquele momento. Só pensava neles. Então, vi que um médico com feições orientais estimulava seus companheiros a tentarem outro procedimento e, assim foi por três ou quatro vezes. De repente, me senti caindo de onde eu estava e, tudo escureceu.
Não vi mais nada. Acordei dez dias depois e, senti meu marido passando a mão sobre meus cabelos. Ele, disse um oi, bem baixinho. Eu então, fechei meus olhos e, embora ainda estivesse cega, agradeci a Deus por ter atendido minhas preces. Em seguida, pedi perdão a meu marido pelo telefonema que eu havia lhe dado e, ele também, pediu que eu o perdoasse por não ter prestado mais atenção quando lhe falei que me sentia mal. Mas, que ele jamais poderia imaginar que realmente fosse tão sério assim. Ambos nos perdoamos. Depois, Francisco contou-me que tínhamos uma menininha, que estava na neo-natal.  E, por ser prematura, precisava ficar lá até ganhar peso. Eu tivera uma pré-eclâmpsia, uma doença que só dá em mulheres grávidas ou na hora do parto, por problemas de pressão alta. Assim, eu havia inchado não só meus membros superiores e inferiores, mas também, minha cabeça e, principalmente, meus olhos. E, por isso eu estava cega. Como incharam muito, criou estrias em meus globos oculares e, a pressão muito alta os havia queimado, eu jamais voltaria a enxergar. Agora, eu não reclamava nada para não deixar meus familiares tristes. Mas, fazia silenciosamente, mais um pedido a Deus. Eu queria voltar a enxergar por dois minutinhos só. Apenas para ter o prazer de ver minha filhinha uma vez só na vida. Depois, Deus poderia fazer o que se agradasse que eu não reclamaria. E, por pensar assim, aceitei quando minha irmã quis levar-me a todos os melhores especialistas que havia em nossa cidade. Mas, todos eram unânimes em seu diagnóstico: Eu não voltaria mais a ver e, nem adiantava adotar um óculos. Através de um médico amigo, minha irmã soube de um grande médico que vinha do Uruguai para um congresso de medicina em nossa cidade. E, seu amigo a ajudou marcar uma hora com esse outro médico para mim. Porém, esse médico também nos desenganou, dizendo não haver solução para o meu caso. E, que as mulheres que passavam pelo que eu passei, em sua grande maioria morriam e, muito poucas sobreviviam, mesmo assim, ficando cegas para sempre. Eu precisava me conformar com isso. Mas, não me conformava. Eu queria ver minha filha uma única vez e, não acreditava que Deus me negaria isso depois de tudo o que eu passara para ter meu bebê.
Embora cega, eu tentava fazer o serviço de casa, não queria ser pesada aos meus familiares. Então, um dia enquanto eu tentava pelo tato sentir se tinha descascado bem uma cenoura para uma salada. Que eu estava preparando para o meu marido que deveria chegar em seguida do seu serviço. De repente, como por um milagre, eu visualizei a cenoura em minha mão. Então, achei que estava sonhando e, comecei a rodopiar na cozinha e, visualizava tudo! Até pude ver que eu não havia limpado direito a lateral de meu fogão, tinha ficado marcada. Então comecei a rir sozinha. Corri ao quarto de minha filha e, tomando-a em meus braços, chorava e ria ao mesmo tempo, agradecendo a Deus por dádiva tão grande. Meu marido chegou e, lhe contei que estava enxergando tudo novamente. Ele abraçou-nos igualmente feliz por mim. Eu não sei por que, estou certa de que sou uma pecadora e não mereço. Mas, o fato é que Deus por sua imensa misericórdia, compadeceu-se de mim e, de minha família. E, além de salvar a vida de meu bebê que nasceu aos seis meses de gestação, devolveu minha visão. É bem verdade que não poderei ter mais filhos, mas sou imensamente grata ao meu bondoso Deus por ter me dado à oportunidade de criar minha filha, Gabriela Henick, que hoje está completando 15 anos de idade e, é uma bela moça.
Tânia Regina Voigt
Enviado por Tânia Regina Voigt em 17/10/2007
Reeditado em 02/04/2009
Código do texto: T697440

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Sobre a autora
Tânia Regina Voigt
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