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Magda


1 - Domingo
Indonésia. Ilha de Timor. Domingo. Ruas da cidade de Dili. Eu, às portas do Café Cong-Lock. Magda, conduzindo pela mão os seis anos tristes da filha Isabelinha. Magda suavemente loura. Corpo elegante de puríssima carne branca. Um colarzinho de rosas azuis irrequieto e melancólico. A boneca de Isabelinha caindo no chão. Uma breve gentileza da minha parte dispara, em Magda, rápida conversa.
Falavas... Falavas...
Tinhas apenas dois meses de Timor. Vivias com teu pai, a madrasta e a meia-irmã Melita. Nascida numa vilazinha portuguesa dos arredores de Lisboa, às margens do rio Tejo. Aí cresceras na casa da avó. Estudos no Colégio das Dorotéias. Adolescente, te dedicaras ao teu primo Beto cujas ida e morte, na boêmia militar de Angola, te deixaram marginalizada e virgem. Logo, um namoro apressado com Domingos que te deixara noiva e grávida aos dezenove anos, para se envolver e casar-se com outra - “aquela otária, sem vergonha”. A amargura da avó, já gasta pelos anos, ao ver-te grávida e solteira, sem pai, sem mãe, sem marido. Vibravas com fria tristeza ao saberes que eu, mais uma semana, regressaria à cidade de Benguela /Angola.
Meu convite para uma bica, ela o adia para a tarde pontual do dia seguinte. Incolor e sem graça erótica, eu a vi retirar-se, arrastando pela mão os seis anos tristes de Isabelinha. Meus olhares a seguem, ternos e fortes. Sentimentos, porém, negros e distantes querem emergir da minha sensibilidade. Teus momentos de silêncio me faziam intuir que vivias atormentada por negro fantasma.
Magda, as asas da alma não serviam para voar!

2 - Segunda-feira
Café Cong-Lock. Cinco horas da tarde. Eu e Magda, frente a frente. Isabelinha, ao lado, melancólica e agarrada a tua mão. Nossos olhos se cruzam - os meus te envolvendo e os teus me causando estranhas sensações. O encontro, terno e pronto, nos enlaça e nos lança para uma intimidade grata e mútua. Por minha sugestão, desprendeste a mão de Isabelinha e deixaste que a menina pudesse ir para a rua, inofensiva e sem trânsito. Tua mão que prendi, dada e quente, afaga a minha mão.
Falavas... Falavas...
Minha mãe vi-a morrer afogada no rio Tejo. Um tufão sacode o barco. Era uma segunda-feira, ainda manhãzinha. Eu tinha quatro anos. Mais dois anos, meu pai traz para a cama de minha mãe essa mulher que hoje lhe faz companhia. Só por que lhe chamei bruxa gorda, deu-me uma chinelada na cabeça. Seu desejo - bem o senti - era matar-me. Gritando, fujo a correr, assim como estava, de camisola e descalça, para casa da avó. Enorme confusão! Meu pai aí me deixa e se vem com a bruxa para aqui, Dili.  Aqui, nasce minha meia irmã, a Melita, que me odeia. Não fala comigo. Dá beliscões em Isabelinha.
Falavas... Falavas...
Eu, com seis anos, mãe morta, um pai que me abandona! Dias felizes vieram. Beto, meu primo, vem morar com a gente. Ele com dezesseis anos; eu com quinze. Quatro anos de felicidade e amizade. Fomos amigos de coração. Só Beto me compreendia. Um dia também ele se foi. Aos dezenove anos incorpora-se no exército, vai para Angola. Que ganharia muito dinheiro. Me chamaria. Quê! Em menos de um ano, junta-se a uma preta... Deixa de me escrever. De novo, sozinha. Quase morro de tanto abandono e desamparo. Domingos aparece e foi aquela tragédia.
Falavas... Falavas...
Nossas mãos, pousadas sobre a mesa, continuam enlaçadas e íntimas. De mim nada perguntas. Porém, teus olhos, quentes e dados, me expressam teus estranhos sentimentos. Bem os sentia, ora íntimos e agressivos, ora distantes e vibrantes num desprezo pela vida, pelos outros, por mim, por Isabelinha, por todos. Fazias-me sentir, desejar e ser o teu Beto, tua mãe, teu pai. Magda a abandonada, Magda a sem ninguém - penso.
