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O violino encantado

*Publicado na Antologia Amor, sublime amor da editora Litteris em março/2006.


Numa pequena cidade, um jovem muito rico costumava usar as manhãs do primeiro domingo de cada mês, para ir até um abrigo de velhos e tocar para eles. O jovem Pedro tocava violino.
Logo cedo, após o café da manhã, os velhinhos se arrumavam com as roupas puídas e como se fossem a um grande concerto, se posicionavam elegantemente em cadeiras plásticas postas numa garagem coberta, onde acontecia o momento, mais alegre do mês para eles.
Por volta das 9:00 horas da manhã, quando todos já estavam acomodados, após falar com cada um deles, dando-lhes beijos e abraços carinhosos, o jovem Pedro começava a tocar. As músicas eram algumas de folclore, outras conhecidas e a melhor parte era quando tocava uma música antiga, que todas as velhinhas tentavam acompanhar. Muitas já não conseguiam lembrar da letra; os anos já não permitiam que a memória lhe desse mais essa alegria. Mesmo assim, ainda balançavam as mãos e a cabeça, como se embaladas pelos sonhos de um passado mais feliz. Ele sempre procurava aprender alguma canção mais antiga para fazer uma surpresa.
Pedro percebeu que aquela alegria era algo tão puro, tão sublime, que resolveu ir mais um domingo no mês.
Os caminhos do destino e do amor são mesmo imprevisíveis.
Não era apenas o jovem Pedro que tinha um bom coração e fazia a alegria dos velhinhos nas manhãs de domingo.
Com esta mesma prática existia uma linda jovem, que usava cadeira de rodas, vítima de uma paralisia infantil. Nos últimos domingos de cada mês, ela levava o costureiro para o abrigo e se dispunha a cozer e fazer enfeites nos vestidos das velhinhas. Muitas vezes, além de linhas coloridas, agulha, botões e pedaços de tecidos, também levava ao abrigo roupas usadas, que para aquelas vovós eram como vestidos de festa.
Num domingo de dezembro, próximo do Natal, Pedro e Isadora escolheram o mesmo dia para irem visitar os velhinhos do abrigo. Ela desde cedo estava aprontando as roupas de natal para as vovozinhas. Ele surpreendeu a todos quando entrou fantasiado de papai noel, tocando gingo bell no violino.
Por alguns segundos, Isadora olhou sorrindo para o violinista; por outros segundos, Pedro ofuscou-se com brilho dos olhos da costureira.
Naquele mesmo natal, iniciou-se o amor, um sublime amor, que já dura vinte anos. Muitos daqueles velhinhos já se foram. Outros continuam chegando.
Agora não existem somente os domingos de alegria; agora todos os dias são festivos. O jovem Pedro comprou o abrigo que é administrado com carinho por Isadora.
Para aqueles velhinhos, todos os dias restantes de suas vidas, serão iguais. Coloridos como os vestidos da jovem costureira e alegres como as músicas do violino encantado.
Henrique Gondim
Enviado por Henrique Gondim em 11/11/2007
Código do texto: T732239
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henrique Gondim
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 52 anos
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Henrique Gondim