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ESTRADA

A chuva estava muito forte, quase não o deixando enxergar a estrada. Seu limpador de pára-brisa lutava muito contra a água que caía sobre seu carro com uma força assassina. Luta desigual, porém ele seguiu vencendo.

Mas de repente surgiu algo à sua frente que o fez parar de brigar com a chuva em pensamento. Era uma pessoa parada na beira da estrada, aparentemente esperando carona, desejando alguém que a tirasse debaixo daquela tormenta. Essa pessoa estava parada, com o rosto coberto por uma capa de chuva amarela, mas gesticulava muito, tentando chamar a atenção de qualquer forma. O motorista pensou em parar e ajudar, mas desde sempre aprendeu que é arriscado dar carona para estranhos, e esse ensinamento passou a fazer mais sentido ainda depois do que lhe aconteceu há algum tempo (o motorista não tinha certeza quanto tempo fazia, mas sentia que já fazia alguns meses). Se ele parasse para ajudar aquele estranho, podia perder seu carro, seu dinheiro ou sua vida. Por outro lado, aquela pessoa podia ser alguém honesto, uma pessoa boa passando por dificuldades. Mas o motorista resolveu fingir que não viu ninguém e seguiu reto, sem parar. A rodovia estava deserta e provavelmente aquele azarado não conseguiria carona a tempo de não morrer afogado. Mas, paciência.

Assim que passou reto (sem olhar para trás), voltou a lutar mentalmente contra a chuva. Mas uma outra coisa surgiu em sua cabeça. Lembrou-se do acontecimento recente que o fizera temer ainda mais os estranhos que pedem carona. Caramba! Parecia que foi providencial o aparecimento daquele sujeito na beira da estrada justo naquele momento. Tudo a ver. Não significa que o motorista esqueceu do que ocorrera naquela ocasião, mas com a visão daquela pessoa pedindo carona, a lembrança ficou mais nítida e forte.

Lembrou-se que foi em um dia chuvoso também. O motorista viajava sozinho e viu um carro parado no acostamento, soltando fumaça do motor. Viu junto ao carro um homem e uma mulher. Naquela ocasião, não pensou duas vezes. Parou e ofereceu ajuda. O homem disse que seu carro quebrou (isso se percebia claramente) e agradeceu por ele ter parado. A mulher não disse nada. Apenas passou a mão no rosto molhado com uma das mãos, afastando o cabelo encharcado. Com o gesto, ela revelou uma profunda cicatriz, algo destoante em um rosto tão bonito. A cicatriz parecia ter sido feita com faca em uma das bochechas.

O motorista então disse para o homem e a mulher entrarem em seu carro. O homem entrou rapidamente. A mulher voltou-se para dentro do carro do casal e do banco traseiro pegou uma criança que dormia indiferente àquela situação. Ela e a criança sentaram-se no banco de trás. O homem se sentou ao lado do motorista.

Durante uma parte do trajeto, o silêncio dentro do carro foi total. Até que o homem disse que não tinha mais esperança de conseguir ajuda naquela estrada deserta. O motorista perguntou o que aconteceu e o homem respondeu que logo ao passar pelo quilômetro 89 o carro começou a falhar e a soltar fumaça. Eles então pararam.

A mulher continuava calada. O motorista olhou pelo espelho retrovisor e notou que ela embalava carinhosamente a criança, que estava toda envolta por um cobertor. Ele pensou “como essa mulher é bonita, apesar dessa cicatriz imensa”. Quase abriu a boca para dizer, mas conseguiu se conter. Enquanto lá fora a chuva caía, o motorista admirava a beleza daquela silenciosa mulher e prestava atenção à estrada ao mesmo tempo.

O homem seguia falando, mas o motorista não prestava mais atenção ao que ele dizia. Até o momento em que, talvez percebendo o que acontecia, o homem perguntou se o motorista estava interessado em sua esposa. Ele se assustou com a pergunta, mas no fundo esperava que seus olhares dirigidos à mulher através do espelho retrovisor chamassem a atenção.

Ainda assim, tentou negar. O homem não acreditou e começou a berrar. Dizia que não seria a primeira vez que algum sacana se atrevia pra cima de sua mulher (foi bem esse o termo usado: “se atrevia”) e que não seria a primeira vez também que a vagabunda retribuía (foi esse o termo, também: “vagabunda”). O motorista se apavorou e estacionou o carro no acostamento. Lá fora, a chuva diminuíra, mas não cessara.

O homem então virou-se para trás e agarrou a mulher pelos cabelos ruivos. Ela gritou e pediu para ele parar (finalmente ela dissera alguma coisa). O homem não atendeu e, olhando para o motorista, disse-lhe que a marca no rosto da “vagabunda” era uma lembrança da última vez em que ela se “assanhou” pra outro homem. A mulher começou a chorar. O motorista, querendo fazer algo, mas não conseguindo, somente observava aquilo, nervoso. A mulher então disse que era mentira, que ela nunca quis nada com outro homem. E também disse, entre lágrimas, que a lembrança da última cena de ciúmes do marido não foi a cicatriz no rosto, mas sim o que ele fizera ao filho do casal.

