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          NO CIRCO .

 

    O dia estava preguiçoso e abafado. Não soprava uma só brisa e o curioso é que apesar do tempo nublado fazia muito calor .Era
um feriado prolongado que terminava com o Dia da Criança. O Dia da Criança é uma data interessante, principalmente para quem não tem dois afilhados com cinco e seis anos e que não fez nem nunca fará promessa de levá-los a um circo. 
    Mas vamos ao lado positivo da coisa. Quando era criança eu gostava de circo e ao contrário de outras crianças não tinha medo dos palhaços. Ficava sim, fascinado pelas equilibristas e trapezistas. Depois de adulto fui ao circo duas vezes : numa delas cochilei de tão sem-graça que era o espetáculo e no outro fiquei decepcionado com as gordurinhas da trapezista.

    Hoje seria diferente. Ia com a patroa e duas crianças e talvez, quem sabe, um pouco de nostalgia me fizesse bem. Poderia comer uma maçã do amor, um saco grande de pipoca doce e se fosse meu dia de sorte, as trapezistas seriam lindas. Não sei o que seria dos circos se não houvesse trapezistas lindas. Elas fazem mais falta que palhaços que contam piadas sem graça.

     A sessão começava às 16 horas e resolvemos sair mais cedo de casa para comprarmos os ingressos dos melhores lugares. O plano era ficar o mais perto possível do picadeiro, ao lado da rampa que conduzia a saída. Simples, simples.

     Chegamos, não ao circo mas na enorme fila de carros para entrada no estacionamento e
a idéia que faço de fila é a de uma pessoa atrás da outra ou um carro atrás do outro, entrando um de cada vez. Ninguém cedia a vez mas também ninguém saía do lugar civilizadamente.

     Estava um pouco complicado porque todos queriam entrar ao mesmo tempo e o que aconteceu? Buzinas frenéticas, estresse, calor, xingamentos, buzinas frenéticas, estresse, xingamentos, calor uma batida dos dois carros da frente, mais discussão, buzinas frenéticas e finalmente entramos....no estacionamento, com estresse e muito calor. O consolo para a complicação inicial, esperava eu, é que as trapezistas fossem lindas.

    Apesar de tudo conseguimos um bom lugar .Não exatamente na primeira fileira, mas um pouco mais ao fundo. Dava para ver bem e portanto, fingi que não estava entendendo as reclamações da patroa e das crianças. É bem verdade que tinha um casal de senhores idosos e muito gordos na nossa frente , mas não custava nada esticar o pescoço só um pouquinho. O calor sufocava e havia um burburinho de pessoas falando alto e ao mesmo tempo .
    Depois que um vendedor de pipoca passou duas fileiras a nossa frente o caçula decidiu que queria um saco grande . Não tinha como chamar o vendedor e o jeito era pedir licença, incomodar meia dúzia de pessoas e comprar a pipoca lá fora .Ainda bem que o espetáculo não tinha começado e por via das dúvidas, depois de enfrentar uma fila reduzida, que não deixava de ser fila, voltei com dois sacos grandes.

    Tudo certo? Não ! Um deles não queria pipoca, queria maçã do amor e a patroa não queria pipoca, queria um copo d'água. Não sabia o que fazer ! O olhar dos três me convencera e para evitar quaisquer problemas, iria lá fora novamente.

     A questão era como sair do meu lugar sem incomodar meia dúzia de pessoas . Além do mais, o espetáculo começaria a qualquer momento. Faria o seguinte: pediria desculpas a cada um dos assistentes, avisaria que seria pela última vez, apresentaria meu melhor sorriso e ficaria tudo bem. Com certeza ! Meu melhor sorriso não conseguiu desfazer o mau humor deles e outra vez, esperando que fosse a última, incomodei meia dúzia de pessoas. Não sei se incomodar seria o termo correto para o que proporcionei àquela gente.

    Ainda estava segurando um dos sacos de pipoca, que consegui derrubar no colo da mulher que me olhava com a expressão mais zangada. Na hora fiquei em dúvida se deixava a pipoca no colo da mulher ou não. Continuei em frente, sem olhar para trás, mas ainda em tempo de ouvir um leve resmungo, misturado com xingamentos clássicos.

    Neste momento as cortinas se abriram e entrou no picadeiro uma bandinha, com sete ou oito músicos tocando uma marcha animada mas desafinada. Um dos instrumentos era uma enorme tuba.

    Gostaria de entender porque alguém é escalado para tocar tuba numa bandinha. Só pode ser castigo, para quem toca e para quem ouve. Ainda com tal pensamento fui em busca da maçã do amor e do copo d'água ,que não tive nenhuma dificuldade de encontrar.

    O problema maior seria voltar para o meu lugar. A fisionomia daquela meia dúzia de pessoas me deixara um pouco assustado. Mas eu tinha que voltar e então decidi o seguinte: para agradar a todos, levaria um saco de pipoca para cada um e tudo ficaria bem. Mesmo porquê, segundo meus planos só me levantaria novamente quando o espetáculo terminasse.

