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CARIDADE DE NATAL

O Natal sempre mexeu com seus sentimentos. Ele ficava mais calmo, sereno, caridoso. Não que não fosse assim todos os dias, em qualquer época do ano, mas no Natal ele ficava mais caridoso e emotivo. Realmente, o clima era outro.

Mas ele também sentia mais tristeza. Olhava para as crianças sentadas nas sarjetas pedindo esmolas e queria levar todas para casa. . Sabia que sua esposa, igualmente caridosa, não se importaria. Mas ele tinha consciência que eles não possuíam condições para cuidar de todas as crianças pobres.

Os velhinhos nos asilos, solitários, também o emocionavam. Ele nunca esqueceria da vez em que visitou aquele asilo e conversou com vários moradores, em especial uma senhora de noventa e nove anos que, ao final da conversa, lhe disse que em quase trinta anos, ele era a primeira visita que ela recebia. E disse também que em quase cem anos de vida, ele era a pessoa mais caridosa, de bom coração, que ela conhecera. Ele se emocionou muito, quis chamá-la de mãe, mas ele já tinha mãe. Por sinal, ele amava muito sua mãe. E ela o amava. Mas mesmo assim, sentiu um carinho de filho por aquela senhora no asilo.

E ele pensava muito também nas famílias desestruturadas, em que maridos alcoolizados e violentos batem em suas esposas e filhos. Sempre imaginava que no Natal, época tão feliz, essas famílias deviam sofrer ainda mais. E ele sofria junto. Logo ele, um homem que desde sempre teve família unida e feliz, passava dias maravilhosos, especialmente na época do Natal. Chegava a sentir até uma pontada de culpa por ter tanta felicidade enquanto outros sofriam. Se fosse possível, ele aceitaria dar boa parte da sua felicidade para as outras pessoas.

Pensava também nos animais. Nos animais abandonados pelas ruas, mas também nos animais que tinham casa, porém sofriam maus tratos de seus donos. Aliás, ele era contra a idéia de alguém se considerar “dono” de um animal. Sempre que ele pensava nisso, olhava para o cachorro que ele adotou, um animal carinhoso e que parecia ter assimilado bem o espírito de felicidade e carinho que reinava naquela família. Ele nunca se dizia “dono” daquele cachorro, mas sempre apresentava o animalzinho como membro de sua família.

E agora, às vésperas de mais um Natal, ele está sofrendo, mesmo imerso em tamanha felicidade que sua vida lhe proporciona. Quer desesperadamente fazer alguma coisa (coisas, na verdade) para aliviar o sofrimento do mundo. Porém, sabe que é impossível.

Mas nesse ano, ele acha que encontrou uma solução, precária, é verdade, mas que pode ajudar algumas pessoas. Precária porque terá um alcance reduzido, não vai beneficiar todo o mundo, mas somente algumas pessoas. Entretanto, é melhor do que nada.

II

Saiu na rua, em uma tarde chuvosa de Dezembro. Encontrou, assim que chegou ao centro da cidade, várias crianças dando continuidade à sua vida de sofrimento. Segurou as lágrimas ao ver aquelas pessoinhas andando e implorando para os transeuntes comprarem uma balinha. Ele tinha muito claro na cabeça o que deveria fazer, e com certeza, não era comprar balinha nenhuma, mesmo porque isso não resolveria o problema daquelas crianças. Ao invés de comprar balinha, ele conversou com cada criança que encontrou. Sentiu ainda mais forte dentro de si o sofrimento delas. E convenceu-as a segui-lo, dizendo que ele resolveria os problemas de suas vidas. Algumas ficaram desconfiadas, demoraram a entrar em seu veículo (um utilitário onde cabiam muitas pessoas). Outras crianças foram embora, não quiseram acreditar nas suas palavras. Ele as compreendeu. Afinal, o mundo ensinou a elas que quase não existem pessoas bem intencionadas. Mas ele tinha fé que, na próxima vez em que ele as encontrasse, elas se convenceriam.

Quando não havia mais espaço para ninguém no veículo, ele parou de recolher crianças (provisoriamente, pois logo voltaria e pegaria mais). Foi embora para casa.

Chegando lá, foi recebido com toda a alegria e felicidade pela sua amada esposa e pelo lindo cachorrinho membro de sua família. “Quanta felicidade!” pensava ele “eu não mereço isso, enquanto tanta gente é solitária, não tem a sorte que eu tenho”.

