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Cachorros Perdidos

Cachorros perdidos passeavam sem destino na frente da casa, arrastando coleiras que não os prendiam mais a nada.

Deixou a navalha lamber sua cabeça enquanto fios longos de cabelo e memória abraçavam suas costas ou o chão. A barba também já não tinha mais. Caíra com as últimas lágrimas. Não tinha sido apenas pessoal, como pensaram. Ele apenas fez o que tinha que ser feito. Nunca matara ninguém antes. Ninguém humano, pelo menos.
Despediu-se do pai e do avô sem nada dizer acerca de seus motivos. Avisou apenas que partiria no último trem da tarde. O que fosse necessário saber, eles descobririam sozinhos. E além do mais, todos na cidade já sabiam que a cidade estava agora sem xerife. Talvez, ou melhor, provavelmente, por isso mesmo ninguém tinha aparecido ainda pra perturbar sua tarde. Na sacola, algumas roupas, mantimentos e as armas. Sem saber bem porque, resolveu seguir o conselho dela desta vez. Talvez porque não esperava escutar nunca mais qualquer coisa que saísse daqueles lábios. Não queria lembrar, mas não teve como evitar.
“Não vá armado para a cidade, filho, deixe essas pistolas em casa.”
 Definitivamente, nunca mais deixaria as armas em casa.

Não teve como evitar lembrar de sua mãe. O olhar em seu rosto, mistura de vergonha e medo. O sangue quente subindo à cabeça. A mão do xerife procurando a arma ainda no coldre preso ao cinto espalhado com o resto das roupas dele e de sua mãe pelo chão. Mas sua arma estava pronta em sua mão antes mesmo que pudesse pensar no que estava fazendo, como se o próprio diabo a tivesse colocado ali. Não se arrependia, não havia do que se arrepender.
O tiro.
O grito.
O cheiro da pólvora.
O sangue.
A prostituta que estava ao seu lado sumiu rápida e furtiva como um gato preto em noite sem lua. O xerife nú caiu com o rosto estourado e logo estava sobre uma poça de sangue. Sua mãe chorava e gritava e tentava esconder sua nudez vergonhosa, tudo ao mesmo tempo, totalmente fora de si. Ele soltou a respiração e suspirou. Guardou a arma, com uma estranha tranqüilidade na alma, e lembrou do rosto de seu pai. Pensou em matá-la, mas era sua mãe, apesar de tudo. Mas o que disse a ela, ele pensava agora, a faria sofrer mais que uma bala. No entanto, nem o inferno a faria sofrer como merecia.
“Eu fiz o que tinha que fazer. Se há uma razão pra esse sangue, a razão é você.”
E partiu.
Partiu no último trem da tarde, junto com os últimos raios do Sol. Sem ter com quem conversar, aprendeu a falar com suas armas.

Uma década e meio depois, ele voltou para a cidadezinha, trazendo uma cicatriz no braço para cada ano que passara longe de casa. Voltou para acompanhar o enterro de seu pai. O cabelo já estava abaixo dos ombros. A barba alcançava o peito. Veio a cavalo e em silêncio. Quase nada mudara. Os únicos rostos novos eram de crianças. E dos rostos antigos, muitos não estavam mais lá. Ainda existia um ódio, um ódio como fogo brando em seu coração. Um ódio brando, largo e profundo como o oceano que vira em terras distantes. Havia algumas velhas de luto no enterro, mas nenhuma era ela. A possibilidade de que poderia estar morta passou pela sua mente, e aquilo o incomodou bastante. Um incômodo incomum. Inconveniente. Depois do enterro, montou seu cavalo e pensou em partir, mas ainda havia algo que o prendia ali, àquele fim de mundo que o próprio Deus esquecera há muito tempo. Um cachorro latiu para ele. Um cachorro usando coleira, mas andando sozinho. Um cachorro perdido. Ainda havia uma coleira, e por isso ele decidiu que deveria passar em casa.