Falavas... Falavas...
Há uns meses “aquela otária sem vergonha” aparece-me em casa. Que devia entregar a Isabelinha para Domingos criar.  Pego na menina e venho para esta Dili, esta cidade parada no tempo. A otária, o Domingos, que venham por ela a Timor! A menina há-de seguir a sorte da mãe. Nem que a jogue, comigo, do Paredão do Farol para as águas do mar.
Magda, as asas da alma não serviam para voar!

3 - Terça-feira
Dia seguinte. As minhas cinco horas te viram chegar, envolta num lindo vestido branco, o sorriso tão íntimo como frio, para novo encontro. Pela mão trazias os seis anos tristes de Isabelinha. A mesma mesa. O china proprietário do café, esborrachado na cadeira, a trabalhar sobre papéis; muito mesureiro para as nossas chegadas. De novo, desprendeste Isabelinha. Nossas mãos se enlaçam apressadas, nervosas, comunicativas. Mais que na tarde anterior, me inundas de sentimentos distantes, quentes e vibrantes.  Teus momentos de longos e repetidos silêncios me fazem intuir que vives dum amor que foi e já não é. Teus olhos eu os via adormecer em êxtases de amor. “Magda, a que vive o encanto dum passado presente e futuro” - penso.
Falavas... Falavas...
O corpo de Beto é sepultado no Cemitério dos Prazeres, de Lisboa. Que sepultado nem coisa nenhuma! Olha, Beto... Meu Deus, e eu a chamar-te de Beto... Olha, quando o caixão chega, um tio da gente nota um estranho ruído. Desconfiado, abrimos o caixão. Dentro, apenas pedras envoltas em jornais e panos velhos. Eu quase morro de tristeza. Beto trocado por pedras e panos velhos. Um nosso tio vai a Lisboa. Mandam-no calar. Que fechasse o caixão e o enterrasse. A avó, desde esse dia, vai definhando.
Falavas... Falavas...
Às vezes, era a saudade e a raiva de mistura, ao recordares teu Beto morto em Luanda numa briga de militares embriagados. Daí o teu eterno horror aos militares de Timor que preenchiam o tempo com cerveja e mulheres, essas nonas vestidas de lipas, uns grandes panos ou toalhas, atados por debaixo dos braços. A cada nona o militar dá uma choupana no Bairro da Colmeia e dinheiro bastante para comprar o milho amarelo na Casa Agacem. Contas-me o caso do alferes que os chinas esfaquearam em desagravo duma mocinha china por ele seduzida.
A noite avança. Convidas-me para continuarmos na grande mesa de pedra do quintal da casa de teu pai. Quintal apenas. Nada de entrar em casa. Não daria para termos encontros com as duas. Mesmo que o pai convide. Saímos do café. O china, proprietário do bar, também muito mesureiro para a nossa saída. Tua mão, conduzindo os seis anos tristes de Isabelinha. Tua outra mão, enlaçando minha mão.  No grande quintal da casa de teu pai, a mesa de pedra nos recebe, quente e ampla, sob uma grande e frondosa mangueira. Próximo, a cocota crocitando impertinente em seu poleiro, preso ao tronco da árvore. Isabelinha atira-me os braços e, beijo rápido, corre para casa. Teu olhar, que a segue, entristece e entristece também os meus sentimentos. Vai pra Melita! - dizes com muita tristeza.
Teu pai, avisado por Isabelinha, apresenta-se:
- Sou professor de matemática no Liceu Nacional de Dili.
- Eu vim passar a minha licença graciosa, aqui, em Timor, e regresso a Angola na próxima segunda-feira - lhe disse.
Breve e rápida conversa entre nós dois. Que estivéssemos à vontade; poderíamos entrar, ficar na sala, dentro de casa. Mandaria o criado, o mainato, nos servir um lanche. Bondoso, se retira. Teus sentimentos, Magda, lhe pediam essa conduta.
