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A BRINCADEIRA

Havia essa brincadeira na minha infância. Nos anos 80. O nome era “vivo-morto”. Eu lembro dela, pois eu nunca consegui ganhar.
Brincava eu, Junior, meu primo Gustavo e Rayssa, minha vizinha. Naquela época eu era muito novo para entender o que é gostar de uma menina, mas de alguma forma, eu sentia algo por ela. Eu tinha lá, meus 10 ou 11 anos, pés descalço, short azul listrado, mãos sujas e o corpo de menino, franzino e pequeno. E ela lá, loira, sem um dente na boca (pois perderá brincando de futebol com a gente). Agora, 20 anos após o ocorrido, não consigo lembrar com tanta verossimilhança quanto antes, seu rosto em minha memória vai definhando a um ponto onde eu crio para poder manter-la viva dentro de mim. Mas de uma coisa eu me lembro, da tosse.
Estávamos naquele dia, brincando na rua de minha casa. Meu primo e Andrade que moravam mais longe vieram para brincar. Era domingo, provavelmente umas 16h00 da tarde. O movimento era quase deserto na rua. O sol batia sobre nossa cabeça como se aquele dia fosse verão, embora estivéssemos ainda na primavera. Começamos com a brincadeira mais simples e divertida que tínhamos; pique-pega.
“Ta comigo!” gritava Junior, o mais alto da turma. Ele corria atrás de todo mundo. Que eu me lembre, ele nunca conseguiu me pegar, ninguém conseguia. Eu tinha pés de anjo, corria como uma puma, embora naquela época saber disso era quase nada. Ele já havia pegado todo mundo, só eu que não, apenas eu ganhava esse jogo. Depois de cansados, sentávamos embaixo de uma arvore. E Andrade, em sua viajem com seu pai para fora da cidade, trouxe uma brincadeira que antes nunca havíamos brincado, chamava-se “verdade-consequência”.
Era simples, na verdade. A gente sentava em circulo, como uma ciranda, e colocávamos uma sandália no meio, a girávamos, e a sandália escolhia duas pessoas; uma que perguntaria e a outra que responderia. A que perguntaria deveria começar com “verdade ou conseqüência” e a que responderia iria escolher. Se escolhesse “verdade”, teria que contar a verdade sobre a perguntar feita. Se fosse “conseqüência”, ela sofreria uma conseqüência com isso.
Meus amigos me puxaram para um canto antes da brincadeira começar. “escute Maycon, você gosta da Rayssa né? Então a gente gira a sandália e na hora que cair pra você perguntar a ela, pergunte a ela se ela gosta de você?” tímido eu meio que balancei com a cabeça um sinal de sim. Não lembro bem agora, se eu realmente perguntei se ela gostava de mim, lembro que deve ter sido algo parecido, pois ela estava vermelha como nunca estivera antes e tossia ainda mais forte.
Lembro que perguntei sem olhar para ela, de cabeça baixa, vergonhoso. Lembro que ela disse sim, lembro que ela tossia, lembro das mãos dos meus amigos sobre minha cabeça, brincando comigo. Lembro que eles saíram do local e eu fiquei sozinho com ela. Lembro também, que eu do lado dela, era a coisa mais estranha da minha vida, sentia um medo desesperador e também uma atração irresistível, segurei a mão dela, mão suada, quente, febril. Ela tossia.
Eu não a beijei ali, nem ela me beijou. Marcamos atrás da Igreja ao anoitecer, antes disso a gente brincaria de vivo ou morto, pois era a única brincadeira que ela sabia que eu não conseguia ganhar.
E eu era o mestre, era eu quem dizia. “vivo” e a pessoa ficava de pé. “morto” e a pessoa abaixava. Era eu o mestre.
“vivo” e todo mundo estava de pé. “morto” todo mundo estava abaixado. Eu consegui tirar quase todo mundo. Faltava derrubar meu primo e a Rayssa. Eu odiava perder. Não conseguia perder. Ainda que eu sentisse o que eu sentisse por Rayssa, não queria deixá-la ganhar. Eu tinha que ganhar.
“Morto” e estavam os dois abaixados. Rayssa por outro lado, tossiu um pouco mais forte do que o normal, e caiu no chão. Pensei, “agora vou ganhar, ela não tem como levantar a tempo” e gritei “vivo”. Apenas meu primo se levantou. Rayssa estava lá deitada se debatendo e eu pulando de alegria. “Você perdeu... você perdeu!” dizia eu. Quando abrir os olhos, meus amigos estavam em volta da Rayssa, tentando levanta-la. Ela não se mexia. Olhando ela ali, deitada, inquieta eu sabia naquela hora, que realmente eu perdi.
Os anos passam muito rápidos e lentos em alguns momentos. Em tal momento às vezes o tempo pára e você assiste tudo como se fosse uma câmara lenta. O som é cortado, calor e frio é anulado, e apenas sua visão e o cenário. Às vezes quando isso ocorre, não conseguimos pensar “poxa! tenho que fazer algo”, não. A gente não pensa em nada. A gente apenas observa e torce. Torce para que tudo volte ao normal, para que haja um beijo ao anoitecer, para que ela levante e diga “Há há! Eu e enganei”. A gente espera, observa e torce.
Eu não entendo tanto sobre morte quanto sobre ser criança, não entendo também o tempo e sua relatividade. Das coisas que eu entendo consistem em pequenas escolhas, em determinações e sobre jogos. Entendo muito sobre perder. E perder é um a forma de ganhar, ganhar tempo para crescer, ganhar tempo para amadurecer, ganhar experiência para falar que perder às vezes também é ganhar. E hoje, 20 anos depois do ocorrido, sei que ela na verdade me fez perder. Perder um beijo, um tempo, uma experiência que foram outros ganhos com outras brincadeiras.



Maycon Batestin
Enviado por Maycon Batestin em 30/10/2007
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Sobre o autor
Maycon Batestin
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
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