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O Antídoto

O antídoto

Existia na Grande Província Emergente do Cone Sul, um jovem que vivia trancafiado no porão de uma mansão situada nos arredores da cidade de Garoa Cinzenta, uma rica e grande metrópole, embora com grandes índices de pobreza na periferia.

O rapaz se chamava Arthur – era filho único – e agora estava com dezessete anos de idade. Raramente saía de casa. Ninguém sabia a verdadeira razão para tal abstinência ao mundo civilizado. Uns diziam que seus pais eram severos e proibitivos demais e não lhe davam liberdade; outros afirmavam que aquilo era um problema com algum amor não correspondido, mas a maioria acreditava que Arthur era um louco e que por isso, seus pais, não querendo colocá-lo num manicômio, evitavam com que ele aparecesse em público.

A verdadeira razão foge da nossa compreensão e por isso torna-se fascinante. Arthur parecia ser um gênio. Dizem que todo gênio tem um pouco de louco. Julgue você mesmo o rapaz.

Ele relutava a sair dali para não ver as injustiças que aconteciam na sociedade. Perturbava-o a realidade nua e crua da sociedade em que vivia: as pessoas se preocupam incessantemente em acumular riquezas, chegando, por isso, a criar desavenças, rixas e até desentendimentos fatais. Acreditava que o mundo era movido basicamente por uma grande força: o ódio. Através dele uma série de males se proliferavam. O homem está sempre pensando em algum mal para seu próximo. Ira-se com o progresso do vizinho; revolta-se por não ter dinheiro, rouba, mata. O ódio está em toda parte: nos pontos de venda de drogas, na nota tirada abaixo da média; no concorrente que ganhou uma vaga na empresa; o ódio está no coração de cada um, sem hora e lugar para explodir.

Mas há também a existência de outra grande força, o amor. O amor é potencialmente muito maior que qualquer outro sentimento mas poucos conseguem cultivá-lo. Afirmava ele que todos têm seu lado bom e seu lado ruim infiltrados no seu subconsciente, e para ver seus efeitos se multiplicarem, bastava apenas explorá-lo. Dizia que ninguém nasce com tendência a ser bom ou ruim, mas que o sentimento de individualismo, a inveja, e outros males se sobrepõem à solidariedade. O ódio é alimentado muito mais do que o amor e por isso, as injustiças acabam prevalecendo.

Não, ele não queria ser protagonista e nem vítima do mundo civilizado. Ele sabia que não poderia mudar o mundo, então, mudava a ser próprio modo, o seu relacionamento com o mundo. Era uma forma de protestar. Um protesto silencioso.

Tal profundo silêncio verificado em vários anos de sua vida foi finalmente quebrado. Quebrado por algo que aconteceu que justificaria todas as horas tomadas naquele local insólito e que passa dos limites de nossa compreensão.

Havia o rapaz criado um antídoto que modificaria a essência dos males da vida: havia ele criado um composto químico para disseminar o amor. Acreditava que havia descoberto, através de inúmeras pesquisas e leituras, um meio para que o mundo se tornasse mais humano. E para tanto, possuía no seu “laboratório” vários frascos com o antídoto, bastando, para isso, despejar no reservatório de água da cidade todo líquido que havia inventado.

Então, em uma madrugada de sexta-feira ele saiu do recinto levando consigo todos os frascos que possuía – doze ao total – e foi em direção ao reservatório do município. Neste dia, porém, havia muito agito no bairro – a juventude estava ainda votando das boates e bares. Resolveu, então, sentar-se próximo à caixa d’água e esperar o momento certo para o feito.

Enquanto aguardava, passou uma moça que voltava de uma festa de casamento. O namorado havia discutido com ela e acabara voltando sozinha, aparentemente triste. O sapato de salto alto novo parecia lhe judiar – estava andando com muita dificuldade. De repente, tropeçou e caiu ao chão. Arthur imediatamente foi ajudá-la. Ela o agradeceu pelo socorro e ambos iniciaram uma amizade.

Já se fazia tarde e a garota precisou seguir seu caminho. Arthur não querendo esperar mais, cautelosamente chegou à caixa d’água, subiu cuidadosamente e despejou todo o líquido dos frascos.

No dia seguinte, se encontrava muito esperançoso. A moça que lhe encantara ligou e ambos puderam se encontrar novamente. Uma alegria irradiante se fazia nos seus olhos – estava se apaixonando e mais ainda: o antídoto funcionara. Ele passou a ver pessoas se divertindo nos parques; a mãe cuidando carinhosamente da criança, o abraço do amigo há muito tempo não visto; passou a  não ver mais os espinhos das rosas; percebeu que o choro nem sempre vem acompanhado de tristeza. Estava feliz.

Ele não desceu mais ao porão – não precisava mais de elaborar antídoto algum. Depois de três meses de namoro, ficaram noivos e, após um ano, casaram-se. A casa foi posta à venda e todos os seus antigos pertences foram para o lixo. Um dia, passando em frente à sua antiga residência, notou um frasco caído no chão – era o que ele chamava de “catalisador da fórmula”, fundamental para que o experimento desse certo. Ele simplesmente havia esquecido de usá-lo junto com os outros inúmeros itens. Então percebera que a fórmula do amor estava em seu coração e não nos frascos. Bastava ver a vida com otimismo e acreditar que existem coisas maravilhosas no meio de tantas adversidades na vida.

Nós colhemos o que plantamos. Se plantarmos ódio, colhemos desavenças, tristezas, angústias e lamentações. Se  cultivarmos o amor, a vida se torna mais dócil e mais humana.

   

   

Por Altair J. Bordoni - elaborada em set/1999
Altair Bordoni
Enviado por Altair Bordoni em 15/11/2005
Código do texto: T71809

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Sobre o autor
Altair Bordoni
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Altair Bordoni