Sós, eu e Magda, frente a frente. A cocota crocitando. Uma noite muito quente, mas ventilada por aragem suave vinda da Praia do Farol. Nossos olhares se cruzam. Nossas mãos se enlaçam sobre a mesa. Meu beijo o recebeste amorosa e pronta. Logo, porém, sinto te volvias para longe, para teu fantasma, que parecias ver, tocar e sentir. Intuí claramente que eu, a continuar com meus afagos, seria engolfado na distância inerte do teu fantasma de amor. Eu seria o teu Beto.
 Só o Beto fôra bom para comigo. Ensinou-me a nadar na piscina comunitária. Com ele subia as figueiras. A casa da minha avó, e avó dele, era a casa de nós dois. Prendia-me com uma linha à perna da mesa e eu tinha de ficar ali enquanto ele ia à venda fazer compras para a avó. Beto era bom como tu és. Assim como tu. Beto! Beto! Beto!
Falavas... falavas...
Beto, sempre o Beto. Mais uma vez e sempre tuas quebras na fala, teus olhos parados e fixados em visão anterior, me dizem cada vez mais que vivias num encantamento por um objeto passado, agora teu presente e teu futuro.
Magda, as asas da alma não serviam para voar!

4 - Quarta-feira
Dia seguinte. As mesmas cinco horas, a mesa e o china fazendo contas. Magda trazendo pela mão os seis anos tristes de Isabelinha. Exótico e estranho teu vestido muito azul. Isabelinha, negando-te a mão, me procura para um beijo e corre para a rua.
Falavas... Falavas...
Olha, Beto, quando o tufão virou o barco, eu nunca mais pude olhar para as águas do Tejo. Fugia delas. Sentia que elas me queriam arrastar para dentro do rio. Não, não era bem assim. Eu é que sentia uma raiva tão grande que não sabia como fazer para as morder. Sabes, Beto, às vezes, me parece que eu devia dormir sobre as águas do Tejo, dormir nelas, que a alma de minha mãe está chamando e chorando pela minha volta.
Falavas... Falavas...
Eu sei lá! Aquele barco virado por um tufão?! Sei lá se foi assim ou se foi a bruxa gorda que o virou para se apoderar de meu pai. Ai, Beto, aquele dia em que descobri que meu pai andava namorando com ela, chorei uma noite inteira. Uma voz me dizia vai pra tua mãe. Quando cheguei aqui, logo meu pai me levou à Praia do Farol, pra que eu visse o Paredão, que olhasse bem pra o Ataúro, aquele penhasco pedregoso que parece um casco de barco de quilha para cima. Hoje, e lá vão dois meses, me parece que foi a bruxa gorda que mandou fazer tudo aquilo para dizer-me que as ondas me estão chamando, que eu me vá para as águas onde minha mãe está esperando por mim. O Paredão! Achei tão lindo aquelas águas refervendo e batendo mansas mansinhas contra a pedra e logo se desfazendo em mil uma rendas como se fossem um vestido de noiva. Certamente eram assim as águas, trazidas pelo tufão que virou o barco de minha mãe.
Levantamo-nos. Continuaríamos na mesa do quintal da tua casa. Nossas mãos enlaçadas. Isabelinha enlaçada na outra tua mão. Chegamos. Teu pai, avisado pela chegada de Isabelinha, logo nos veio, amigável, cumprimentar. Senti-o muito contente. Insinuei sentasse num dos bancos da mesa de pedra. Tu não querias. Senti que isso não era teu desejo, pois uma onda de tristeza te ensombrou o rosto. Breve se retira. Mandaria o mainato com uma bebida.
Nos sentamos lado a lado. Nossas mãos se unem mais ainda. Meiga e quente rolas docemente no meu peito. Dormes em teu silêncio. Teu peito arfando. Teus olhos fixados nesse objeto distante, longínquo, bem amado. Tuas mãos apertando as minhas mãos e puxando como se com elas pudesses trazer o teu Beto que pairava nas distâncias sem tempo.
Magda, irei segunda-feira. Tenho de ir. Tenho pena de partir. Levo saudades desta terra, desta cidade, de ti, das tuas mãos tão carinhosas e vivas. Despedir-me-ei destas terras, deste Farol, deste mar.
