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O comprador de sonhos

* Publicado na coletânea "E por falar em amor III" da Litteris Editora.

Hoje foi o melhor dia de todos os meus verões. Estava deitado numa rede em minha varanda, lendo sua velha carta, quando fui surpreendido pela sua chegada.  O melhor, ela não estava sozinha. Trazia minha neta de 1 ano com ela.
Tudo começou há cinco anos atrás. Enquanto o sol esquentava os corpos na praia e minha casa invariavelmente se tornava o centro das reuniões políticas e sociais do verão, os empregos informais tomavam conta de todos os lugares. Rapazes de roupas coloridas seguravam cartazes de bares, outros distribuíam folhetos de passeios de barco, nos sinais de trânsito, palhaços faziam malabarismos para descolar alguns trocados, moças de biquíni ofereciam protetores solar nos postos de gasolina, enquanto os carros abasteciam e até rapazes de paletó, mesmo sob o sol escaldante, vendiam, embaixo de tendas, promoção de flats à beira-mar.
Todo esse movimento me fez tentar algo novo. Com os meus setenta anos bem vividos, decidi deixar o conforto do balanço de minha rede na varanda, hidratado por uma gelada água de coco, para ir até a cidade fazer compras para a chegada do carnaval. Sempre fui um homem muito rico e esta incumbência sempre ficou a cargo de meus empregados.
Parecia utopia, um homem acostumado a percorrer o mundo inteiro com desenvoltura, estava perdido dentro de um supermercado. Como não sabia onde encontrar os produtos que me interessavam, decidi percorrer cada ala individualmente. Ao chegar ao setor de eletrônicos, algo me chamou a atenção. Uma moça de langerie oferecia pilhas alcalinas. Fiquei extasiado ao ver aquela jovem. Foi a mais bela que vi em toda minha vida. Apesar do corpo ainda em formação, suas curvas eram perfeitas. O rosto simétrico, nariz afilado e lindíssimos olhos azuis. Literalmente, uma princesa dos contos de fadas. Aproximei-me e ela educadamente me abordou:
- Bom dia, senhor. Gostaria de testar as nossas pilhas alcalinas?
Eu estava tão anestesiado que mal podia ver a qualidade do produto.
- Bom dia, filha. Eu quero um kit.
Ela colocou um kit em meu carrinho e, com um sorriso, agradeceu a compra.
Prossegui o meu passeio por entre as alas do supermercado e aquela imagem da moça de langerie não me saía da cabeça. Decidi voltar e fui novamente recebido com educação. Comprei mais dois kits e fui embora. Porém, algo me intrigou. Apesar da perfeição do seu corpo, existia algo de triste em seu sorriso. No fundo de sua alma, ela aparentava estar triste, apesar do sucesso de suas vendas. Voltei vinte minutos depois e enchi o carrinho de pilhas alcalinas. Fixei o olhar em seus olhos e lhe perguntei:
- Você não está me reconhecendo? Esta já é a terceira vez que eu passo por aqui para comprar pilhas.
Ela, com os olhos marejados, me respondeu:
- Claro, senhor. Da primeira vez o senhor me chamou até de filha e me lembrou o meu pai, que morreu quando ainda era pequena.
Era costume meu chamar moças de filha.
- Como seu pai morreu quando ainda era pequena? O que você faz aqui?  – perguntei.
- Sou do interior do sul do país. Minha família passava fome e meu pai não agüentou nos ver naquela situação. Enforcou-se e deixou minha mãe comigo e mais quatro irmãos. Uma tia me trouxe com ela para morar na cidade grande. Há dois anos ela morreu e eu fiquei sozinha. Estou tentando juntar dinheiro para voltar para casa, quero ficar com a minha mãe.
- Ela me respondeu com o olhar triste, pediu desculpas e continuou a atender os outros clientes que passavam.
Segui um pouco mais e parei mais adiante, pensando naquelas palavras. Fui até um caixa eletrônico dentro do supermercado e saquei uma grande quantia em dinheiro que daria para ela voltar para casa em qualquer lugar que fosse, até mesmo de avião, se ela quisesse.
Passei num setor de roupas, comprei um roupão e fui até ela mais uma vez. Ao chegar com o carro cheio de pilhas, ela me reconheceu e sorriu:
- O senhor é o nosso melhor cliente, deseja alguma coisa?
- Desejo, sim. Gostaria que vestisse este roupão e recebesse este envelope. Ele tem dinheiro para você comprar sua passagem e voltar para a sua casa.
Esperava que ela desse um grande sorriso e me abraçasse como forma de agradecimento. Fui surpreendido pela sua resposta:
- Obrigada, senhor. Muitos já me ofereceram o mesmo presente e todos queriam o meu corpo em troca. Mesmo constrangida em trabalhar o dia inteiro de langerie, eu prefiro vender pilhas.
- Não, filha, não me entenda mal. Desde que aqui passei pela primeira vez, percebi um amargor no seu sorriso. Tudo o que eu quero é lhe devolver a verdadeira felicidade. Por favor, receba este envelope e volte pra o colo de sua mãe. Nele está escrito o meu endereço. Se um dia puder, me escreva apenas uma carta.
Ela me fitou por alguns segundos, hesitou em receber o envelope e finalmente me deu um abraço.
Obrigada, senhor. Eu tentava juntar dinheiro para comprar esse sonho de voltar pra casa. Eu só posso lhe pagar com gratidão. Estou sorrindo diferente para o senhor e pode aguardar que logo que chegar em casa lhe escreverei.
Ela vestiu o roupão, pegou o envelope e foi embora. Duas semanas depois recebi uma linda carta dela com uma poesia:

Saí em busca de sonhos...
Trocando fadas pela labuta
Chorei silenciosas lágrimas de esperança
Para a minha imaginária boneca não ouvir

Tudo foi duro em minha vida
Não conheci a infância
Fui privada da adolescência
Precisava sobreviver

A saudade era a companheira
E, mesmo triste, tinha que sorrir
Mostrar meu corpo era preciso
Para ganhar o dinheiro da volta

Foi quando surgiu um anjo
Comprando o meu distante sonho
Posso não ter o que quero
Mais ressuscitei o pai que partiu

Um dia lhe verei outra vez...
Te amo, pai.
                    Maria Fernanda
Ela cumpriu o que havia me prometido.

Henrique Gondim
Enviado por Henrique Gondim em 09/11/2007
Código do texto: T730337
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henrique Gondim
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 52 anos
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