A casa, antes de aparência opulenta, agora era só um casarão caindo aos pedaços, cheia de tábuas soltas e buracos nas paredes de madeira e janelas. Se chovesse, o que era difícil acontecer por ali, e a casa não viesse abaixo, certamente nada que estava dentro dela conseguiria permanecer muito tempo longe da água. Enquanto amarrava o cavalo, escutou o som do piano. Desafinado. Uma canção velha. Uma canção que teimava em trazer lembranças que, apesar de alegres, ele tentou afastar de sua mente. A porta, ao ser aberta, fez um som que parecia um grande felino que lança uma ameaça ao se sentir encurralado. Ela parou de tocar e virou-se, encarando-o. Estava velha, muito velha. Parecia que havia envelhecido cinqüenta anos, e não quinze.
“Eu não achei que você fosse voltar aqui.”
“Eu não ia voltar.”
“É, mas você voltou...”
Ficou um silêncio pesado na sala. Pesado como o ar cheio de poeira.
“Eu pensei em procurar você. Pensei nisso todos os dias, mas envelheci rápido demais. O arrependimento me consumiu.”
“Foi o pecado que a consumiu, mulher.”
“Não existe pecado, filho. Só escolhas e arrependimentos.”
Novo silêncio. Ele pensou em ir embora naquele instante, mas se fizesse isso, a coleira ainda estaria lá. Tampouco poderia matá-la, como havia feito com todos aqueles que tinham sido um empecilho para ele durante os últimos anos. Matá-la seria matar a si mesmo, ainda mais do que quando matava alguém que não tinha o mesmo sangue que ele correndo nas veias.
“Por favor, perdoe-me.”
Ela cortou o silêncio. Ela não podia fazer aquilo com ele, era um golpe sujo, desonroso. O inimigo que se entrega rouba do adversário a chance de vencê-lo por seu próprio mérito, assim como aquele que se mata rouba o da morte o poder de decidir o último momento de sua vida.
“Por favor... Perdoe-me.”
Novamente. Mas que golpe sujo era esse que ela usava, que transferia para ele o sentimento de culpa?!
“Eu estou velha, seu pai está morto. Nada mais pode ser feito. A única coisa que me mantém viva é a possibilidade desse perdão. Perdoe-me e permita que também eu descanse em paz.”
Ele já não conseguia esconder sua perturbação. Num gesto instintivo, sacou a arma e apontou para ela, sem pensar. Não conseguia pensar direito. Queria fazê-la parar, queria que calasse a maldita boca!
Mas ela sorriu.
Foi a primeira e única pessoa que conseguiu desarmá-lo em toda a sua vida. E desarmou-o com um sorriso. Percebendo a confusão em seu rosto, ela aproveitou para levantar-se de onde estava e dirigir-se a ele de braços abertos, buscando um abraço com o qual havia sonhado todas as noites durante quinze longos anos. Mas antes que suas mãos tocassem as costas de seu filho, um tiro.
O cheiro da pólvora.
O sangue.

O grito do homem ecoou através das portas quebradas e das salas empoeiradas e ela caiu em seus braços.
“Por que você não pode me perdoar?” ela ainda perguntou.
Ele afastou a arma e sentiu o tremor do corpo de sua mãe. Não entendia o que tinha feito. Não entendia o que deveria ter feito. Não sabia o que era certo, errado, ou mesmo se existiria certo ou errado.
“Mãe, o que significa isso? Como cheguei a estar contigo morrendo nos meus braços, de morte saída da minha arma, se eu te amo tanto? Como posso te amar tanto e não conseguir te perdoar? O que significa esse olhar sereno e despreocupado que agora vejo em teu rosto?”
Ao que ela falou:
“Você deixou que as paixões abrissem um caminho perdido dentro de você, meu filho, para longe, além das nuvens tristes. Agora é hora de sentir o gosto amargo da confusão que foi cultivada dentro de você cicatrizar junto dessa ferida.”
Seus olhos se perderam no labirinto ordinário de rugas do rosto de sua mãe, que ele já quase não reconhecia mais. Com asas de corvo a morte roubava sua última chance de redenção e o deixava perdido com seus demônios, pois ainda não estava acabado entre eles. Ele deixara sua arma falar por ele, mas a arma só falava a língua do desastre, e só conhecia o amor vingativo.

O choro do homem trazia consigo memórias cheias de dor e lágrimas enquanto ele enterrava sua mãe em uma cova rasa, mal sentindo o vento frio do fim da tarde. Estavam juntos de novo, afinal. O homem acreditava em destino. Sabia que teria que reencontrá-la, mas não pretendia nada daquilo.
Quando voltou para pegar seu cavalo, o mesmo cachorro estava lá, novamente. Tirou a coleira do cachorro e a levou consigo.
Gerson Boaventura
Enviado por Gerson Boaventura em 18/11/2007
Código do texto: T742658

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Sobre o autor
Gerson Boaventura
Fortaleza - Ceará - Brasil, 35 anos
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Gerson Boaventura