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O defunto era outro II - A saga de Nezinho

Na pacata cidadezinha de Mendes/RJ, o cargo de delegado titular de polícia civil era ocupado por Genésio Pinto, também conhecido como doutor Nezinho, cuja conduta social era acompanhada de perto por parentes, amigos e colegas de trabalho. Havia muito tempo que Nezinho sentia-se patrulhado e alvo de comentários maliciosos quanto à sua solteirisse e masculinidade. Uns diziam que o doutor era do tipo que comia calado enquanto outros diziam que era boiola. Fato é que ele nunca fora visto com mulher alguma, o que gerava especulação, piadas e até apostas. Ninguém desconfiava que Nezinho, após tantos anos, continuava apaixonado pela prima Divanilda, a quem ele considerava a mais gostosa da família.
Para fugir aos olhares atentos e línguas afiadas daquela gente simples, naquela manhã ensolada de sábado Nezinho acordou cedo e rumou para a capital fluminense disposto a curtir o que seria o último final de semana de suas férias e também de sua vida. Nezinho optou por viajar de ônibus porque queria apreciar a paisagem e relembrar dos tempos de criança quando ia com sua mãe e a prima Nildinha visitar a tia Ariclene. E assim transcorreu a viagem, de lembranças em lembranças.
Foi numa destas estadas na casa da tia Ariclene, que certa ocasião dona Torquata, mãe de Nezinho, procurou pelo filho e a sobrinha por toda a casa e não os encontrou. A tensão aumentou quando anoiteceu e eles não apareceram para o jantar. Tia Ariclene, num átimo de luz, resolveu procurar no atelier de costura que ficava nos fundos da casa. Para espanto de ambas, os primos estavam deitados no sofá-cama completamente nus brincando de médico e paciente. Como naquela ocasião não era comum pais e filhos conversarem abertamente sobre educação sexual, a brincadeira rendeu umas boas palmadas. Mas houve também alguns episódios que Nezinho faria qualquer coisa para esquecer.
Seu primo Ariovaldo, três anos mais velho e peladeiro de carteirinha, era o dono da bola de futebol e escalava o time ao seu bel prazer. Para que Nezinho jogasse, o primo impunha algumas condições. Debaixo de uma mangueira que ficava próxima do campinho, Nezinho era obrigado a chupar o pinto do primo tarado sob ameaça de porrada. Como se não bastasse, o safado ainda jogava beijinhos e o chamava de gostoso. O tempo foi passando e o ódio que Nezinho nutria pelo primo aumentava substancialmente.
Sempre que a família se reunia no sítio do tio Genilton em  alguma festividade, Nezinho fugia do primo Ariovaldo como o diabo foge da cruz. Então quando ouvia aquele estalado de beijinhos, Nezinho gelava e corria à procura de algum abrigo seguro.
Foi num baile de carnaval que uma tragédia abalou a família, exceto a Nezinho que suspirou aliviado. Ariovaldo conhecera uma garota no baile e a convidara para tomar um ar fresco. Na escuridão da noite entre as muitas árvores do clube, como era de se esperar Ariovaldo pôs o pinto pra fora e obrigou a garota a chupá-lo. Mas para sua surpresa, a garota era na verdade um violento travesti e exigiu que ele o chupasse primeiro. Houve discussão, sopapo, pontapé e chute no saco pra todo lado. Na briga, Ariovaldo acabou levando a pior e teve o seu pinto decepado por um canivete do traveco. E o inevitável aconteceu, mesmo socorrido às pressas Ariovaldo não resistiu à hemorragia e morreu segurando o seu objeto de prazer: o próprio pinto.
Com a morte do primo, Nezinho passou a ser o queridinho da família, sempre coberto de mimos e vontades. A mãe de Ariovaldo, tia Eudóxia, sofria de um mal gástrico socialmente repugnável: a flatulência. Pelo odor do seu pum era possível adivinhar o menu da refeição anterior. Sempre que ela pedia pra que Nezinho puxasse o seu dedo indicador, significava que o pum seria sonoro. Disfarce perfeito quando havia outras pessoas por perto. Nezinho gelava ao ouvir a tia gritando o seu nome para puxar-lhe o dedo. A perseguição passou de primo pra tia. Um horror!
Nezinho estava absorto em seus pensamentos quando de repente se deu conta de que havia chegado na rodoviária da cidade maravilhosa. Desembarcou do ônibus e embarcou num táxi rumo à praia do Pepino em São Conrado para a realização de um sonho: voar de asa delta. Durante o trajeto, Nezinho recordava dos tempos de adolescente e das experiências vividas com drogas ao som de Pink Floyd ( Time / Dark side of the moon). A prima Deusicleide, uma tribufú que mais parecia um cruzamento do boneco Mug com o ratinho Topo Gigio, transformava-se numa belíssima princesa depois do segundo baseado acompanhado do Lucy in the sky with Diamonds - LSD. Diante destas saudosas lembranças, Nezinho resolvera "enfiar o pé na jaca". Estava decidido a comprar algum alucinógeno e saltar da Pedra da Gávea numa colorida asa delta. Já na praia, com seu faro de policial, notou que havia uma rodinha de rapazes no canteiro do calçadão onde a conversa fluia animada. Sentindo firmeza, Nezinho dirigiu-se até eles e disse: - E aí, meu irmão. Qual é a parada do pedaço? Tô querendo ficar viajandão. Quem é que vai me descolar algum pichulé bacana? Quero pra ontem e pago bem. Um dos rapazes se adiantou a respondeu prontamente: - Tá falando com a pessoa certa, chefia. Dá um tempo aí que é bate-volta. Em poucos minutos Nezinho tinha em mãos o que desejava. Pagou ao rapaz, tomou a tal droga e dirigiu-se até o local da decolagem. O vôo se deu tranqüilamente até o momento em que Nezinho, sentindo o corpo muito leve, olha pra baixo e se vê ao chão com várias pessoas ao seu redor, trânsito tumultuado e outras tantas pessoas correndo de um lado para o outro. Pensou consigo mesmo: caraca, essa droga dá um barato diferente. Tô doidão...   Continuou volitando sobre o mar quando ouve um estalado de beijinhos. Assustado vira-se para o lado e aterroriza-se ao deparar com o primo Ariovaldo. Numa breve associação de idéias percebe que morrera. Será que até na eternidade Ariovaldo não dará sossego ao pobre Nezinho? Que mala!
Cátia Paiva
Enviado por Cátia Paiva em 18/11/2005
Reeditado em 30/11/2005
Código do texto: T73141
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Sobre a autora
Cátia Paiva
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Cátia Paiva