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SEU RICARDO





-    Vou fazer um conto.

- Um conto! Retrucou uma voz de uma parede vizinha.

- É, um conto, respondi.

- Do que vai falar? – perguntou-me.

- Das repetições que ouço todas as vezes que penso em voz alta.

Nada mais ouvi. Acho que é alguém que não quer se identificar. Eu ainda provoquei por muitas vezes:

- Vou fazer um conto!

- ?

- Vou fazer um conto!

- ?
                                               _*_

Comecei, por fim, a redigir o meu texto enigmático sobre mim e aquela voz:
Um dia me deparei com alguma coisa que não compreendia, se bem me lembro, era uma dessas intricadas coisas que só aparecem para nos meter medo. A casa em que tudo acontecia era de um antigo dono que se punha a contar histórias fantásticas de Bocage. Nem mesmo eu sabia quem era esse senhor, um tal de Manuel.

A casa era antiga. Havia uma cristaleira na sala e uma velha cortina encobrindo a luz dos últimos raios do entardecer. Da generosa varanda lateral se via a estrada arenosa que dava no alpendre. O velho carro do antigo dono ainda servia de ninho às galinhas chocadeiras. Eu chegara ali fugido de uma cidade muito violenta. Alguém confidenciou-me que não havia ninguém nessa casa, posto que era assombrada e que se eu quisesse passar alguns dias ali, não seria importunado.

_*_

Fui para o quarto de onde parecia surgir aqueles murmúrios misteriosos. Nada pude ver no turvo que já se fazia.

Resolvi repetir o insulto:

- Vou fazer um conto!!!

- ?

Se eu contasse tudo o que sabia, talvez ... Mas deixemos essa possibilidade para depois, afinal, o dono da casa já havia morrido, e a voz era feminina.

O meu quarto de dormir era bem protegido pelas trancas e madeira de lei. Dormia a noite inteira sem a menor preocupação.
O dia amanheceu. Dali da cama eu parecia ouvir aquela mesma voz:
- Olá!
Calei-me. Assim talvez eu poderia identificar de onde vinham tais articulações. Nada mais ouvi.
Deve ser a filha da dona Mercedes que me chama para beijos...Vou à casa dela pedir açúcar, talvez dará algum sinal de sua intenção:
Dona Mercedes já havia feito o seu café quando me viu chegar com o pote de açúcar:
- Não vai dizer que acabou o seu açúcar outra vez, seu Ricardo?!  Um homem só como o senhor deve pedir que alguém o ajude nas compras para que não falte as coisas antes do final do mês.
- É!... Retruquei olhando-a dentro dos olhos num olhar demorado.  Não devo estar sendo observado, pensei, olhando para dentro da casa. Empalideci-me ao ver os olhos do seu marido rígidos detrás da mesa em que ceava.
- - Bom dia seu Antônio! Cumprimentei-o tentando disfarçar o feito.
- - Bom dia!! Respondeu-me  áspero se levantando e apanhando uma faca que estava em cima do tanque para fatiar o pão.
Rute apareceu finalmente se desculpando pelo desarranjo matinal:
- E o conto, seu Ricardo, fê-lo como insinuara?
- Estou o escrevendo, mas não encontro uma maneira de engendrar o conflito para que o clímax aconteça.
- Há uma semana que me aalou que ia fazer esse conto, lembro-me ainda até o local: Foi lá perto do bar no baile do dia 12,
- Não foi ontem que ouvira tal promessa!?
- Não, Seu Ricardo. Ontem eu nem vi o senhor!
- É!?..., É!...
Nesse momento dona Mercedes entregou-me o pote com um pouco de açúcar e voltei para minha casa. De quem poderia ser então aquela voz? Eu fiz outros juízos: Mas em um lugar daquele!...  Pensei em gravar a voz misteriosa para depois ter algo para estudar ao ouvi-la com mais cuidado. Não havia gravador ali, haveria de comprá-lo ainda.
Resolvi, então, arrumar a casa um pouco para ver se aquele ar de abandono retirava alguma má impressão. Varro aqui, arrasto cama ali e, de repente, vi um aparelho do tipo rádio de comunicação  com seu botão preso por uma borrachinha. Alguém está me espionando, pensei, e a voz que ouço deve ser desse aparelho... Pela distância, deve ser da casa do seu Antônio, não há como o sinal dessa coisa vir de outros vizinhos! Alcance máximo: 600 metros. Li na plaquinha afixada no rádio.
Anoiteceu mais uma vez e seu Antônio desconfiou daquele olhar meu e de sua mulher e quis saber onde ela ficava todas as noites em que desaparecia. Pôs-se a seguí-la. Deu-se com ela no paiol com aquele aparelho tentando ouvir o que Seu Ricardo andava fazendo naquela casa assombrada. Achava muito estranho um homem com aquele tipo morar numa casa abandonada sem ter qualquer interesse...
- O que ouve nessa porqueira? Perguntou seu marido irritado.
- Quero saber se aquele tal de Ricardo é o herdeiro do seu Manuel. Se não for, o sítio dele pode ser nosso. Talvez, falou, se metesse medo nele poderia ser que fosse embora e nós poderíamos tomar conta do sítio como se fosse nossa propriedade, afinal, nós é que cuidamos do Seu Manuel na sua penúria e morte.
- Eh!... E o que ouviu?
- Pouca coisa. Não é como seu Manuel que todas as noites contava uma bela história; Seu Ricardo é quase mudo, mas quando ouço ele dizer algo, tento respondê-lo para assustá-lo e o mandar embora.
- Bem, leitores, eu vou acabar o meu conto dizendo que fiquei com o sítio do Seu Manuel.
Dona Mercedes e Seu Antônio conversavam, e o Ricardo ouvia tudo naquele rádio de comunicação que a vizinha plantara na casa de seu Manuel para que este chamasse socorro pelo rádio em caso de doença. Os dois rádios foram preparados para ficarem em permanente contato, já que um doente pode não conseguir apertar o botão para pedir socorro. Seu Manuel contava sempre belas histórias com o intuito de que alguém ficasse o ouvindo, Com isso, Ricardo, eu, fiquei sabendo que o sítio não tinha dono. Falei então que eu é que era o herdeiro do tal seu Manuel, e vivo desde então aqui muito feliz.
Geraldo Altoé
Geraldo Altoé
Enviado por Geraldo Altoé em 23/10/2007
Reeditado em 23/10/2007
Código do texto: T706302
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Sobre o autor
Geraldo Altoé
Serra - Espírito Santo - Brasil, 61 anos
811 textos (18517 leituras)
1 áudios (15 audições)
2 e-livros (188 leituras)
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Geraldo Altoé

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