- Deste mar, Beto, deste que é o mar-mulher, mas para mim é o mar das águas mansas, o mar de minha mãe, o mar-minha mãe.
- E mar das águas refervendo no Paredão e batendo manso mansinho e logo se desfazendo em mil uma rendas.
- Beto, leva-me contigo... Leva-me contigo...
O mar de Angola é suave como este mar. Também há praias, Farol, paredões, fortalezas que falam dos portugueses de outrora...
- Beto-me, leva-me contigo.
Mais uma vez a frase te escorrega, suplicante e amorosa, dos teus lábios. Tuas mãos se tornam mais intensas. Teu silêncio mais quente  e arfante.
Magda, as asas da alma não serviam para voar!

5  - Quinta-feira
Nosso dia seguinte. As mesmas cinco horas, a Isabelinha que trazias pela mão, a mesa e o china fazendo contas.
Magda vem renovada. Bem arrumada. Olha-me e se expande naquele silêncio que ela tão docemente sabe criar e tornar atraente. Propus-me falar-lhe de Angola. Benguela, a cidade onde vivo, também tem mar, suas águas mansas como estas também batem e refervem nos paredões.
Beto me escrevia muitas coisas de Angola. Falava dos macacões que podiam partir um homem ao meio. E daquele Senhor Santos com sua grande fazenda. Vem o tempo da banana madura. Senhor Santos põe, nas mãos do negro Camundongo, uma espingarda para escorraçar a tiros a macacaria. Mal o Senhor Santos se retira, a macacaria corre para o bananal. O negro os persegue. A macacaria, mais veloz, vai para a outra ponta do bananal. O preto cansa de persegui-los. Quando, porém, Senhor Santos chega e toma em suas mãos a espingarda, a macacaria foge para o morre e, parada e fixa, espera que a espingarda volte às mãos do preto para voltar ao bananal. Até o macaco sabe que o branco é agressivo. Não gosto de Angola. Amo o Paredão, o Farol, as águas fervendo e ficando como rendas de noiva. Hoje, Beto, um medo estranho aparecendo. O Ataúro como sendo a cabeça de um adamastor, estendendo seu braço por debaixo das águas para pegar a gente que vai pro Paredão. Estranho!
Sinto que Magda tem pressa de irmos para o aconchego da mesa de pedra do quintal da casa de seu pai. Nem aceitas uma visita ao quarto 5 do Hotel Mimosa em que me hospedava. Não querias. Meu pai me propôs eu ir com Isabelinha residir nesse hotel. Hotel?! Nem Hotel nem coisa parecida. Um corredor comprido, alpendrado, com suas quinze portas, cada uma sendo a entrada para um quarto. Uma única janela, ao lado da porta, e com tela para impedir a entrada do mosquito.
Mesa do quintal. Eu e Magda, sentados lado a lado. De novo, as nossas mãos se engolfam uma na outra. Sua cabeça rolando no meu peito e sua mão puxando como se com elas pudessem trazer o teu Beto que pairava nas distâncias sem tempo.
- Beto, leva-me contigo.
Mais uma vez a frase te escorrega, suplicante e amorosa, dos lábios. Tuas mãos se tornam mais intensas. Adormeces em teu silêncio.
Magda, as asas da alma não serviam para voar!

6 - Sexta-feira
As mesmas cinco horas. Isabelinha que trazias pela mão, a mesa e o china fazendo contas. Aceito o convite de teu pai para, sábado, dia seguinte, almoçar com eles. Mostrei-me agradecido e satisfeito. Pela primeira vez entraria em tua casa, estaria entre teus familiares, tua irmã, tua madrasta. Magda, porém, entristece. Meu contentamento a maltrata. Isabelinha toma a tua bolsa e a abre. Quer mostrar-me, ela-mesma, as fotos que dela trouxeste de Portugal. Levanta-se da cadeira e mete-se, pronta, entre meus joelhos. Uma nova onda de tristeza invade Magda. Alheia de mim e de Isabelinha, evade-se para a distância. Era como se não pudesse perder um instante de estar em comunicação comigo. Isabelinha passa vagarosa a meia centena de fotos. Olha-as, aponta com o dedo as pessoas e me diz os nomes. Após, fecha os álbuns e vai para a rua.