Assim que viu o veículo cheio de crianças, sua esposa se assustou. Perguntou-lhe o que ele estava fazendo. Ele disse que tinha encontrado uma maneira de acabar com o sofrimento daquelas crianças, nesse Natal e nos demais que viriam depois. Disse isso sorrindo, enquanto sua esposa assumiu um ar de preocupação. Ela lhe disse então que eles não tinham condição de cuidar daquelas crianças e que, além disso, elas certamente tinham família, de modo que eles não podiam ficar com elas em casa. Ele respondeu, compreendendo a preocupação de sua caridosa esposa, que sabia disso e que não pretendia adotar aquelas crianças. Mas aproveitou para dizer que certamente as famílias daquelas criaturas inocentes eram pessoas desprezíveis e que pouco se importavam com seus filhos.

Sem dizer mais nada para a esposa, ele se dirigiu às crianças e mandou-as entrar em casa. Eram vinte e três crianças, que entraram em sua casa sorrindo. Ele se emocionou com o sorriso delas.

Olhou para a esposa e pediu para que ela as levasse para o quarto do casal , no andar de cima do sobrado, e fechasse a porta. Ela disse que tanta gente assim, ficaria todo mundo mal acomodado num espaço tão pequeno. Ele riu e respondeu que não era pra acomodar ninguém, mas somente ficarem lá enquanto ele preparava tudo. Logo todos sairiam e iriam para um lugar melhor, onde só haveria felicidade.

A esposa tentou esconder seu ar de preocupação e de dúvida. Achou melhor obedecer, para ver o que seu marido estava planejando.

Assim que ela e as crianças entraram no quarto, ele foi até o quintal e apanhou os galões de gasolina que havia comprado na véspera, especialmente para essa ocasião. Espalhou gasolina pela casa toda, sempre acompanhado pelo feliz cachorro. Ao subir para o segundo andar da casa, trancou com chave o quarto onde estavam sua esposa e as crianças. Espalhou gasolina no andar de cima também.

Depois, saiu da casa. Olhou uma última vez para a janela do quarto, onde viu os rostos de sua esposa e de algumas das crianças que ele levara até ali. Apesar das grades que havia na janela, ele pôde ver muito bem aquelas faces, em especial a face amada de sua esposa, pessoa que era tudo o que ele tinha de mais precioso e feliz nessa vida. Ainda teve tempo de ver os lábios dela se mexendo para perguntar o que ele iria fazer.

Ao invés de responder, ele acendeu um isqueiro e arremessou na parede de fora da casa encharcada com gasolina. Em poucos segundos, o sobrado estava em chamas. O fogo se espalhou rápido. Enquanto via o incêndio se alastrar, ele sorria e de vez em quando olhava para o cachorro ao seu lado. Dizia ao animal que aquelas crianças não iriam mais sofrer nesse mundo podre. Não iriam mais precisar vender balinhas no centro da cidade. Disse também que, a partir de agora, ele não se sentiria mais tão culpado por ser feliz, já que um dos motivos maiores de sua felicidade – sua esposa amada – iria embora também. Afinal, como ele sempre dizia, não era justo ele ter tanto enquanto outros não tinham nada ou quase nada.

III

Quando os bombeiros chegaram, o fogo já havia consumido toda a casa. Não houve sobreviventes. Ele leu isso no jornal do dia seguinte.

Também leu que a polícia está investigando o caso, que certamente foi criminoso. Quando leu esse trecho da notícia, ele se irritou. Como poderiam chamá-lo de criminoso? Ele fez o bem para muita gente!

Lembrou-se da velhinha no asilo, que lhe disse que ele era a pessoa mais caridosa, de mais bom coração que ela já conhecera. Sorriu ao lembrar-se disso. Fechou o jornal, atirou-o no chão da praça, ao lado do cão, seu fiel amigo que o acompanhava, e levantou-se.

Afinal, o que importava se a polícia o chamou de criminoso? Ele era caridoso. Fez uma grande caridade de Natal e estava preparado para prosseguir, pois ainda havia muita gente sofrendo neste mundo.
Vitor Souza
Enviado por Vitor Souza em 15/11/2007
Código do texto: T738110

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Sobre o autor
Vitor Souza
Piracicaba - São Paulo - Brasil, 38 anos
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