O motorista estava apavorado, já imaginando o que veria, mas mesmo assim com uma curiosidade quase doentia. Ainda com os cabelos ruivos sendo puxados pelo marido ciumento, a mulher tirou o cobertor que enrolava a criança. A visão fez o motorista vomitar e chorar ao mesmo tempo.

O bebê estava com os olhos abertos, mas não respirava. Sua boca estava roxa, da mesma cor da marca que envolvia seu pescoço. O homem puxou ainda mais os cabelos ruivos da mulher e ordenou que ela guardasse “aquilo”. Disse, aos berros, que tinha certeza que aquele filho não era dele, e sim do sujeito para quem eles tinham dado carona há dois dias, quando voltavam de uma longa viagem (dessas viagens que duram três dias na estrada, feitas pelo prazer de dirigir enquanto se conhece as várias paisagens pelo caminho). O homem tinha certeza que a criança era daquele sujeito. Ele sabia disso por causa dos olhares que o homem dava, através do espelho retrovisor, para sua esposa que estava sentada com a criança no banco traseiro. Ele disse que matou o sujeito, fez a cicatriz na “vagabunda” e deu um jeito “naquilo” que a mulher carregava no colo.

O motorista estava apavorado. Com o colo sujo pelo seu próprio vômito, implorou para que o casal saísse do seu carro. O homem soltou os cabelos de sua esposa. Ela continuava chorando e implorou para que o motorista não a deixasse sozinha com aquele louco. O homem, por sua vez, abriu a porta do carro e desceu. Rapidamente, abriu também a porta traseira e puxou a mulher com a criança morta no colo. Antes que o motorista pudesse fazer qualquer coisa, o homem apanhou um revólver que trazia escondido na calça. Sem dizer nada, ele apontou a arma para o motorista.

O motorista, então, acelerou rapidamente, mas ainda ouviu o disparo do revólver. Sentiu algo penetrando suas costas. Olhou para o próprio peito e viu o sangue escorrendo. A bala o perfurou.

Sangrando muito, o motorista deixou o carro sair da pista e bater em uma árvore. Sentindo muita fraqueza e rezando em silêncio para mão morrer, o motorista olhou para a direção em que estavam o casal e a criança. Antes de fechar os olhos, ainda pôde ver o homem batendo na mulher e depois atirar. Ela caiu sem soltar a criança. Depois disso, o motorista perdeu os sentidos.

II

O motorista se lembra que depois recobrou os sentidos brevemente e viu os enfermeiros levando-o para algum lugar. Junto dos enfermeiros, um médico gritava alto pedindo para alguém trazer logo o sangue para a transfusão. Depois disso, o motorista perdeu de novo os sentidos.

III

Agora, depois que tudo aquilo passou, o motorista está de novo em uma estrada e quase parou para dar carona a um desconhecido. Quase se arrependeu de não ter parado, mas se convenceu de que foi melhor assim. Ao invés de arriscar dar carona para alguém perigoso, era melhor seguir sua viagem. A chuva estava muito forte, ainda, mas o motorista viu que mais à frente o tempo estava estranhamente bom. Uma claridade assustadora o aguardava alguns metros adiante.

Mas lá atrás, onde a chuva ainda estava forte, a pessoa vestindo capa de chuva amarela enxugou a lágrima que se misturou com a chuva. A lágrima que caiu quando o motorista não quis parar. Ela lamentava, pois não queria que o motorista fosse embora. Após enxugar a lágrima, essa pessoa tirou o capuz que cobria sua cabeça. Nesse instante, a chuva atingiu  em cheio seu rosto marcado com uma enorme cicatriz em uma das bochechas e molhou mais intensamente seus lindos cabelos ruivos.

IV

No hospital, após muito tentar salvar sua vida, os médicos anunciaram a morte do motorista. Era triste, eles diziam, mas pelo menos tinham conseguido salvar a vida da mulher que estava baleada a poucos metros de onde o motorista tinha batido o carro após ser ele também baleado.

Quem estivesse passando pela sala de cirurgia naquele instante, teria ouvido dois enfermeiros conversando e um deles dizendo que, àquela hora, o motorista provavelmente já estaria vendo a claridade que os mortos enxergam quando estão prestes a entrar no “outro mundo”. E o outro enfermeiro riu dizendo que não acreditava naquilo. Mas o primeiro insistiu, afirmando que a “passagem” era como andar por uma estrada. Ao menos ele esperava que assim fosse. Um dia descobriria, assim como o motorista deitado na mesa de operações estava descobrindo agora.
Vitor Souza
Enviado por Vitor Souza em 06/11/2007
Código do texto: T725569

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Sobre o autor
Vitor Souza
Piracicaba - São Paulo - Brasil, 38 anos
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