Achamos por bem sairmos. A mesa de pedra é mais aconchegante. Mais nossa. Caminhamos para tua casa. Isabelinha liberta-se de tua mão e agarra-se à minha. Esta alegria da menina sinto que te deixa tristérrima. Mais uma vez sinto que teu silêncio não pode nem deve perder um momento de silêncio comigo. Chegamos. Isabelinha, rápido, me abraça, ergue o rosto para um beijo e retira para casa. Magda lhe olha a retirada, olhos caindo em profunda tristeza: vai pra Melita!
Nosso encontro na mesa de pedra sob o véu frondoso da mangueira; ao lado a cocota atenta para nós.
Sentados. Nossas mãos pousam sobre a mesa de pedra e se enlaçam. O mainato, descalço e bem dado como todo o timor, traz um lanche cuidado e fértil. As horas por nossa conta. Magda, um aperto na minha mão e se afunda no bem-estar do silêncio. A presença de Beto lhe borboleteia nos lábios. O Beto que meu pai, minha mãe, meu irmão, o amigo, o confidente. Beto, quando te despedias de mim para embarcares para Angola, eu sabia que ias morrer. Eu sentia que ias de uma vez para sempre. Eu sabia que não voltarias. Já quando ias de barco a Lisboa, eu escondia-me debaixo da figueira do eirado, rezando pra que nenhum tufão te virasse o barco. Te vais, Beto, segunda-feira. Sei que não mais voltarás. O que eu pressinto sempre acontece. É como se o meu sentimento acabasse por fazer as coisas. Se penso no Paredão tenho de ir ao Paredão. Tenho de ir - ela repete e por momentos se cala.
- Beto, leva-me contigo.
Mais uma vez a frase te escorrega, suplicante e amorosa, dos teus lábios. Tuas mãos se tornam mais intensas. Adormeces em teu silêncio. Te acaricio o rosto.
Magda, as asas da alma não serviam para voar!

5 - Sábado
Jantar em casa dos familiares de Magda. Sinto-me recebido como um velho amigo da família. O pai de Magda apresenta-me sua esposa e sua filha Melita, jovem de 19 anos. Agradece-me a ajuda que vinha dando a Magda.
Magda não tomaria parte na refeição. Ela nunca toma parte nas refeições de família. Passa os dias no quarto. Sempre segurando a mão de Isabelinha. Diz que a tia, a Melita, dá beliscões na menina e que a sua esposa a quer envenenar. Só no primeiro dia falou com as duas. A esposa, chorando, acha-se culpada por, no primeiro dia que veio para casa de seu marido viúvo - já lá se vão mais de quinze anos -, lhe haver dado uma inocente chinelada na cabeça. A então Magda, menina de seis anos, rejeitando o primeiro afago da madrasta, chama-a de bruxa gorda e a morde furiosamente, o que indignou os olhos bondosos do pai.
Ao lado, a madrasta, chorosa e muito culpada. Tristeza e angústia pesando-lhe imenso.
Quis tratá-la como uma filha. Não foi possível. Há dois meses que Magda chegou a Timor. Vem pra minha casa. Faço tudo por ela. Apenas no primeiro dia fala comigo e com Melita. Logo nos passa a desconhecer. Tranca-se no quarto a que só o pai tem acesso. Sempre com a filha presa à sua mão. Quando vem, aqui, à sala, à cozinha, a traz pela mão. Desde ontem, sexta-feira, após a sua saída, renunciara a comer. Parece alucinada. Sempre repetindo leva-me contigo, leva-me contigo.
Sugiro que gostaria de ir até ao quarto de Magda. Seu pai logo me deixa à vontade. O bem que eu lhe fizera com o apoio dado à filha. Que eu durma em sua casa. Poria até uma cama no quarto dela, da minha filha.
