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Vícios e angústias

Luciano carregava todo o desamparo da esperança sobre suas costas. Suas militâncias, suas lutas, todas perdidas, todas fora de contexto – tudo fora do sonho.
Seus companheiros, muito alegres, cerveja na mão, esperanças de beijo na boca e droga abundante. Lutar pelo sonho, primeiro, passava pelo sonho de prazer, realização dos sentidos e do ego.
Luciano sentia-se acuado: imaginava a luta de minoria como uma agressividade autoprotetora e essencialmente transformadora do mundo externo. Mas, seu grupo só procurava a utopia pessoal.
Resolveu sair – do local, do corpo ou do grupo... Menos da vida. Sua decisão de nunca se matar ou se imaginar morto era séria. O pensamento de suicídio seria tão-somente pensamento que era melhor não perder tempo.
Agora, a militância era tão-somente militância: nenhuma mudança.
Em verdade, quando pensava no prazer das movimentações e protestos dos quais inicialmente participou, lembrava de haver uma comoção espiritual muito forte. Vencer o dilema era só uma espécie de tempero especial. Perder não tirava o gozo humanístico e alimentava o ímpeto.
No entanto, Luciano se deu ao luxo de se apaixonar pela causa. Sua luta real ameaçava, irrisoriamente, o vício dos militantes que acham mais importante lutar indefinidamente do que lutar pela causa.
Oras, Luciano sempre se fazia ameaçar às ideologias dominantes...
Portanto, no dia seguinte, no blog do movimento, escreveu:
“De sonhos se faz as militâncias, associados à tentativa de realização deles. E pra isso, se coloca o sangue e o coração na roda, pra morrer ou matar, mas se fazer ouvido.
Neste grupo, se substitui o esforço pela maconha, a consciência por destaque diante dos parceiros de faculdade, e a politização pelas anedotas. Cansei de ser o único a querer ver mudanças e luta de verdade. Saio do grupo agora, num protesto anti-hegemônico”.
O post repercutiu rapidamente, e logo as pessoas do grupo excluíram-no.
Luciano não voltaria a se filiar no mesmo grupo, mas continuou a atiçar movimentos e correr atrás. Não havia momento em que não estivesse afiado, com as palavras certas na boca e os pensamentos certos por todo o corpo vibrante.
O rapaz gritava, mas ninguém o escutava de verdade. Mesmo assim, ele estava em sua esperança e fé cega de estar mudando algo em definitivo. Era sua própria utopia – da qual não podia fugir.
Marcelo Oliveira
Enviado por Marcelo Oliveira em 01/11/2007
Código do texto: T718578

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Sobre o autor
Marcelo Oliveira
Feira de Santana - Bahia - Brasil, 28 anos
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Marcelo Oliveira