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Voando ao seu encontro

* Publicado na 7ª Antologia de Contos de Autores Contemporâneos Brasileiros da CBJE (Abril/2005) e no livro Vozes Escritas do Clube Amigos das Letras.
 


A velha senhora não sabia mais quem era.
Os anos estavam se passando como uma volta de pião.
Já não existia mais o choro das crianças.
As únicas lágrimas que ainda escorriam, eram as dela.
A saudade do seu velho amigo e companheiro ainda lhe dilacerava a alma.
Para ela, a sua TV já não era mais a mesma. Dançar com Fred Astaire na chuva colorida não lhe trazia mais nenhuma emoção.
Tudo estava triste. Olhava pela janela e sentia vontade de voar, que perdia logo em seguida, quando ao seu lado, via outras caírem da cama apenas quando tentavam se por de pé.
Esperava pacientemente por visitas. As de sangue já não lhe interessavam mais. Quando apareciam era numa rápida passagem de natal. Os beijos eram gelados como a neve que caia. Os netos lhe chamavam de vovó noel, referência aos seus cabelos embranquecidos pelos dias de labuta.
De volta para o seu frio quarto coletivo, ouvia uma decadente melodia de gemidos em sua volta, uns de dor, outros de saudade. Sentia que estava morrendo. Sabia que não era o momento e precisava de algo que a impedisse de declinar.
Antes de dormir, procurava a reza que ainda lhe confortava. Tirou de sua caixa de segredos guardada ao pé da cama, o seu velho terço desgastado de tantos pedidos. Um milagre aconteceu; preso em uma das Ave Marias, havia um papel amarelado com um bilhete de amor escrito com letras desbotadas. Foi o primeiro que ela havia recebido quando ainda namorava o caixeiro viajante. Dizia: “ Meu amor, apesar da distância que nos separa, não me esqueça, escreva-me. A suavidade de suas letras me acalmam a alma ”.  De imediato, trocou os seus santos por um lápis de ponta gasta e foi até a varanda do dormitório. Não havia lua. Parecia que apenas as estrelas queriam testemunhar aquele momento. No verso daquele papel, escreveu a sua última mensagem, que dizia: “ Meu amor, não estarei mais tão longe de ti, o teu bilhete reacendeu a chama da minha vida e a coragem de ir a tua procura. A esperança de te encontrar me deu asas ”.
Naquela noite fria e escura de dezembro, foi encontrado um corpo no jardim do abrigo, era o de uma velha senhora com um bilhete agarrado na mão, de olhos fechados, porém sorrindo.

Henrique Gondim
Enviado por Henrique Gondim em 09/11/2007
Código do texto: T730324
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henrique Gondim
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 52 anos
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Henrique Gondim