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       SALÃO DE BELEZA . 

    Há tempos não encontrava o Carlinhos, amigo de infância , colega de escola e companheiro de farras e traquinagens. Foi um reencontro agradável e depois de alguns chopes, muita conversa fiada, fatos relembrados, várias piadas e muitas risadas ele me convidou para visitá-lo em seu local de trabalho. 
    Deu-me um cartão de visitas onde se lia: “CHARLES, COIFFER”. No primeiro momento não acreditei no que estava lendo mas entre risos e novas piadas ele confirmou que agora era cabeleireiro de madames .
    Vou confessar uma coisa: nunca tinha ido, jamais me interessei e nunca prestei a atenção num salão de beleza. Não que eu não tenha um pouquinho de vaidade, mas o fato é que não fazia a menor idéia do que acontecia no interior de um salão.
     Estou sendo sincero. Achava que aquilo era coisa só de mulheres. Estava curioso e com um sorriso de pequena ansiedade prometi a mim mesmo que iria visitá-lo na primeira oportunidade. 
     No dia seguinte lá estava eu diante de uma enorme porta de vidro fumê, bem no centro de uma parede decorada com pedras cor-de-rosa. Cor de rosa ? Sim, eram mesmo cor-de-rosa. Entrei, com ar desconfiado. O salão era enorme, todo rodeado de espelhos, com várias moças uniformizadas, de cor rosa, naturalmente, a um canto uma espécie de sala de visitas com um conjunto de sofás confortáveis, com uma mesinha de vidro no centro onde se viam varias revistas. Todas as cadeiras estavam ocupadas , três ou quatro mulheres faziam ou pintavam as unhas (não sei bem qual a diferença) e pelo menos umas cinco ou seis aguardavam a vez.
     Em principio não vi o Carlinhos e quando já estava quase me convencendo que tinha entrado na porta errada, meu amigo surgiu , vestido com uma calça branca impecável e uma camisa de seda, bem chamativa, de cor ...rosa. 
     Tive vontade de rir, mas pensei melhor e fiz cara de quem não estava entendendo mas estava gostando. Salão de beleza que se preze tem que ter o seguinte: mulheres, naturalmente todas falando ao mesmo tempo e alto, muita fofoca, aparelhos e máquinas que mais parecem instrumentos de tortura chinesa, câmaras de suplício e cadeiras que as vezes te deixam deitado de frente a um espelho, com um jato de água fria na sua cabeça. 
    O Carlinhos me abraçou, falou uma ou duas coisas que não consegui entender bem por causa do falatório, chamou uma das moças que estavam vestidas de cor-de-rosa e deu instruções que continuei não entendendo bem por causa do falatório (já disse isso). A moça pegou delicadamente no meu braço e levou-me até uma daquelas cadeiras que te obrigavam a ficar meio deitado, meio sentado, com a cabeça numa coisa parecida com uma pia ou bacia . 
    Fez uma pergunta que continuei não entendendo bem, desta vez por que ela falava baixinho e ligou um chuveirinho que jorrou água morna na minha cabeça. Espalhou um creme branco nos meus cabelos, que até tinha um cheiro muito bom, enquanto tentava me dizer alguma coisa que terminava com a palavra unha.
   De fato , logo percebi uma outra moça sentada do meu lado direito, que pegou uma de minhas mãos com toda delicadeza e começou a massageá-la para em seguida passar um líquido parecido com leite condensado nas minhas unhas. Esqueci de dizer que antes , com uma lixa própria para raspar madeira ( não ficaria surpreso se fossem daquelas que são muito usadas pelos marceneiros) acertou a ponta das minhas unhas. Deve ter ficado satisfeita pois em seguida pegou um alicate ameaçador e apontou diretamente para o meu polegar.
   Não pude ver o que ela estava fazendo porque neste momento caiu um pouco de sabão líquido ou shampoo, sei lá, nos meus olhos. Perdi a noção do tempo que fiquei ali deitado. Só sei que depois da tortura das unhas fui convidado a sentar numa das cadeiras de frente para um enorme espelho, ao lado de duas senhoras que gritavam uma para a outra.
    Não estavam brigando, era o barulho do secador de cabelos que as impedia, digamos assim, de conversarem racionalmente. Uma delas falava do marido e a outra, pude perceber, também falava.    Ambas falavam mal dos dois. Quer melhor lugar para falar mal e reclamar dos maridos do que num salão de beleza ? Uma delas tinha uma revista nas mãos e de vez em quando dava um suspiro.     Disfarçadamente olhei para a revista, e percebi que era uma daquelas que só tem homens nus ou semi-nus. 
     Súbito ouvi um barulho estranho, como se fosse um pequeno jato decolando. Era só outro secador de cabelos. As duas mulheres continuavam gritando e uma delas, a da revista, deu outro suspiro e comentou que homem era tudo igual, mas aqueles da revista era só fechar os olhos e pegar qualquer um ,que estaria ganhando na loteria, ainda que fosse só por uma ou duas horas. Que loucura! 
   Num dos cantos do salão uma mulher morena, longos cabelos conversava com outra um pouco mais jovem, fazendo gestos incompreensíveis e em seguida colocou as mãos na cintura. Sem mais nem menos começou a balançar suavemente e aos poucos foi aumentando o ritmo daquela dança sensual, acompanhada atentamente pela mais jovem. Ela, que me pareceu ser uma grande especialista, só estava ensinando a dança de ventre. Que espetáculo! 
    Entre prestar a atenção no que estavam fazendo com meu cabelo e observar atentamente as duas dançarinas, me perdoem, preferi prestar atenção a dança e nas duas dançarinas. 
     Finalmente tinham acabado o serviço. Até que não ficou ruim. Levantei-me da cadeira, procurei pelo Carlinhos e enquanto não o via , prestei atenção na forma como as clientes eram torturadas pelas atendentes. E o interessante é que pagavam por isso. 
    Uma delas, repousava numa cadeira com uma espécie de toalha no rosto, duas outras estavam com as cabeças enfiadas num enorme capacete de metal e plástico, onde só se via do pescoço para baixo. Soube depois que era apenas um outro tipo de secador de cabelos. 
    Ouvi outra comentar que iria para uma espécie de box , com uma cortina de plástico, fazer uma seção de depilação. Vestida naquele roupão felpudo parecia que tinha acabado de sair do banho.
    Soube por uma das atendentes que era uma noiva que se casaria naquela tarde , já estava no salão há mais de cinco horas e ainda ia demorar muito mais. Não entendo as mulheres. Tanto sacrifício, tanta tortura e quase nunca ficam satisfeitas. Elas adoram reclamar.
   O Carlinhos finalmente apareceu. “E aí, amigo, gostou ? Não se preocupe que tudo foi cortesia. Mas diga lá, do que você mais gostou ? “ 
   Olhei para um lado , olhei para o outro e tive uma enorme vontade de dizer que o que mais me agradou, sem nenhuma dúvida, foi a dança do ventre.
    Mas para não perder o amigo respondi: ”Quer   saber ? Gostei de tudo“

 


                           *************




(.....imagem google.....)

WRAMOS
Enviado por WRAMOS em 18/11/2007
Reeditado em 05/01/2013
Código do texto: T742366
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
WRAMOS
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 73 anos
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