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UM DIA MUITO INSÓLITO



Solicito uma informação ao guarda que não me ouve ou faz ouvidos moucos. Observo algumas pessoas com flores e velas para lá e para cá. Faz-me necessário localizar um endereço que não tenho a mínima idéia de onde fica. Não conheço este lugar, nunca estive aqui antes, que me lembre. As pessoas parecem  zumbis,   andares  retos,  sem sinuosidade nos passos.

Entro num estabelecimento comercial, ninguém me olha,  nem ouço conversa. O zunido do silêncio atordoa-me. Peço uma xícara de café. A atendente,  tal qual o  guarda, não me ouve.  Será  que  sou   tão imperceptível assim!? Gritar, não vou. Não quero chamar a atenção de ninguém. Tentarei outro atendente. Agora, um senhor de um aspecto mal-humorado com cara de ser o dono do comércio.  Foi  pior  ainda, este não deu o mínimo do mínimo para mim.  Saio. Afinal, há  muitas lanchonetes pela cidade.

Ando, ando.  Paro em um bar com poucas pessoas.  Preciso  tomar agora água,  estou com uma baita sede.  O  dia  está com   um  sol escaldante. Pergunto gentilmente se tem água mineral. Desconfio que só eu ouço a minha voz nesta cidade.  Não sou ouvido. Muito menos notado. Insisto desta vez. Debalde. Não  sinto  vontade de persistir.  Uma sensação de vazio me apodera. Olho  para os lados, todos estão consumindo alguma coisa. As expressões lúgubres chamam-me a atenção.

Retorno à rua.  Os caminhos estão cada vez mais diversificados.  Sigo a multidão aleatoriamente. Tenho a sensação de não  sentir os meus pés. Quero chegar a um ponto qualquer. Distante, sinto-me cada vez mais. O sol já se pondo. Preciso descansar. O movimento de carros e pessoas é tenso. Não vejo uma praça, um assento  para   colocar as idéias em ordem. A sede aumenta. Olho para os lados.  Sinto-me em um deserto cheio de oásis, mas inalcançáveis.

Ameaço   obter  informações às pessoas que passam por mim. Não consigo,  pois,  pronunciar   sequer a  primeira  sílaba.   O que está acontecendo com este povo que só caminha, não ouve, não vê e não emite voz alguma?   Minha  vontade  imediata é de gritar o mais alto possível. E é o que  vou começar  a fazer.  Emito  sons rasantes e o efeito é o mesmo. Nulo. Parece que fico cada vez mais invisível. Estou bem acordado, na realidade, decerto.  Ou não?  Por que não estaria? Todos estão aí, é uma cidade como qualquer outra, apesar da estranheza desta gente.

Deus dos céus! Já não sei para onde quero ir. Que cidade é esta? Teria perdido a memória, fugido de algum hospital? Perdi o meu rumo. Minha cabeça começa a fagulhar uma dorzinha lá fundo. Preciso comprar um remédio antes que esta dor aumente. O meu dia não foi nada agradável. Nossa mãe! Só me faltava esta! Agora percebo que no meu bolso não tem dinheiro, nem documento, nada. O que faço numa cidade onde ninguém me ouve, nem me vê?

Não posso me afobar. Calma! Aquela senhora a de me ajudar com alguma informação. Epa! Onde está a mulher? Num piscar de olho... Deve ter virado a esquina, provavelmente. E o que será que aquele homem está fazendo dentro daquele caixão numa calçada. Bizarro, estaria pedindo esmola, e o que é pior: dentro de um caixão. Não tem aparência de mendigo. Coisa mais surreal. Cruz-credo! Vou me encostar a um canto qualquer, não agüento mais o cansaço. Depois vou ver se há algum abrigo aqui por perto. Não posso passar a noite ao relento com sede, dor de cabeça e a fome que já dá sinais.

Acordo com várias pessoas ao meu redor. Viro de um lado e de outro. Todos com olhares concentrados direcionados a mim. Quando dou por conta, vejo-me dentro de um caixão. Saio rapidamente. Indago,  sem que ninguém me responda, para variar.

Caminhos sem direção me levam. Olho para  trás e todos continuam absortos defronte  ao caixão.

Marcos Arrébola
Enviado por Marcos Arrébola em 12/11/2007
Código do texto: T734182
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Sobre o autor
Marcos Arrébola
Serra - Espírito Santo - Brasil
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Marcos Arrébola