Nos momentos que passei com Magda tremi de mim mesmo. O negro fantasma que ela, desde o primeiro encontro, me transmitia, senti-o mais que nunca ameaçador. Para esse fantasma, se volvia constantemente, alienando-se de tudo, do quarto, da conversa, de mim. O seu objeto encantado - o seu Beto. Os momentos de lucidez os alternava com referências à minha partida dali a dois dias. Seus olhos fixando-se em Beto e sua boca pronunciando palavras que, ao mesmo tempo, se referiam a ele e a mim e ainda me tocando, me buscando o afago, o olhar, o toque. Sempre me chamando de Beto. Sempre o encantamento - dizia para mim mesmo.
- Beto, leva-me contigo.
Levanto-me da cadeira para sentar-me na cama, junto dela. Magda, sentindo-me o corpo e os afagos, fecha os olhos, balbucia frases e palavras. Beto, leva-me contigo. De quando em vez, meus afagos a trazem à realidade. Aperta-me a mão. Olha-me. Logo lhe volta a estranheza do encanto. Num momento em que seus olhos brilham para os meus, ainda lhe sinto captar minhas palavras.
- Estás bonita, Magda. Essa camisola de folhagens azuis fica-te muito bem.
- Esta camisola comprei-a quando noivei com o Domingos, para ser usada no dia do casamento. Comprei-a com o dinheiro de Domingos, escolhia-a com o pensamento em Beto e vesti-a, hoje, a primeira vez, com o pensamento em ti, Beto. Amorosamente, volve-me os olhos quentes e macios. Recolho sua cabeça em meu colo. Terrível este encanto amoroso. Sabe que não sou Beto mas seu sentimento me converte em Beto - penso comigo.
Magda, a segunda-feira exige que eu me vá para Angola. Vou pra minha cidade de Benguela, também uma cidade que a presença portuguesa ali ergueu. A cidade de São Filipe de Benguela é muito parecida com esta Dili. Não te esquecerei. Escrever-te-ei e... até pode ser que te decidas a vir para junto de mim. Vais gostar das coisas lindas daquela terra... das minhas caçadas pelo interior, em Dombe Grande e nos territórios de ex-Nova Lisboa.
Sinto que Magda nada escuta do que lhe digo. Ou então me escuta dando novos sentidos às minhas palavras. Num momento do muita lucidez, sinto-a reagir. Tira debaixo do travesseiro o seu diário:
- Beto, leva a única coisa que tenho mesmo minha. O meu diário. É para ti.
Entrega, sorri e abandona-se ao meu colo.
- Leva contigo...
Leva-me contigo...
Leva-me...

Sua cabeça desliza do meu colo; suas mãos amortecem entre as minhas. Adormece.
 Instantes imediatos, sinto-a adormecida. Saio do quarto. Compartilho a refeição com seus pai, madrasta e Melita que me esperavam. Isabelinha no colo de Melita transbordava de contentamento. A madrasta, ansiosa por mais informações minhas, traz a refeição para a mesa e, mais uma vez, derrama lágrimas culpadas. Só o contentamento de Isabelinha alivia as tensões.
Magda, as asas de alma não serviam para voar!

6 - Domingo.
Véspera da minha partida. Fim da tarde. Precisamente, cinco horas. Magda não virá para o encontro habitual no Café Cong-Lock. Sinto-me inquieto. Foi num domingo - domingo anterior a este - e a esta mesma hora, que nos vimos a primeira vez. O china proprietário esborrachado na cadeira, militares cavaqueando, nonas passando e espreitando e... a mesa. A nossa mesa aqui está, feia e silenciosa. Não mais entrarei neste café!
Deixo o bar. Dirijo-me para o hotel. Sento-me no murozinho da varanda do Hotel Mimosa. Relembro, reestruturo  as palavras de Magda. Será que ela no seu refrão do leva-me contigo, me pedia que a levasse ao Paredão? Levanto-me inquieto, vagueio pelas ruas. Inadvertidamente estou na Praia do Farol. A brisa é morna. Um luar esbranquiçado caía do céu. Subo na plataforma, anexa ao Paredão. Em baixo, os rolos de água rolam e correm por sobre as águas e embatem na forte penedia que os velhos portugueses dos descobrimentos ali implantaram para a eternidade. As águas fervem e refervem, fremem e rugem contra o paredão ameiado e sombrio. Só ali o mar é fundo, agressivo, violento. De fato, as ondas se desfazem em fios de espuma que lembram rendas. Não mais estarei neste lugar!
