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O sapo que entrou pelo cano

O Sapo que entrou pelo cano

 

Se você já ouviu falar em amor impossível, convido-o a ler esta história. Vale a pena.

Conta-se que há muito tempo atrás, num riacho de uma grande fazenda, um menino, filho da empregada, foi pegar alguns peixinhos para colocar num aquário. A mãe deixou toda a responsabilidade para o filho, de alimentar e trocar a água. O menino os alimentava mas esqueceu-se de reciclar a água, de modo que, em menos de duas semanas, começaram a morrer, deixando um mau cheiro no recipiente. A mãe, jogou toda a água e seus peixinhos na pia, alertando o filho para que nunca mais tivesse aquário nenhum.

O que ninguém sabia é que no meio daqueles peixes existia um girino muito resistente às condições adversas da vida. Ficara ele ali, alojado no cano, logo abaixo da pia, se alimentando dos restos de comida que por ali ficavam depositados.

A senhora tinha um hábito de cantarolar enquanto lavava a louça.  Era romântica, vivia alegre e falando de amor, influência das telenovelas que assistia. Isto criou uma peculiar personalidade no sapo: o gosto pela música. Um dia a pia entupiu e, como já estava velha, resolveram trocá-la. O sapo, num momento oportuno, saiu às escondidas e fugiu daquele lugar, indo parar no rio da fazenda.

Ali resolveu ficar.

Fascinou-se com o número de bichos e plantas que encontrou, onde o cheiro de mato e terra estava impregnado. Viveu tanto tempo dentro de um cano onde a única alimentação era resto de comida, que o novo ambiente lhe parecia simplesmente  maravilhoso. Era, agora, adorador de tudo o que estava à sua volta: do som dos grilos, dos pássaros, dos cardumes, das flores e ... das borboletas.

Um dia uma linda borboleta passou por ali e notou que haviam muitas flores espalhadas ao redor do riacho. Tinha ela asas azuis da cor do céu, com pequeninas e salpicadas manchas amareladas. As cores eram tão vivazes, tão lúcidas que não havia como passar desapercebida. Isto encantou ainda mais o sapo: nunca vira nada voar tão elegantemente.

E então a borboleta passou a aparecer todas as tardes, pousando nas margaridas que davam um tom colorido às bordas do rio. E toda vez que ela aparecia, o sapo saía da água e pulava numa pedra para que pudesse ganhar uma visão ampla e vistosa.

E assim se passaram várias semanas até que a satisfação em admirá-la a certa distância já não podia contentá-lo – estava impaciente – seus sentimentos pareciam querer quebrar as regras da natureza: estava se apaixonando pelo ser errado. Sua paixão reprimida o fazia a cada anoitecer, subir na pedra e ficar olhando para o céu, admirando a lua e as estrelas, emitindo sons que julgava serem uma canção para sua amada.

Um dia, na pedra, ele viu seu reflexo na água e percebeu o quanto era diferente do maravilhoso corpo esguio da borboleta. Olhou para si e reconheceu que sua pele era áspera e grosseira; sua boca muito grande e suas patas asquerosas. Ele se alimentava de moscas e sua bela, do néctar das flores. Ele vivia nos brejos, na água, na lama e ela voando de jardim em jardim, sendo admirada por todos. Percebeu então que aquele era um amor impossível. Mas acreditava que, se existisse uma chance, uma única e pequenina chance, iria tentar mostrar seu amor. Considerou todas as adversidades que poderiam ocorrer no relacionamento entre os dois e concluiu que o maior obstáculo era o de NÃO CONSEGUIR VOAR. Sua aparência poderia não ser lá das melhores mas não considerava isso como o atrapalho maior. Voar era, sem dúvida, o maior obstáculo. Como iria acompanhá-la por entre as plantas e flores? Como passear por entre os jardins se só podia pular entre as pedras e paus no meio do brejo? Algo precisava ser feito para contornar este empecilho.

Decidiu ele, então, fabricar um par de asas. Iria começar naquele mesmo instante, sem demora, e quando estivessem prontas e lhe possibilitassem voar, revelaria todo seu amor à borboleta que tanto lhe encantara.

Duas semanas de árduo trabalho se passaram na luta pela fabricação das asas e então, finalmente este objetivo foi alcançado: elas haviam ficado prontas. O sapo se encontrava verdadeiramente feliz, muito desgastado pelo seu grande esforço, é verdade, contudo sentia-se melhor, mais esperançoso, cheio de vida, com uma felicidade radiante, transbordando pelos olhos.

E então, quando surgisse o momento certo, iria aparecer de surpresa para ela, batendo as asas, com um sorriso escancarado. Certamente iria agradar

E num belo entardecer ela estava lá, exuberante, saboreando o néctar de um jasmim. Ele pensou: esse é o momento. Então, deu um grande salto em direção à planta para ganhar impulso e manter-se no ar, batendo as asas. Mas seu corpo pesado o fez perder altitude e ele caiu em cima da flor em que a borboleta se alimentava. Em seqüência, arrastou-se pelo ramo e suas asas se desprenderam enquanto caía. A borboleta, de susto, ficou saltitando no ar, desesperada, e disse:

 —  Um morcego! Socorro! Um morcego bem grande, gordo e feio!

Ela, nervosa, voando descontrolada, caiu na água do rio. Suas asas, molhadas, se lhe davam sustentação no ar, na água lhe extraíam as forças. Ela se debatia como podia. O sapo, chocado com a má impressão que dera, não sabia se chorava ou se a socorria – decidiu ajudá-la. Atônito, pulou na água – isso ele sabia fazer muito bem – e, com um mergulho sensacional, chegou até a borboleta, para depois, retirá-la da água. Ela, ainda meio inconsciente, abriu os olhos e viu o sapo e disse:

— Que bom que me salvou daquele terrível Morcego. Ainda bem que você é um sapo.

Ele então percebeu que, por mais feio que sejamos, sempre existirá alguém mais feio do que nós. Também reconheceu que não havia chances para conquistá-la nem que pudesse voar um dia, pois admitiu que quanto mais há diferenças, mais se torna difícil um relacionamento a dois. Ele sonhou várias vezes com ela mas nessas alturas sabia que os sonhos nem sempre viram realidade. Essa era sua nova consciência, pelo menos até conhecer sua prima sardinha se “requebrando” no rio...

 


 Por Altair J. Bordoni - elaborada em set/1999 . Publicado pela Febraban em concurso de contos e poesias realizado em 1999.
Altair Bordoni
Enviado por Altair Bordoni em 15/11/2005
Código do texto: T71807

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Sobre o autor
Altair Bordoni
São Paulo - São Paulo - Brasil
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