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O Caminho do Mar

O vento soprava incessantemente no canavial produzindo ondas longas, curtas e infinitas como o mar. O vai-e-vem eterno dos oceanos assemelhava-se ao infinito mar de folhagens que derramava sua beleza até onde a vista alcançava. Minha visão, privilegiada, da janela do ônibus, assistia a todo o espetáculo que a natureza proporcionava, gratuito e exuberante. Momentos que refrigera nosso ânimo e reacende nossa chama de esperança, e principalmente, pela multiplicidade de satisfação: a cada momento se revela um novo verde imperdível.
Reflexivo, me preocupo, fico até apreensivo, me perturba o fato de não poder mais ver igual momento novamente posto que o vento não repete seu caminho. A cada novo segundo escreve uma história nova. Sopra novo. Vai sempre em frente. Se, volta, se rodopia, se ziguezagueia, não olha sequer uma folha que caiu.  Produz sua invisível presença e vai. Ficamos com o que as retinas fotografaram e o sentimento efêmero de ter visto. No mesmo instante em que nada vai se repetir. Passa um milésimo de segundo, passou, é passado. Fica a visão cravada na carne da nossa memória. Revemos na lembrança, um arquivo que ativado passa como um filme que somos o protagonista e o expectador. Já não podemos nada mudar. Já está escrito com as tintas que só o tempo exercera qualquer desgaste. Não foi ensaio. É a cena final.
A natureza da vida é assim; não se repete.  Só espera nossa atitude naquele momento, sem segunda chance. A sorte, a desgraça, dificilmente baterá a mesma porta duas vezes. A primeira é fato, a segunda um longínquo talvez.
O vento sopra agora mais forte e no seu caminho demonstra o seu poder devastador, impõe ao canavial rastejar-se qual cobra pelo chão. Num turbo rigoroso que enquanto espanta as fogo-pagou ainda chocando seus ovos no ninho, produz a lembrança de Moisés abrindo a passagem na travessia do mar vermelho e com lá, logo se desfaz e as folhagens como a água do mar reassume seu lugar esmagando os soldados do Faraó e qualquer vestígio do que aconteceu. E já é outro momento, outro novo momento: a penugem cinza-azul das rolas em revoada refletem a luz o sol, daquele começo de tarde, no canavial, um verde crepuscular. Penso nisto e invoco um verde de sol nascente para adornar meus dias que vão começar nesta pequena, porém decisiva viagem que separa a cidade de Escada e Recife.

***
O ônibus rompe os morros, os serrotes, as pontes vencendo a estrada que rasga sinuosamente o verde do canavial. Por horas de viagem, ladeando, contornando, em retas e curvas, um mundão verde.
Não era a primeira vez que fazia o percurso. Já o fizera outras vezes, porém desta vez, a viagem era de mudança. Trajeto não meu particular, mas talvez de todo jovem do interior que migra para capital. Correndo atrás do sonho de uma vida melhor. Aonde os caminhos dão nas direções de nossas buscas e revelem melhor, os nossos anseios. Nunca entendi o porquê de ter que mudar sempre para conseguir. Até que eu mesmo tive que mudar. O que está ali mais próximo à disposição parece estreito, sem futuro, sem perspectiva. Sistema perverso que nos encaminha todos numa direção sem sequer nos proporcionar uma livre escolha. Não sei quem faz e pensa o sistema, se tem dono ou mesmo se existe o sistema, mas ele está ali, está presente, arrastando como uma correnteza para uma porta aberta do alçapão das eternas gaiolas: cuidar do gado, plantar, pequenos fabricos, feiras livres e o topo do sucesso balconista de comércio. È difícil atravessar o rio. Contentar-se no vislumbre da outra margem é um apreciar que a junventude e o jovem não permite, as condições sempre favorecem ao mergulho, o risco jamais desanima. Bem natural não desanimei; o sentimento cultivado era morrer arrastado pela correnteza a desistir de tentar; mudando de cidade; me jogo em mergulho e na primeira braçada.
Manuel Oliveira
Enviado por Manuel Oliveira em 18/10/2007
Código do texto: T700279
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Sobre o autor
Manuel Oliveira
Olinda - Pernambuco - Brasil, 62 anos
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Manuel Oliveira