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Furar Petróleo

                                                                                  JANJÃO
Era véspera de natal. Natalino, Paulo, Luís, Luciano e Eu, dividíamos a mesma cela nas dependências da OBAN (Operação Bandeirantes), órgão de repressão, comandado pelas Forças Armadas.

Ainda estávamos, apesar de fracos e repletos de hematomas, eufóricos, com a libertação de 15 companheiros, condição aceita pela ditadura, com o intuito de resgatar o Embaixador Americano, seqüestrado por organizações de esquerda.

Não tínhamos noção de que horas eram. O dia da semana, horário e a data, um dos carcereiros, um dos poucos generosos, nos informava toda a manhã ao trazer o café ou quando um de nós saia das sessões de tortura, que as vezes levavam dias.

A alegria era imensa pelo sucesso da operação "Revolucionária", pois nossos principais quadros estavam na lista dos libertados.

Os militares naquele dia, parece que estavam de luto ou de férias ou se preparando para a ceia de Natal. Enfim, teríamos um Natal, sem pancadarias.

Exceto alguns carcereiros, os demais Josés, (Eles se chamavam assim), não eram vistos ou encontrados. Estávamos próximos das 5 da tarde, quando um dos Josés, um cara alto, magro e com diversas cicatrizes no rosto, apareceu e com um sorriso maroto nos lábios, chamou-me e me disse:

- Antônio, vulgo lampião, viadão de Diadema, venha até aqui. Levantei do chão e fui até as grades da cela. Ele prosseguiu:

- Reuna seus comparsas. Hoje vocês todos vão exercitar os músculos. Chega de moleza. Vocês estão pensando o que, que isto aqui é casa de veraneio? - disse e foi abrindo a cela.

Estávamos muito cansados e ainda com muitas dores, fruto das sessões de tortura dos últimos dias. Caminhamos pelo corredor da prisão em zigue zague, em virtude das condições físicas. Nem reparamos que junto a nós, estavam uns dez Josés. No final do corredor, subimos alguns degraus, que nos levaram a um pátio enorme, sem cobertura. Lá estava nos esperando o Josè comandante. Um loiro de uns 50 anos. Ao chegar nos colocaram em fila indiana. O loiro falou:

- Suas bichas. Parece que todos vocês estão felizes, pela soltura dos 15 terroristas. (Silêncio). Ele continuou: - Não pensem que isto nos abalou. Pelo contrario, perdemos uma batalha, mas venceremos esta guerra. No entanto, somos generosos e os trouxemos aqui para expressar esta generosidade. Hoje é véspera do nascimento do filho de DEUS. Sei que vocês Comunistas, não acreditam em DEUS. Todos Ateus e vagabundos. Mas como fiéis e tementes ao todo poderoso, resolvemos, dar a vocês a oportunidade de descobrir petróleo neste chão. Sim, aqui há muito. Se conseguirem encontrar, estarão livres.

É claro que não acreditamos nesta bobagem. Era a vingança. O José alto e magro, explicou como seria, aos berros é claro: "Todos em pé, sem flexibilizar os joelhos, vergar-se para frente, tocar com a ponta do indicador da mão direita o chão e sem tira-lo daquela posição, girar em torno do dedo e no ritmo imposto pelo Josè Comandante".

Ocorre que estávamos fragilizados e sequer conseguíamos dar uma volta, logo caindo ao chão. Ao cair os Josés, nos davam o castigo por não achar petróleo. Pontapés, pauladas e o uso do cassetete.

Esta "brincadeira", durou até a meia noite, quando os Josés, abriram garrafas de Champanhe e comemoraram o nascimento de Cristo.

Nós fomos 15 minutos depois, atirados em nossa cela, humilhados e ensangüentados. Mesmo assim, apesar de muitos não acreditar juntamos força e saudamos do nosso jeito a vinda do Salvador.
dialetico
Enviado por dialetico em 23/10/2007
Código do texto: T705925
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Sobre o autor
dialetico
Limeira - São Paulo - Brasil, 55 anos
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