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Os pés que não caminham, criam raízes

Ernesto era um homem que estava namorando havia 6 anos com a bela Letícia. Ela já havia falado inúmeras vezes das possibilidades de ficarem noivos e, quem sabe, se casarem, mas Ernesto sempre se esquivava do assunto.

O Rapaz trabalhava numa agência bancária havia mais de oito anos. E neste período, por conveniência, sempre executou a função de escriturário. Não que não tivessem aparecido outras oportunidades na empresa. Elas apareceram sim, mas o rapaz não tinha o hábito de participar dos concursos internos e quando lhe era oferecida outra função de maior responsabilidade, não se mostrava interessado.

Comportamento semelhante acontecia com seu namoro. Uma vez por mês ia ao cinema. Na maioria da vezes ficava namorando em casa.

E assim foram-se oito anos: mesmo emprego, mesmo cinema, mesma namorada. O escriturário continuou a ser escriturário, o namoro a ser namoro.

Em uma tarde de domingo. Enquanto tomava banho para ir à casa de sua namorada, percebeu algo diferente no seu pé esquerdo. Uma saliência no calcanhar lembrava uma pequena raiz de uma cebola.

Isto não o importunou, mas passando-se duas semanas, a raiz havia aumentado. Não obstante, aquela pequena “rama” estava agora acompanhada de algumas outras, tendo ele, certo desconforto ao caminhar.

Dois meses se passaram e os dois pés de Ernesto estavam impregnados daquelas estranhas raízes. Ele procurava não deixar as ramas à mostra - não criara coragem de comentar com ninguém, já que acreditava ser um caso único e, provavelmente, muitos iriam rir às suas custas. Em casa dormia com as meiões que usava quando jogava futebol.

Uma decisão deveria ser tomada: ou cortava aquelas estranhas raízes ou procuraria um médico. Precisava aliviar-se do incômodo, da caminhada difícil, das dores que sentia pelo sapato apertado. Tomou ele, então, sua decisão: TROCOU DE SAPATO. Agora estava usando um de número 42.

Outros dois meses se passaram e as raízes continuavam a crescer. Não que isso o incomodava, pois havia muito espaço ainda nos seus sapatos de número 46. O que o preocupava agora nem era a perda da namorada. Já se conformara. Ela o deixara pela falta de perspectivas quanto a um futuro casamento.

O que o preocupava agora era a tal da globalização. Diante da necessidade de modernização ocorrida pela abertura econômica, o banco, buscando qualidade total e melhoria da eficiência precisou enxugar seu quadro de funcionários e aqueles menos versáteis e dinâmicos foram os primeiros a serem cortados.

Agora Ernesto estava sem namorada, sem emprego, sem ter como se sustentar. Não havia se reciclado; não aprendera nada de novo. Parecia que o mundo caminhava e ele não. Todos os dias fazendo as mesmas coisas e fazendo as mesmas coisas todos os dias.

Vários meses à procura de emprego, e, sem sucesso, já chegava à beira do desespero.

Quando a fome surge como resposta de um colapso financeiro e as aflições e angústias batem à porta, não resta outra saída: mudanças. Ou você as domina ou é dominado por elas. Essa palavra não existia no dicionário de Ernesto. Ele necessitava mais do que nunca de um novo emprego e para isso, precisava sujeitar-se às mudanças.

É mais fácil, para alguns, justificar do que agir. Ernesto não quis ter o trabalho de mudar.

Dois anos depois uma estranha morte foi anunciada: um homem relativamente jovem foi sufocado por estranhas raízes que contaminavam todo o seu corpo. A autópsia comprovou que o indivíduo nada fizera para evitar seu fim fatídico.


Por Altair J. Bordoni - elaborada em mai/2001
Altair Bordoni
Enviado por Altair Bordoni em 15/11/2005
Reeditado em 15/11/2005
Código do texto: T71810

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Sobre o autor
Altair Bordoni
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Altair Bordoni