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Carta anônima

                                                       

Vossa Excelência,

  Passava das dez da noite. O frio dilacerava a epiderme, e a chuva derretia os cabelos em caldas como de chocolate. Passeava ela pela rua vazia e eu a via dessa forma tão crua. Sim, ela era bela como aquela lua que não se via naquela noite.
  Da janela do apartamento, com um cigarro pela metade e uma garrafa de vinho, esquivava-me com a intenção de descrevê-la, sem que ela se tornasse modelo intencional.
  Já sumia na forquilha da esquina, quando, de súbito, um homem agarrou-a, começou a gritar com ela, olhos nos olhos. Algo me deu em idéia, queria descer e ajudá-la; mas, logo, desisti por covardia.
  Assisti a toda a cena. O homem alto, moreno de tipo avermelhado, com os cabelos crespos e pretos, e braços fortes estapeava a moça de maneira muito agressiva. Parecia sentir ódio daquela pessoa especificamente.
  Dado momento, bateu-me a consciência e liguei para a polícia. Enquanto eles não chegavam, a violência continuava. O homem já passara dos tapas para o estupro. Aquela cena provocava-me asco, mas nada podia fazer, morreríamos juntos (algo que seria até Romântico).
  Enfim, por volta das 23h37min, chegava a polícia cheia de suas caras e cassetetes. Aos berros, no mesmo nível de agressividade do criminoso, começaram a tortura, que parecia de costume. A garota chorava num canto, encostada na parede do boteco do seu Nestor – os homens haviam esquecido da menina e descarregavam suas idiossincrasias no criminoso. Não que o bandido não merecesse, mas o motivo que os fez interromper seu café com bolinhos – a menina – havia sido deixado de lado.
  Depois de muito espancarem o homem, colocaram-no no camburão. Tranqüilo, ia dormir, quando percebi que o destino da menina só mudara de mãos. Os “heróis policiais” deram por continuar o serviço do bandido. Estarrecido (mais uma vez) assistia àquela velha cena de novos atores com o velho asco de forma nova e a mesma covardia de sempre.
  Acompanhei o espetáculo até o fim. O fim foi o fim. Sim, eles a mataram e jogaram-na no rio. Depois, forjaram o suicídio do bandido e fizeram parecer que ele havia matado a garota, colocando-o próximo à margem do rio – ainda com um agravante: trocaram fotos dos dois nas respectivas carteiras, para que houvesse a idéia de que eles fossem íntimos.
  Olhei-me no espelho depois de tudo e indaguei: “_Arrependido?” Qual o quê? Não estava arrependido. Não fui eu que cometi o crime, cumpri meu papel de bom cidadão ligando para a polícia e, se não fosse por mim, senhor juiz, Vossa Excelência não saberia que quem estuprou e matou sua filha foram membros da corporação.

Meus mais sinceros pêsames.
Anônimo.
Raul Furiatti Moreira
Enviado por Raul Furiatti Moreira em 13/11/2007
Reeditado em 27/11/2008
Código do texto: T735147

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Sobre o autor
Raul Furiatti Moreira
Descoberto - Minas Gerais - Brasil, 29 anos
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