   Agora imaginem a cena : eu, com pressa de voltar para para o meu lugar pois queria mesmo era ver as trapezistas e segurando seis sacos de pipoca grandes, uma maçã do amor e um copo d'água gelada para a patroa. Os palhaços já estavam no picadeiro, o mestre de cerimônias fazia as apresentações, a bandinha para alivio de todos parara de tocar e eu, procurando aparentar tranquilidade, me aproximei da fileira onde estavam a patroa , as crianças e meia dúzia de pessoas que seriam incomodadas.

    Pedi licença e à medida que avançava, fui dando um saco de pipocas para cada um até chegar ao meu lugar. Não ouvi nenhum resmungo , mas consegui surpreendê-los. Tanto, que uma das senhores, justamente a que estava na ponta, gritou-me:
-Moço, desculpe, mas não posso comer pipoca. O senhor se importaria de trazer um copo d'água, por favor ? Era o fim. Os palhaços continuavam no picadeiro e nem sinal das trapezistas

   Como tinha incomodado aquelas pessoas e justamente a tal senhora fora a que mais reclamara, achei que não custaria nada ir lá fora novamente, trazer a água. Ficaria bem com ela e certamente daria tempo de voltar para ver quem eu realmente queria.

    Na lanchonete tinha três tipos de água: sem gás, com gás e com gotas de limão (última novidade). Não foi difícil optar pela água sem gás, até porque era a que estava mais gelada, segundo o vendedor. A senhora ficou satisfeita quando lhe entreguei o copo e disse-me:
-Moço me desculpe. Mas só tomo água mineral com gás. Meu médico me receitou. E já que o senhor vai lá fora, poderia trazer um também para o meu marido?
Confesso que fiquei aterrorizado ! Não, fiquei gelado ! Não me custava voltar lá fora novamente. A questão era uma só: e se eu perdesse o espetáculo das trapezistas ? Bom, pensei, se ainda não tinham armado a rede, não estava na hora das meninas aparecerem. Voltei a lanchonete, fiz o pedido, trouxe os dois copos de água mineral com gás , dei para a tal senhora que nem agradeceu, novamente incomodei meia dúzia de pessoas e consegui chegar ao meu lugar, com o casal de gordos bem na minha frente.

    No picadeiro estava um homem que chicoteava um casal de leões. Não sei se ele era um domador ou um despertador de leões, pois as feras continuavam deitadas, espreguiçando e bocejando. A platéia delirava e justamente neste momento, meu afilhado mais velho, sem qualquer acanhamento ou pudor disse em voz alta que queria fazer cocô. Era só que me faltava.

   Olhei desesperado para a patroa mas não adiantou nada . Ela estava distraída não sei se com os leões ou com o domador. Peguei a mão do garoto, levantei-me, mais uma vez incomodei meia dúzia de pessoas e saí em direção ao banheiro, que para variar, tinha uma pequena fila. Quanto mais o tempo passava mais preocupado eu ficava. E se quando voltasse já tivesse terminado o número das trapezistas ?

    O garoto demorou muito mais do que eu poderia esperar, muito mais do que o normal, mas final mente reapareceu. Peguei na sua mão e tentei rapidamente voltar para meu lugar. Só tentei, por que justamente naquela hora ele pediu para comprar mais pipoca, desta vez de sal. Nova fila e na minha vez, decepção, não tinha pipoca de sal, só tinha doce. O menino insistiu que queria pipoca salgada e resultado, tive que esperar.

   Voltamos ao nosso lugar, novamente incomodamos meia dúzia de pessoas e quando finalmente me sentei, a patroa me disse : “Você precisava ter visto as trapezistas, estavam lindas!”. Vocês sabem o que é receber um balde de água fria bem no meio da testa ? Não, não sabem! Agora, o resto não me interessava mais.

    Estava à disposição para comprar pipoca, água mineral com gás, levar as crianças ao banheiro, incomodar meia dúzia de pessoas, qualquer coisa. É como eu defendo: existe alguma coisa mais interessante num circo do que as trapezistas ? Não, é claro que não.

    O espetáculo terminou logo depois. Ao sair não precisei incomodar mais ninguém para passar e portanto, antes de pegar o carro, resolvi ir ao banheiro. Estava frustrado, um pouco irritado. Lavei as mãos e o rosto devagar, fiquei alguns minutos pensativo e como não tinha mais jeito, resolvi sair.

    A patroa me recebeu com uns folhetos nas mãos exclamando: “Adivinha quem estava distribuindo estes folhetos ? As trapezistas “.

    De fato, não era o meu dia de sorte. O importante é que tomei uma decisão: quando for e se for novamente ao circo vou sozinho e só para só prestar atenção nas brincadeiras sem graça dos palhaços e nos leões.

 

                              *************




(.....imagem google.....)

WRAMOS
Enviado por WRAMOS em 10/11/2007
Reeditado em 05/01/2013
Código do texto: T732183
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
WRAMOS
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 72 anos
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