As palavras de Magda afloram-me: Nem que me jogue do Paredão para as águas do mar... Tremo e não sei por quê. Olho atentamente para as espumas de rendas como se nelas boiasse o corpo de Magda. Tremo. Sentimentos tétricos surgem dentro de mim. No meio das águas, ligeiramente à direita, o ilhéu Ataúro. Não! Ataúro não mais parece um casco de barco naufragado, mas a cabeça de um monstro. Um monstro e seu braço vem agarrar o corpo de Magda. Grito para mim: Não! Não! Não mais olharei para esse monstro! Não pegarás o corpo de Magda. Não lhe tocarás sequer com um dedo.
Desço a plataforma, atravesso a faixa da praia, avanço para a marginal. Eis-me em frente à casa de Magda. O portal do quintal meio aberto. Assim ficava toda a noite. Entrar?! Recuo. Era tarde. Nenhuma luz acesa na casa. Avanço. Não mais verei esta casa! Inconscientemente, sinto-me a querer ficar ali, junto à porta aberta, a ir sentar-me na mesa de pedra do quintal.
 Raiva desconhecida contra mim. Por que não vim mais cedo. Magda vai morrer! - dizia para mim mesmo.
Ah, Magda, as asas da alma não te serviram para voar!

7 - o sonho
Manhã. O mainato bate à porta do quarto do hotel. Quase sete horas. A hora marcada para lhe pagar os serviços prestados de criadagem e me levar a parca bagagem para o aeroporto. Preparo-me rapidamente. Abro-lhe a porta. Ele entra. Vem pesado como uma barra de chumbo. Entrega-me uma embalagem e uma carta. Patrão, estavam na porta pelo lado de fora. É de Magda. Reconheço-lhe o diário e uma carta. Não há tempo de ler. Guardo-os. O mainato põe à cabeça a bagagem. Sigo-o. A ambulância militar corria apressada pra a Praia do Farol, esguichando um som estridente. Um grupo de timores nos olhando. O mainato troca palavras em tétum com eles e me diz: mar-mulher matou mulher e uma criança. Seguimos, rápido, para resgatar o atraso.
Aeroporto. A avioneta, alapada na terra batida, espera pelos sete passageiros, para alçar voo em direção ao Farol e daí, sobre o mar, voar até Baucau. Apenas eu faltava. A avioneta alça voo. Olho as águas batendo sobre o Paredão. Hotel Mimosa, Café Cong-Lock, Magda - tudo fica para trás. De Baucau, mais duas horas sobre o Mar de Timor, far-me-ão aterrar na Austrália, precisamente na cidade de Darwin. Depois virá a longa viagem de longas horas pelo interior da grande ilha. Duas horas da madrugada. Eis-me ancorado no Imperial Hotel, da cidade de Perth. Estou cansado. Deito-me. Adormeço.
Acordo repentinamente. Horror! Um sonho horrível desfila no meu cérebro: um adamastor feio, dentes amarelos, emerge das águas. Sua mão de unhas aduncas, movida por enorme braço, cresce, avoluma-se e toca num objeto flutuante. O objeto ganha forma e se torna um corpo, muito branco, de mulher. Com um vestido de folhagens azuis.
Acordo. Salto da cama. Magda matou-se. A carta! A carta! Acendo a luz. Revolvo tudo, mala, sacola, algibeiras... As mãos tremem. Abro-a. Dentro apenas um bilhete com algumas linhas:
- Beto, foi bom não me teres buscado. Estou linda com minha camisola de folhagens azuis. Vou-me com Isabelinha para as águas do Paredão. Envio-te o diário que esqueceste na sala de jantar. Quando teu avião levantar voo, olha para as águas do Paredão. Ver-me-ás dormindo sobre as águas. Um beijo da tua já morta Magda.
Mais um fantasma sepultado na minha alma.
António Soares
Enviado por António Soares em 10/11/2007
Código do texto: T731570

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Sobre o autor
António Soares
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 83 anos
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António Soares