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Amor feito força - III

David acabou de tomar o pequeno-almoço um pouco à pressa, tinha curiosidade em falar com Brandão, começava a simpatizar com aquele companheiro, saíram do refeitório e puseram-se a caminhar em redor do campo de futebol existente no pátio anexo aos pavilhões onde pernoitavam os reclusos.
- Então tu andas nesta vida desde os dezasseis anos?
- Fiz o meu primeiro roubo quando tinha nove anos, roubei a caixinha das esmolas lá da minha terra, o padre acabou por descobrir e fui parar a uma casa de correcção.
- Com nove anos?
David estava estupefacto, nunca lhe passara pela cabeça que alguém pudesse andar tanto tempo pela vida do crime.
- E a tua família?
- Eu não conheci o meu pai, a minha mãe fartava-se de trabalhar e não tinha tempo para se preocupar comigo, por isso foi um alivio, para ela, a minha ida para a casa de correcção.
- Quanto tempo lá estiveste?
- Pouco tempo, fugi de lá. A comida era pior que sei lá o quê, fartava-me de trabalhar e levava porrada de três em pipa.
- Então e depois?
- Ora, fui para casa da minha mãe, voltei a roubar e voltei à casa de correcção, voltei a fugir e por aí fora.
- Olha, vamos sentar-nos ali no muro da capela, gostava de ouvir o resto da tua história, se quiseres contar.
- A minha história é toda igual, roubos, prisões, roubos, prisões. A tua deve ser bem mais interessante.
- Vamos, eu conto-te.
Entretanto Susana retirava o telemóvel da sua mala e ligava ao pai:
- Pai, ouve-me, eu vou chegar um pouco atrasada, depois conto-te tudo. Não saias daí, vou tentar não demorar.
Fazia figas para que surgisse um táxi, começava a ficar nervosa, via o tempo a passar e ainda tinha uma longa caminhada pela frente. Suspirou quando viu um táxi a aproximar-se, fez sinal mas o carro vinha ocupado, sentiu-se como que a desfalecer, voltou a fixar o olhar no ponto de onde poderia vir um outro táxi, nem se apercebeu que o táxi anterior fazia marcha-atrás.
- Desculpe menina, para onde vai?
Era a passageira do táxi quem a interpelava.
- Vou para a estação, tenho lá o meu pai à espera, estou super atrasada.
- Venha daí, vou para lá perto.
Entrou no táxi e contou o que lhe acontecera no táxi anterior, a sua providencial companheira de viagem, tal como o taxista, não queria acreditar no que ouviam. Chegaram à estação e quando quis pagar a viagem foi impedida de o fazer pela sua salvadora, recebendo desta um cartão de apresentação pessoal, agradeceu a ajuda e guardou o cartão, nem o leu, saiu do carro e correu ao encontro do pai. O táxi arrancou.
Isabel adormecera encostada à avó.
-Vó, vó.
Era o pequenino Francisco.
- Oh meu lindo, venha cá à sua avó.
Puxou o neto para a cama e deitou-o no lado oposto àquele em que se encontrava a irmã. Pouco depois estava também a dormir, dona Glória olhava-os embevecida, eram os seus tesouros.
Ao mesmo tempo que David se preparava para falar de si ao companheiro, depois de este lhe contar mais alguns episódios de roubos e de internamentos em casas de correcção e da sua primeira prisão, com apenas 16 anos, Susana chegava junto do pai:
- Pois é meu companheiro, eu também sou filho de gente pobre, meu pai trabalhou durante anos numa fábrica da zona da Figueira, está reformado, e a minha mãe era costureira, teve de se deixar disso por causa da vista, eu nem imagino os sacrifícios que eles devem ter feito para que eu continuasse a estudar.
- Desculpa pai, mas quando te contar o que me aconteceu compreenderás.
- Mas amigo, tu ao menos tens uma família. Eu não tenho ninguém.
Susana começou a contar ao pai tudo o que passara, e foi então que resolveu ler o cartão que a passageira do táxi lhe dera, leu em voz alta:

“Joana Viana de Melo”
     Advogada

Ficou estupefacta, Joana Viana de Melo era uma das mais prestigiadas advogadas de Coimbra, sempre ouvira falar dela, já desde os seus tempos de faculdade, tinha aliás trabalhado sobre livros dela.
- Já ouviste falar dela, pai?
- Claro que sim, Joana Viana de Melo é uma referência da vida Portuguesa.
- Dizes bem, tenho uma família, tenho uns pais adoráveis, uma esposa que me dá todo o apoio, dois filhos maravilhosos e uns sogros que são como uns segundos pais para mim.
- Os teus filhos sabem que estás preso?
- Não, a minha esposa mudou-se para Coimbra, logo que fui condenado, como é lá professora, eles não desconfiaram, pensam que estou a trabalhar no estrangeiro.
- Mas assim é pior, qualquer dia descobrem e revoltam-se por lhes terem mentido.
- Tenho esperança que toda a verdade se descubra antes de isso acontecer.
- A tua mulher acredita que és inocente?
- Nunca pôs isso em causa, nem ela nem os meus sogros.
- Adoras os teus sogros?
- Se soubesses como. Não direi que adoro tanto os meus sogros como adoro os meus pais, mas anda lá perto.
- E os teus pais, sabem a verdade?
- Sim, os meus sogros e a minha esposa têm-lhe dado todo o apoio.
- Mas afinal o que é que te aconteceu? Estás preso porquê?
David percebeu que o companheiro não o acusava de nada, sentiu-se confiante para lhe falar um pouco mais de si.
- Então meus dorminhocos, hoje não tomamos o pequeno-almoço?
-Sim, sim.
Dona Glória levantou-se, vestiu um lindo roupão de seda, abriu a porta do quarto e chamou:
- Lourdes, vem cá por favor.
- Diga, senhora.
- Leva as crianças e arranja-as para que possamos ir tomar o pequeno-almoço.
Esperou que a empregada levasse as crianças e só depois se foi arranjar e vestir.
- Pai, achas que não vamos ter problemas para entrar.
- Não. Os cartões de visita já devem estar tratados, se não estiverem têm de nos deixar entrar na mesma.
- O advogado que arranjaste é de lá perto?
- Pelo menos tem escritório lá na terra.
Calaram-se durante algum tempo, o carro rolava a boa velocidade, tinham de recuperar o tempo perdido com o episódio de Susana.
- Sabes que quando comecei a namorar com a minha esposa, eu tinha medo que aquilo não desse nada, ela pertencia a um mundo completamente diferente do meu, tinha até medo que os pais dela descobrissem o nosso namoro, mal sabia eu que ela já lhes contara.
- Mas os teus sogros têm dinheiro?
- Sim. O meu sogro é um conhecido cirurgião.
- Como resolveste as coisas?
- Foi a Susana, um dia disse-me que queria que eu a acompanhasse a um sitio, disse que era mistério, foi uma quarta-feira, lembro-me como se fosse hoje, saímos da faculdade ao meio dia, fomos apanhar o comboio para a Figueira, eu sabia que ela morava lá, mas nunca me passou pela cabeça que me fosse apresentar aos pais, ela sabia que se mo dissesse, eu entraria em pânico, já tinha ouvido falar do pai dela.

(Continua)

FrancisFerreira
FrancisFerreira
Enviado por FrancisFerreira em 16/11/2007
Reeditado em 20/01/2008
Código do texto: T740165

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Sobre o autor
FrancisFerreira
Portugal, 58 anos
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