Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

" O Menino e a Solidão"


Os dias eram curtos. As noites longas. Nunca chegava a hora certa. A expectativa era de remédio amargo, missa comprida e visitas dominicais ao cemitério e aos parentes velhos que achavam que o menino estava anêmico, magro, doente e feio.
A vida não apresentava cores nem sorvetes. Um copo de tubaína no domingo. Em dias especiais, abacaxi molhado no vinho.
As ruas eram cinza. A poeira tomava conta da respiração. A vista embaçava. A roupa doada não servia. Sempre torta e desajeitada, quando nos outros era vistosa, estava na moda. Ficava apertada demais ou quase sempre muito grande, naquele corpo franzino. Pele e osso.
Quando a noite caia, assombrava a perspectiva do dia seguinte. A culpa, o medo e as almas penadas tomavam conta da escuridão infinita. Suores, dores pelo corpo e a morte rondando.
E se os deuses estariam o acusando de fracasso, e o levariam a loucura, ao infortúnio de não ser o que o destino o reservara?
O menino encontra uma amiga no breu da noite pavorosa. Cremilda estava perambulando sorrateira pelo canto do quarto. Procurava insetos. A exuberante lagartixa tornou-se uma das principais confidentes do menino. Ouvia, pacientemente seus lamentos, choros e reclamações, dos dias de tortura e desencontro.
Assim ele seguiu por vários séculos, através do seu mundo particular e fantástico.
Tinha o Bonifácio, o violão. A Dona Brígida, a geladeira.  Marialva, a lavadora de roupas. Vivi, a violeta. Dom Porcírius, o banheiro. Ovídio, o telefone. Lelé, a cama. E assim por diante. Havia uma família unida e compreensiva nos momentos de agruras e desespero.
Foi assim que ele encontrou seu conforto. Seus interlocutores eram solidários e gostavam dele. Não reclamavam se ele estava magro demais. Se ele bebia muito. Se ele comia pouco. Se ele chorava desiludido, tinha o colo de seus fiéis amigos para consolar.
Em uma noite assombrada. Quando recebia visitas de terríveis criaturas que o acusavam de toda a mazela do mundo. Que, fatalmente, seria alvo de alguma injustiça. Que teria sido contaminado por um vírus ainda desconhecido da ciência. Que era vítima de erros médicos. Que a polícia estava atrás dele por conta de um crime feito por um homônimo. Que seria estuprado na cadeia. Que o governo havia tomado sua casa, seus bens. Enfim, uma noite comum como todas que ele vinha tendo a vida toda. Ele deixa a Lelé e vai conversar com Dom Porcírius. Lá ele encontra uma criatura desconhecida, sem nome, nem alma. Desfigurada, estranha ao seu convívio. Esquecida pelo tempo, pela vida, pelo mundo: o espelho.


Zeca Devebec
Enviado por Zeca Devebec em 07/11/2007
Código do texto: T727046

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Zeca Devebec
São Paulo - São Paulo - Brasil
77 textos (4920 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/10/17 06:21)