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DEPOIS DE AMANHÃ

   De costas um para o outro, pelados, as carnes brancas e nuas na laje fria do chão, as mãos buscaram-se, buscaram-se e assim se encontraram, apertaram-se firmes, trouxeram as pernas junto ao peito e assim formaram um dabliu humano.Assim eram unidos mudos naquela atmosfera quente daquele domingo de novembro.
   A lâmpada apagada pendia de um fio empoeirado e era quase como uma teia de aranha naquelas telhas barrocas.
   O eco de ofegar era um silencio perturbador.
   _ Pablo, o que te digo agora, perguntou o mais frágil dos dois.
   Pablo, que esquecia o cabelo alvoroçado assim suando, sorriu sem resposta que soubesse.
   _ Não diga nada, nada Érico, aperte minhas mãos forte.É provável que com o costume passemos a esquecer todo dia.
   Os olhos piscaram miúdos olhando o calor como uma tela incolor que ganhava cores, que os envolvia; Érico sentia a sua costa colada a costa de Pablo pelo suor pegajoso.
   Havia uma ampulheta parada na poeira da abobada da casa, ali se acumularam os fragmentos das frases que foram dizendo e ao longo do tempo esqueciam.
  Que horas seriam? A pergunta estava na mente dos dois dentro de um único balão com uma seta para cada um.
   O desinteresse pelo mundo lá fora fazia um mundo nascer ali dentro, um mundo de translação, sem movimento, mas não havia como negar as palavras cimentadas na parede da memória, e assim havia um interesse extra dali.
   Como: Que horas seriam?
   As mãos se prenderam como teias, linhas de crochê, que eram tão lindas de observar.Ah, sim as palavras cimentadas na parede da memória.
   _ viver é um assassinato a cada dia, Érico – e Érico podia sentir imaginando os lábios rosados de Pablo se mexendo ao falar, mas assim que se fixara na parede já não sabia mais se fora durante ou bem depois.
   _ Assassinamos o próprio ato de ter certeza.Porque tudo é tão rápido.
   O suor grudara mais forte os unindo ainda mais, chegara as assobiar ou era parecido com um assobio.
   _ Mas não parece rápido, não parece rápido agora, Pablo.
   _ Mas assim que não nos vermos mais hoje vai ser quase como se nada tivesse acontecido.
   Érico quase podia acreditar, mas ele vagava lento, e o êxtase daquele instante o apelava para um sentimento imundo a si mesmo.Procurava se distrair se achando imundo, devasso, impróprio para seus pais, para sua avó que tecia as linhas do crochê, mas ainda porque se achava felizmente tolo, vão, perdido na docilidade de quem não se cabe nos eixos do dia.Assim cimentado na parede da memória os olhos como bolas de gudes, os da avó, o observando com as mãos tremulas que seguravam a agulha, todavia isto vinha em palavras que eram escritas com movimentos mais rápidos que o piscar de olhos.
   O ar era quente, imóvel a própria respiração de ambos, o suor que os grudara, e no silencio maior entre eles quase podiam acreditar que a brisa batia os punhos desesperados na porta.
   _ Você não está arrependido? Foi a pergunta tremula de Érico com grandes, velozes piscadas de olhos, enxergando no verbo dos movimentos as mãos veiosas e tremulas na agulha.
   _ Como poderia me arrepender... – E demorara num suspiro até concluir:
   _ ... Se descobri em mim você.Somos como bárbaros descobrindo uma nova era de civilização.
   Aquilo ficou ecoando dentro da pobre cabecinha, talvez dos dois, as mãos cada vez mais atadas, as costas aderidas, e soava como um murmúrio dentro de uma caverna, fremindo teias de aranha argentinas por suas juntas.
   Pingou o silencio longamente como uma queda de uma só vez, e o grande dabliu humano, as carnes brancas e nuas sobre a laje fria do chão.
   O suor já escorria em caldos progressivos e inundava o nicho do dabliu humano, mas o tempo decorrido era curto, apenas um instante, era sorvido com força e era preciso que fosse cada vez mais demorado.As mãos pareciam jamais se separarem, e sentiam um o ofegar do outro pelo dorso.
   O calor fez estática e o que Pablo falou em seguida saiu fraco:
   _ Somos namorados, cara, somos namorados.Poucos como nós pode ter está felicidade de admitir.
   Em algumas palavras da oração, Érico teve a impressão, talvez apenas a impressão de ter ouvido uma silaba a menos.
   Era uma prova de resistência como o dia que se entrega a monotonia de achar-vivendo a monotonia no clímax: vovó trabalhando num casaco de crochê.
   _ Duas agulhas é tricô ou crochê? Ele, Érico indagara, e olhando dentro dos olhos de vidro da velha pode saber que ali começava um sorriso.
   _ você ainda é uma criança – era a voz seca da velha, passando a mão cheia de veias nos seus cabelos.Embora parecesse ontem podia ter sido há bem um tempo atrás.
   _ Tem certeza que vou esquecer a cada dia mesmo que repita? Perguntara Érico, desfazendo o dabliu, esticando as pernas de canelas compridas.
   Pablo virou-se de todo para ele, colou seu rosto no dele, os narizes muito juntos, a respiração quente compartilhada, os olhos imensos de cada um assim bem de perto.
   _ Você consegue sorrir – disse apenas cheio de gemido.
   _ Sim, consigo – disse mesmo sorrindo, achando engraçado o rosto do amigo tão perto.
   _ Já podemos recomeçar porque já foi assassinado.
   Érico deu um soluço tartamudo que era e parecia um sorriso e deixou o corpo ir a queda por sob o mais forte, e sentindo a respiração quente, provocante tão próximo ao seu rosto afogueado, indagou sereno como dois toques num teclado de um piano:
   _ Mas um assassinato é uma morte horrível, não se pode esquecer Pablo.
   A voz de Pablo saiu quente e convincente a definir:
   _ Faça de conta estando mesmo bem real onde estamos...
   E antes de tapar-lhe a boca com a sua num beijo concluiu:
   _ ...no Brasil, no Brasil!



                               ***************


Rodney Aragão, 15 de outubro de 2007.  
Rodney Dos Santos Aragão
Enviado por Rodney Dos Santos Aragão em 10/11/2007
Código do texto: T731731

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Sobre o autor
Rodney Dos Santos Aragão
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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Rodney Dos Santos Aragão