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Helene

Na manhã assombrada, os raios tímidos e infantis do sol quebram a escuridão e trazem de volta as esperanças. Com o amanhecer, renascem os sonhos e as aspirações que o dia, hostil e vilipendioso, transformará em ilusões, da mesma maneira que um espelho engana uma pessoa.

Renato acordou cedo. Levantou-se da cama e sorriu. Era um dia muito especial. Por isso, o sol brilhava mais forte, e o ar cheirava a flores do campo e tinha gosto de água do poço. Assim como Helene. Helene. Desde que a conhecera, o nome o fascinara. Era suave. Sutil. Lembrava o sol na primavera.

Era primavera. Por isso, o sol brilhava mais forte. Renato tomou um café, um branho e espreguiçou-se ao sol, não necessariamente nesta ordem. Ainda era cedo. Mas logo ia sair para encontrar Helene. Não precisava ter pressa, ela, com certeza, o esperaria. Mas queria encontrá-la logo. Não podia ir muito cedo, pois talvez ela achasse incômodo que ele fosse vê-la tão cedo num domingo. Qual seria o horário certo para um encontro? Seria necessário ao homem criar horários para algo que não pode ser limitado pelo tempo? O amor precisa ser datado, preso nas sujas engrenagens de um relógio, devendo existir só num ou em outro momento?

Mas o sol brilhava forte (era primavera) e isso mostrava que o dia deveria ser muito especial. Saiu de casa, pegou seu carro e dirigiu em direção a Helene. Sabia que faltava algo, e sabia o que era. Não podia ir ver sua namorada sem levar algo para ela. Mas Helene era como água de poço. Levaria para ela uma flor, ainda molhada com o orvalho da manhã, com as lágrimascom as quais a natureza premia sua criação.
Parou num jardim. As flores brilhavam sob o sol forte da primavera. Não encontrou nenhuma molhada de orvalho. Mas Helene entenderia. Saberia que ele não era culpado. Ele entendia ela, afinal a conhecia a tempo. Tempo que não sabia mais dizer quanto era: Um mês, um ano, um século. Era sua namorada. E só.

Então, chegou até ela. Desceu do carro e cruzou o largo jardim, onde a grama estendia-se verde e bela, sob a luz do sol. A grama é bela, principalmente quando se estende até onde a vista alcança, como se fosse o mar, só que a água é verde e você pode caminhar sobre ela, flutuar sobre as águas. No meio do oceano estava Helene. Caminhou até a lápide fria e depositou a flor, sem orvalho, sobre ela. Era sua namorada (há muito tempo, com toda certeza),  o sol da primavera brilhava forte e fazia o dia belo, a grama parecia um mar verde e isso era o suficiente para eles.
Kleronomas
Enviado por Kleronomas em 18/10/2007
Reeditado em 22/10/2007
Código do texto: T699875

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Sobre o autor
Kleronomas
Osasco - São Paulo - Brasil, 43 anos
6 textos (402 leituras)
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