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BOULEVARD DO CRIME


Estavam reunidos os seguintes escritores considerados malditos pelas suas produções literárias por retratarem a vida dos submundos, de mentes inquietas e febris, da mediocridade existencial, da vida boêmia, do flagelo social; Jean Genet com sua Nossa Senhora das Flores, James Baldwin com seu Giovanni, Edgar Allan Poe com seu Gato Preto,Charles Baudelaire e suas Flores do Mal e nosso Plínio Marcos com sua Navalha na Carne. Todos sobre a mesa do bar da Rosa Vermelha em pleno Cais de uma certa capital conhecida pela sua efervescência carnavalesca. O bar foi escolhido por eles pelas suas flores de plásticos velhas e desbotadas, como as meretrizes do próprio Cais, porém ainda muito utilizadas pelos desprovidos de sexos com amor.
Era lua cheia, véspera de feriado, o calor estava fazendo transpirar suas peles, e o consumo de cerveja popular era o antídoto para combater o calor. Um dos malditos resolveu ir ao banheiro do Cais, sendo alertado pelo Cabeludo, dono do bar, que tomasse muito cuidado, por causa dos assaltos, mal sabia o Cabeludo que ele também tinha sido um meliante nas ruas de Paris antes de se encontrar com a literatura.
No banheiro, logo na entrada percebeu que não era iluminado, porém com um certo espaço,havia dois sanitários fétidos e um local para despejar a bebida transformada em urina. Assim que ele se aproximou viu um bêbado vomitando e ao mesmo tempo sendo roubado pelo seu parceiro, ouviu também uns gemidos no sanitário com porta, eram gemidos masculinos, enquanto no outro alguém estava defecando a sua podridão na latrina totalmente cheia, pois não havia água, assim estava escrito na própria parede com erros de português.
O ex-meliante, urinou, e ao sair foi abordado por um garoto com um piercing na língua que lhe fez um sinal, com a própria língua se dirigindo para o lado mais escuro do banheiro. Mas não foi correspondido, pois o autor de Nossa Senhora das Flores voltou para mesa. Não demorou muito e assistiu com seus amigos, um deficiente físico em sua cadeira de roda, morador de rua tomando banho de mangueira, totalmente alcoolizado, estando como condutor da mangueira o Cabeludo que molhava as suas vestes e seu rosto soltando alta gargalhada, um dos malditos lembrou da época que foi viciado em bebida e ópio, se sentindo o próprio Gato Preto.
Em poucos minutos dois policiais arrastavam da mesa do bar ao lado um homem negro que havia se exaltado na bebida e tinha discutido com a dona do bar, o autor de Giovanni foi até os policiais e perguntou porque eles estavam agindo de forma tão agressiva com aquela criatura fragilizada pelo álcool, foi quando um deles argumentou que não sabia agir de outro jeito com um puto.
Enquanto isso uma mulher da região rebolava ao som do romantismo piegas, músicas consideradas bregas, o poeta das Flores do Mal não se conteve, e foi até o outro bar puxou ela para os seus braços, pagou uma dose de conhaque e a beijou, como beijava a atriz Jeanne Dulce, no auge das suas noites boêmias.
E nada acontecia nas mesas ao lado do bar que eles estavam, pois eram os únicos clientes. Até que duas mulheres vieram discutindo por causa de um homem casado, aparentemente elas queriam o posto de amante, quando uma empurrou a outra para o lado vazio do bar, retirou uma navalha do peito e cortou seu rosto, o sangue espirrou em um dos malditos, manchando um dos seus livros que ele vendia nas portas dos teatros, representando a sua própria Navalha na Carne.
Assim se dilaceravam as vidas daquelas pessoas que moravam, trabalhavam, frequentavam ou passavam pelo Cais, gente que por consequência do destino ou por opção e falta de reflexão ou informação em alguns casos, estavam a margem de uma sociedade. Mesmo tendo pessoas que gritaram e denunciaram  em seus escritos esse flagelo social, que nos distancia do mundo que queríamos viver, contudo, um dos escritores malditos disse:"Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado.Mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado".
Com os primeiros raios de sol, eles pagaram a conta e cada um pegou seu ônibus de volta para o seu mundo.
 
Marcos Soares Mariá
Enviado por Marcos Soares Mariá em 18/11/2005
Reeditado em 09/11/2006
Código do texto: T73098
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Sobre o autor
Marcos Soares Mariá
Recife - Pernambuco - Brasil, 46 anos
70 textos (16558 leituras)
1 e-livros (63 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 06:41)
Marcos Soares Mariá