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O Presente

                                                                                   Janjão
- Eduardo? Este é seu verdadeiro nome?

- Sim? Arara vermelha é um codinome que a organização me deu

- Mas porque arara?

- Sou de uma cidade que tem este nome. A cor eu não sei, porque, talvez pelo fato de ser ruivo. E você, qual a sua graça, he,he,. Afinal você é uma graça.

- Luzia. Mesmo nome de minha avó. Sabe não sou bonita, como dizes.

- Como não? Desde que cheguei a organização e me apresentaram a você, notei sua beleza.

- Obrigada

- Tens namorado, lua branca?

- Hum, não posso chamar aquele relacionamento de namoro. Foram só flertes e alguns beijos. E você tem?

- Não, apenas algumas paqueras

- Sabe que dia é amanhã?

- Não

- É natal, dia de festas com a família e de trocar presentes.

- É minha família agora, são os companheiros de luta. Não vejo a minha há uns 6meses.

- A minha, a última vez foi no aniversário de minha avó. Há duas semanas e rapidinho. Eles não me viram. Olhei pela janela da sala. Era perigoso que me vissem.

- Você tem saudades deles? Gostaria de passar o natal em sua casa e ganhar presentes?

- Sim. Mas não vai dar. A repressão espalhou nossos rostos por cada canto da cidade.

- O seu. O meu ainda não.

- Que quer dizer com isto?

- Gostaria de ganhar presentes? Podemos realizar nossa ceia, aqui neste aparelho, eu e você.

- É arriscado. Podemos fazer barulho e algum vizinho, desconfiar e chamar a policia. Todos pensam que não mora ninguém nesta casa.

- Tomaremos cuidado. Luzia, o que gostaria que um namorado lhe desse de presente neste natal?

- Não sei. Talvez um disco?

- Um LP?

- Sim. De uma jovem cantora Bahiana. O nome dela é Gal costa.

- Não conheço.

- Ela canta uma canção, linda, muita linda, de nome Baby. È, é isto que gostaria de ganhar. Mas esquece Edu. È arriscado, sair da casa e dar uma festa. Esquece. Quando a Revolução acabar, prometo que faremos nossa ceia. Eu e você.

Eram três da tarde, do dia 24 de dezembro de 1969. Arara Vermelha ou Eduardo Militante da Ala Vermelha, espera sua companheira de clandestinidade dormir e sai.
Os dois tinham participado do seqüestro do embaixador alemão. Procurados pelo regime, tiveram que se esconder em um subúrbio no Rio de Janeiro, em um aparelho alugado pela organização.

Mas Eduardo estava predestinado a realizar o sonho da companheira. Foi até as lojas do centro, comprou champanhe, panetone e até um frango assado, para substituir o peru, caríssimo.

Mas o principal, era o presente da bela Luzia. Edu estava se apaixonando, não sabia ainda, mas estava, descobre isto mais tarde na cadeia. Comprou o Disco de Gal Costa. Pediu para embrulhar em papel especial para presente e adicionou um cartão com um versinho: “ Beleza és tu que me faz perder a noção de tempo e espaço, quando estou junto a ti”.

Isto ele ia se declarar. Fez as compras e saiu apressado para o aparelho. Dobrou a esquina e percebeu a movimentação a frente do imóvel que estava escondido. Era os carros da Policia Política. “Meu Deus. Descobriram o esconderijo” “Luzia, o que fizeram com ela?”.

Viu a repressão retirar da casa um corpo. Deu meia volta. Pegou um lotação na esquina debaixo do aparelho.

Dias depois, viu estampado nos jornais, a foto de Lua Branca. Morta. Versão da Ditadura. Terrorista, tentou resistir a prisão e atirou em um policial. Os Caras em legitima defesa, mataram a bela morena.

O disco de Gal, Eduardo deixou no meio fio na esquina do subúrbio.
dialetico
Enviado por dialetico em 22/10/2007
Código do texto: T705313
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Sobre o autor
dialetico
Limeira - São Paulo - Brasil, 55 anos
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