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Rosas Brancas

Pôs a água a esquentar e preparou um chá de rosas brancas para tomar deitada enrolada em edredões brancos e macios de camisola branca e macia na sua cama arrumada agora a pouco e assistir a um filme, quem sabe, telenovela, quem sabe, um seriado, quem sabe, um dvd. O telefone tocou, estridente no quarto escuro, deixou tocar três vezes, suspirou: ai, como eu gosto de ti: assim, baixinho, pra ninguém ouvir. E atendeu. E era engano e ela atirou o telefone no meio das almofadas do sofá da sala e voltou para o quarto.
Viu a boca da mocinha do filme, tão bonita, tão rosada, tão bem definida, tão diferente da dela. Viu o pescoço do galã, tão bem definido, meu deus, tão másculo que deu vontade de entrar dentro da tela e morder, morder com força, morder também a boca da mocinha, morder e arrancar um pedaço e fazer doer e fazer sangrar e fazer jorrar sangue vermelho como o batom e beijar beijar beijar até borrar o batom e borrar o pescoço e inundar tudo em sangue tão vermelho, tão vermelho...
Suava embaixo dos edredões e sentia com a mão o suor pelo seu pescoço, pelo seu cabelo, sentindo o suor com a mão até o ponto em que os dois peitos se encontravam, coitados, tão pequenos, em nada se parecem com o da moça do filme, tão redondos e grandes e bonitos, e espalhava o seu suor e apertava o pouco que tinha pra apertar com as unhas mal pintadas e roídas, e apertava até doer. Lá fora trovejava, veio um vento tão forte da janela que arrepiou. Ela lembrou que era quinta-feira, dia de Iansã, e pensou em acender uma vela, e pensou em pedir por um corpo que a tocasse, e pensou em pedir por um corpo que penetrasse no seu, por um suor que se misturasse com o seu, por um gosto que se misturasse, por um cheiro que ficasse dias e dias no seu, e que pudesse cheirar depois e lamber e sentir sempre que sentisse saudade. E pensou em cozinhar um quarto de quilo de canjica amarela com bastante água, coar e por o líquido a ferver com folhas de pitangueira por mais dezesseis minutos; após, acrescentar dezesseis gotas de perfume, uma rosa branca, uma vermelha e uma amarela, todas despetaladas, tomar um banho do pescoço para baixo. E repetiu mentalmente, assim mesmo, automaticamente, como alguém lhe ensinou uma vez, e ela repetia sempre, mentalmente, assim mesmo, automaticamente, porque nunca fez e porque também nunca esqueceu, mas também porque sempre precisou.
Com as mãos de unhas mal pintas e roídas que se cravavam no seu corpo suado fazendo doer desceu até as coxas e cravou com força. Suspirou e esperou que tocasse o telefone mais uma vez e que dessa vez não fosse engano, mas não tocou. Tomou um gole de chá bem quente, e com cada vez mais calor, olhando a boca da moça que se mexia em direção ao pescoço do homem, que meu deus, que pescoço, tão másculo, tão definido, e cada vez suando mais, encharcada no seu próprio líquido, um líquido tão seu, que ela já sabia de cor, o gosto, o cheiro, a sensação, um líquido tão seu que por um segundo a fez pensar que era a única coisa que tinha e conhecia perfeitamente: e mesmo conhecendo perfeitamente queria conhecer cada vez mais: tudo agora é líquido e inunda: a mão molhada descendo e apertando cada vez mais as coxas e encontrando o sexo: o suspiro. A sensação de se conhecer cada vez mais era tão grande, meio canibal até, que ela queria tanto, se pudesse, morder a sua boca e arrancar um pedaço e fazer doer e fazer sangrar e fazer jorrar sangue vermelho como o batom e beijar beijar beijar até borrar o seu batom e borrar o seu pescoço e inundar tudo em sangue tão vermelho, tão vermelho que mancharia rosas brancas.
Gustavo Gaspar Almeida
Enviado por Gustavo Gaspar Almeida em 17/10/2007
Código do texto: T698872
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Sobre o autor
Gustavo Gaspar Almeida
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 28 anos
59 textos (1823 leituras)
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Gustavo Gaspar Almeida