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O HOMEM URIADO

Úria sm doença psicossomática e obsessiva de sexo; latente febre de desejo; estado incontrolável do ser humano.

Uriado adj aquele ou aquela que está com úria.

Parte 1 – O Dia da Úria

E naquela manhã de verão, Leo estava uriado.
Não sabia ao certo há quanto tempo estava com essa doença sem que ela se manifestasse. Entretanto, agora que ela se espalhou totalmente, a única preocupação que ele tinha não era saber sua origem, e sim, extravasá-la.
Acordou mais uma vez na mesma hora do dia anterior; às sete da manhã. E então tomou banho e comeu um pão com manteiga. Vestiu sua roupa de costume - um boné, uma bermuda branca e uma camisa regata - e foi trabalhar.
Leo trabalhava a dois anos em meio numa pequena empresa de telefonia. Era um trabalho incrivelmente tedioso. Atender ao telefone, desligar, atender, desligar e atender novamente. Mas era um trabalho. E ele precisava trabalhar. Também precisava encontrar alguma forma de extravasar sua úria, que desde a noite anterior afetava e muito o seu comportamento.
De princípio, o modo mais simples e menos vergonhoso para ele consistia em sutilmente, e discretamente, segurar suas próprias mãos com muita força, flexionar a mandíbula até ranger os dentes e bater na mesa num volume quase imperceptível para as outras pessoas. Porém, Leo sabia que isso não iria conter o que tinha por dentro. Precisava urgentemente do melhor remédio para a úria; uma mulher.
Mas encontrar uma mulher que cure seu problema é tão complicado quanto encontrar uma mulher para qualquer outra cura. Leo sabia disso, mas não tinha escolha. Era o único remédio possível. Então esperou a hora certa de iniciar sua odisséia. Seria o horário de almoço, das 12h00 às 13h00. Ele tinha exatamente uma hora para encontrar a tal mulher.
Enquanto isso, Leo ia de forma discreta tentando disfarçar a sua úria. Ia para o banheiro e rangia “uhhhhhhhhhh!” e depois lavava o rosto e voltava ao serviço. Quando percebia que a úria estava atacando, ele corria novamente para o banheiro, segurava suas mãos com forçar, flexionava a mandíbula e gritava “uhhhhhhhhhhhhhhh!”, e depois batia na parede do banheiro.
O relógio apontava para 11h59. Leo desligou o telefone e se retirou da pequena sala desconfortável com destino à rua.
Eram muitas mulheres. Em número complicado de especificar para que você, caro leitor dessa história real, consiga imaginar. E é justamente aí que a úria ataca novamente.
Leo não consegue se controlar. Enfia a mão no bolso da bermuda, coça as pernas, contrai os dedos da mão de forma desesperadora e angustiante. Range os dentes. Começa a suar abruptamente. Leo vê muitas e muitas mulheres, com calças apertadas, decotes à mostra, recheadas ou magras, e começa a entender que agora não adianta muita coisa. Leo era um homem uriado.
Inerte, ele perde toda a hora de seu almoço, ainda parado na calçada de seu trabalho, olhando as mulheres da rua. Leo volta para dentro, corre para o banheiro e repete o processo que inconscientemente criou para extravasar a úria. “Uhhhhhhhhhhhhhhhh!”, só que agora com mais força.
Ao longo do dia, a úria só piorava. Ele não conseguia trabalhar. A febre iniciada de manhã agora estava insuportável e seus dedos da mão cada vez mais se contraíam, alternando com movimentos violentos. Leo batia desesperadamente na mesa do serviço, como forma de contar o tempo. De cinco em cinco minutos, corria até o banheiro e: “uhhhhhhhhhhhhhh!”.
Foi assim a tarde inteira até às 18h00, com o fim do expediente. Ao sair do serviço, Leo estava cansado. Aquilo estava acabando com ele. Inocente, ele imaginava se a úria o deixaria voltar para sua confortante casa. Mas ela volta a atacar.
Ao sair da porta de seu serviço, Leo via novamente todas aquelas mulheres que passavam no horário de almoço e sua reação se repetiu. Leo ficou inerte, mas não por muito tempo. Estava decidido a chegar em casa e extravasar a úria de outra forma, que até então não tinha passado pela sua cabeça. Então correu. E correu. Vendo todas aquelas mulheres, com coxas apetitosas, decotes, cabelos lisos, pele macia, lábios carnudos. Leo se desesperava e corria.
Leo imaginava estar com cada uma delas. Ficava cada vez mais uriado, cada vez mais alucinado. E ele corria. Corria até suas pernas perderem o caminho. E então corria mais.
E conseguiu sua vitória, ao chegar em casa meia hora depois. Largou seus pertences do serviço no chão, tirou o tênis e foi até o banheiro, onde tirou a bermuda, a camisa, e entrou no chuveiro na esperança de que uma paradoxal ducha de água quente esfriasse a úria. E no banheiro ele rangeu “uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!” e de novo “uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!” e de novo “uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh” e por alguns minutos a úria tinha passado.
Leo se sentiu aliviado. Terminou o banho, preparou a janta e depois de satisfeito se dirigiu para a cama, aguardando o dia seguinte.
Leo tinha sobrevivido ao seu dia de úria. Estava cansado. Iria dormir como uma pedra ou como um urso hibernando no inverno. Leo se sentia vitorioso.
Fechou então os olhos e deixou que os sonhos o dominassem.
Era 1h34 da madrugada quando os vizinhos ouviram: “uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!”.

continua...
Maycon Batestin
Enviado por Maycon Batestin em 04/11/2007
Código do texto: T722977
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Sobre o autor
Maycon Batestin
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
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3 e-livros (207 leituras)
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