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Filmes da minha vida

            Recebi o aviso de que seria pai na saída do trabalho. Ela passou pra me pegar, pois só estávamos com um carro e ela precisou do veículo para ir ao médico. Não sabia da sua intenção de ir ao ginecologista. Telma me omitira tal informação. Também não a inquirira, não quisera ser invasivo.

            — Que foi? Não gostou? — perguntou ela diante de meu espanto. Certamente minha face empalideceu.

            Nem respondi. Peguei-a no colo e comecei a girá-la de tanta felicidade. Eu não cabia dentro de mim mesmo. Meu coração parecia querer sair pela boca, da qual não saía nada que se pudesse entender.

            Dentro de poucos minutos passou um filme em minha mente, o filme mostrando desde o dia em que nos conhecemos: aquela jovem delicada, cheia de qualidades, educada e linda passando em frente a minha casa, toda faceira, como se desfilasse para uma platéia toda atenta. Não pude deixá-la passar sem notar a minha presença, só de pensar que não a veria mais, meu corpo respondera com um empurrão (in)voluntário para a passarela. Dei-lhe uma cantada sem noção, como ela me relatara depois; tive de concordar, mas surtira o efeito esperado, já que minha futura mulher não virara as costas para mim.

          Depois do encontro no “desfile”, começamos a nos ver na praça próxima à minha casa. Conheci sua família e tudo avolumou-se: ficamos noivos, marcamos a data do casamento. Eu me sentia homem. Enfim, podia  viver tudo que meu sábio e querido pai me dizia desde criança.

         Até o casamento, o tempo parecia estar sob o domínio de algum deus grego desejoso de que a boda chegasse o mais depressa do que o normal, talvez uma espécie de vingança ante minha rebeldia em querer minha emancipação.

         A cerimônia religiosa, após a cível, transcorrera tudo como programado, bem como o que veio na seqüência: novo apartamento, novos amigos... Por fim, eu tinha uma família, mesmo que composta de minha adorável esposa e eu, mas éramos uma família feliz.

        Quando me dei conta, já estávamos em casa. Telma, ligando para seus pais dando-lhes a boa nova. E eu absorto em júbilo. Mas parecia que algo estava escrito em algum céu dizendo que felicidade demais não poderia fazer parte de nossas vidas.

        Dois meses depois de passada a euforia da primeira possível maternidade, minha esposa começou a ter crises de histeria, acredito que não estivesse tão bem preparada para ser mãe, também não sei quando uma mulher se sente preparada para essa função tão nobre e, ao mesmo tempo, tão dolorosa e dificultosa.

        Com seis meses de gravidez, Telma sofreu um aborto involuntário. Nosso mundo tinha acabado. Não sei se mais o meu, o de quem tinha tanta votante de ser pai e anunciava a plenos pulmões o que estava prestes a acontecer dali a três meses, ou se de Telma, que se culpava pelo ocorrido; não havia palavra que a consolasse.

         O deus  grego, que outrora forçara a passagem do tempo, fez o inverso. Os minutos pareciam séculos. Minha doce menina, que desfilara única e exclusivamente para mim, agora se acabava em lágrimas em um leito frio e insosso de hospital, isso quando não estava em estado mórbido. Isso por longos quatro meses. Algumas pessoas, leigas no assunto, disseram que ela ainda estava sentindo a presença do bebê no ventre.

         Não tivemos força para superar tamanho baque. A separação foi inevitável.

        De repente, eu me vi sentando na saída do meu trabalho, no mesmo lugar em que há poucos anos eu senti uma das maiores alegrias da minha vida. Agora, porém, eu só conseguia rememorar tudo aquilo em filmes fragmentados na minha mente.


José Augusto G. de Almeida
José Augusto
Enviado por José Augusto em 15/11/2007
Reeditado em 18/06/2008
Código do texto: T738736
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Sobre o autor
José Augusto
São Paulo - São Paulo - Brasil, 43 anos
38 textos (1144 leituras)
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