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O Cartaz

                                                                                   JANJÃO
A mãe chamava os meninos, para irem rápido, pois estavam atrasados. Tinham ainda que passar no Bar do Pai, abri-lo e depois irem para escola.

Joãozinho o mais velho dos irmãos, tinha naquele ano de 1970, 8 anos. Cursava a 1º série, do antigo primário. Os demais irmãos, ainda não tinham idade escolar.
Saíram as pressas, com a mãe a frente e os outros atrás brincando na rua, com pedras, paus e objetos jogados no asfalto. Joãozinho adorava futebol, discutia com um dos irmãos, sua paixão pelo Palmeiras, time de coração da família toda.

O bar comprado na primavera passada, já não era tão florido como outrora, forçando seu João o chefe da família a retornar a uma fábrica metalúrgica, ocupando um posto na ferramentaria. O dia terminava no chão da empresa e seu João, substituía a esposa, que o dia todo ficava no estabelecimento comercial.

Dois empregos para sustentar 3 filhos e um que já estava encaminhado. Dona Rita no ano do Tri Campeonato no México, estava grávida do 4 filho.

Entraram a rua Paraíba, onde se localizava o Bar da família de Joãozinho. Mal esperavam que ao chegar no recinto, teriam uma surpresa, que presa ficaria na memória do filho mais velho.

Ninguém nesta família, entendia o que realmente acontecia no País de Pelé, Gérson, Tostão e Rivelino. Mal sabiam que enquanto toda a nação, cantava “Pra frente Brasil, salve a seleção”, nos porões de instituições como DOPS (Departamento de ordem, política e social), OBAM (Operação Bandeirantes) e outros departamentos militares, Homens e Mulheres, eram brutalmente torturados e assassinados.

O mais velho, corre a frente de todos e se defronta, com um enorme cartaz, colado nas portas de madeira do falido bar. Era uma cartaz repleto de fotografias, estilo 3x4.

Joãozinho fixava seu olhar, para uma mulher, jovem, talvez com 20 anos e até menos. O nome nunca soube, mas guardou a fisionomia .

Seu rosto marcado, como se tapas e socos levasse por horas e dias. Seu olhar era triste, de completo abandono, não via Joãozinho na moça, sinais de medo, mas de desilusão.

Nosso amiguinho, claro só foi ter esta compreensão na fase mais adulta de sua vida.

O restante da família chega e também presencia o cartaz, que alem das fotos, continha um titulo forte e aterrorizador: “Atenção: Estas pessoas são terroristas. Cuidado, podem fazer mal a sua família. Denuncia-os”.

O cartaz foi colocado no bar, por um PM (Policial Militar), vizinho ao estabelecimento.

Na memória de Joãozinho, ficou para sempre a face machucada, da jovem e sua desilusão, como se tudo estivesse terminado.
dialetico
Enviado por dialetico em 26/10/2007
Código do texto: T710546
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Sobre o autor
dialetico
Limeira - São Paulo - Brasil, 55 anos
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